Vejo os títulos da imprensa de hoje nos quiosques. Títulos? Não, título. A manchete é comum: “Millennium apoia as empresas portuguesas”. Um título não informativo, mas publicitário. Muda apenas o grafismo, cuidadosamente adaptado a cada periódico. Por aqui se vê a extrema debilidade financeira da nossa imprensa: basta um banco — qualquer banco — lançar uma campanha publicitária para todos os diários generalistas lhe cederem o seu espaço mais nobre, que devia estar reservado a notícias e não a anúncios.
Acontecesse isto noutro tempo e não tardariam vozes de indignação a multiplicar-se contra este abastardamento da nobre função de informar. Mas a coisa já passa agora sem o mais leve sussurro crítico, o que é um inequívoco sinal dos tempos.
Compro um exemplar do i – o único diário generalista que ficou à margem desta campanha. É o único que tem, portanto, uma manchete noticiosa: “Portugal sem estratégia para tempestades marítimas”. Aqui fica a minha singela homenagem, enquanto leitor, ao jornal que quebrou o monopólio do Millennium neste chuvoso dia do novo ano.


Aliás, Pedro, em Portugal vemos de tudo, menos estratégias para tempestades. Não fosse a alma deste povo, que há muito desligou-se de politiqueiros e de banqueiros armados em políticos, a definir com calor a estratégia para sua vida, sua família e seus amigos, Portugal seria um deserto.
Já ontem me tinha apercebico dessa nova propaganda, juntamente com a propaganda do desgoverno relativa a uma nova quebra da taxa de desemprego (todos muito entusiasmados com a falsidade objectiva que propagam), e não fosse eu saber que a economia que sustenta a miséria é, e muito bem, a paralela eu até diria que isto ia de mal a pior.
Sei também que as estratégias futuras, por definições de normas feitas em organismos externos, será, sem qualquer sucesso, a tentativa de caçar a massa que circula no paralelo. Mas eu também sei que este povo sabe, assim como os outros, o bolso onde deve ter a massa.
E muito contente fico com estes factos, porque, para além de ver que alguém arrebita a sua vida à revelia de quem lhes quer tirar a vida, os agiotas jamais verão a colheita do que têm semeado.
Viva Portugal, a economia paralela, a transversal… e não a irreal!
Lamento muito que um banco – seja ele qual for – dite as manchetes (aliás, a mesma manchete) a quase todos os jornais.
Nunca tinha visto uma coisa destas, feita de maneira tão despudorada.
Eu acho que se perdeu a noção do que é uma notícia. Quando vou no carro e ouço os noticiários da Antena Um (deve ser masoquismo meu), constato que a Maria de São José pensa que as notícias são as reacções de uma qualquer formação política, de preferência da oposição (o que inclui a CGTP) a qualquer medida do Governo a qual, por vezes, só tem direito a uma frase. Foi aliás, um alívio quando ela foi de férias de Natal e, nesse interregno, passei a saber também mais qualquer coisita do que se passa no resto do mundo.
Só posso fazer minhas as palavras do post a seguir a este: “Como é que a comunicação social chegou a este ponto? Degenerando, degenerando…”
Não costumo ouvir rádio, excepto transmissões desportivas. Há muito que me fartei dos fóruns radiofónicos, todos iguais e todos incitando ao mais reles e desbragado populismo.
Mas conheço muito bem os jornais por dentro e continuo a lê-los todos. Tenho pena que a situação financeira de quase todos seja tão precária que não lhes permita enfrentar indignidades como esta: um banco decide impor-lhe a mesma capa, a mesma manchete, a mesma intromissão no mais nobre dos espaços. O da manchete, o da primeira página.
E – pior ainda – perante o silêncio de quase todos. Não escutei nem um sussurro daqueles que gostam de encher a boca com a palavra deontologia para efeitos de mero ‘marketing’ pessoal.
dada a importancia pública que atribuo a jornalismo deixo um blog que vale a pena espreitar pois foca atentados ao são jornalismo.:
jornalismoassim.blogspot.pt
Conheço esse blogue. Tenho pena que seja um blogue feito sob anonimato.
Mais parece que o assunto é folhetos publicitários. Se é, é fácil resolver: não se compra.
É o que muita gente tem feito. É o que muita gente continua a fazer, cada vez mais.