Sinais


Sérgio de Almeida Correia,

É claro que sondagens nunca substituem eleições e que a prova dos nove far-se-á nas legislativas. De qualquer modo, os resultados da sondagem que o Expresso publicou, na minha modesta opinião, dão sinais muito aproximados daquele que é o sentir da maioria dos portugueses relativamente ao caminho que tem vindo a ser seguido sob a batuta da chanceler alemã, da troika e, vá lá, do primeiro-ministro Passos Coelho.

Desta sondagem, aquilo que mais importará reter são os sinais para o futuro. E estes são claros: a avaliação do programa é claramente negativa e a opção a tomar deverá passar por um programa cautelar.

Quanto ao mais, já ninguém tinha dúvidas que três anos depois a situação dos portugueses piorou e que o país também está pior, ao contrário da peregrina ideia que o líder parlamentar do PSD quis fazer passar. Como se fosse possível dizer de uma família em que todos os membros ficaram mais pobres que aquela tivesse passado a viver melhor.

Alguns dirão que não havia alternativa. E quanto a isso direi que não podíamos continuar a viver à tripa-forra, fazendo de conta que éramos ricos, como se não houvesse amanhã, endividados até ao tutano para glória dos senhores banqueiros e nossa desgraça.

Mas continuo a pensar que, para além de erros crassos, políticos e de gestão, actuais e passados, muitos em resultado de decisões tomadas por ignorantes e gente impreparada para governar, por pura teimosia ideológica e ressabiamento em relação ao passado próximo, sem curar das consequências para todos aqueles que não tinham, nem têm, culpa nenhuma da incompetência de quem nos dirigiu nas últimas décadas, talvez chegue um dia em que será possível fazer o deve e haver das asneiras, imputando a cada um a sua dose de irresponsabilidade e de culpa.

Porque até agora os únicos que pagaram o preço do despesismo, da generalizada incompetência dos políticos saídos dos sinistros aparelhos partidários, e da austeridade “para além da troika“, são os portugueses, os que produzem algo de útil, as suas famílias e todos os que entretanto foram obrigados a sair de Portugal. Quanto aos outros, todos esses em que estão a pensar, esses safam-se sempre, seja agilizando negócios, traficando influências a troco de comissões pelos telefonemas que fazem, ou tirando partido das permanentes e corriqueiras ineficiências do sistema de justiça e de todos os outros sistemas que sobrevivem à custa deste.

Tirando isso, continuaremos todos à espera das reformas que um dia hão-de chegar e que uma vez mais ficaram por fazer. Só que desta vez ainda mais tristes, mais sós e infinitamente mais pobres. De trocos, mas também da companhia e dos afectos dos que partiram.

12 comentários em “Sinais”

  1. Ai ai…

    É claro que a situação dos portugueses “piorou”, antes o Estado pedia emprestado 12% do PIB – 24% dos seus gastos (quase 1/4 = 3,5 meses de ordenados da função publica) e hoje pede 4,5% do PIB ou 9% dos seus gastos ( pouco mais de 1 mês)

    Quando quem nos emprestava não o quer fazer mais ficamos “piores”.

    Tivemos vida a cartão crédito – Eurogold com reputação alemã – e acabou.
    Foi claro uma vida muito mais confortável…

    O que mais choca em Portugal é como parece ser difícil muitas pessoas entenderem verdades do Monsieur de La Palisse…

    1. Há muita iliteracia, traduzida em visões ingénuas e voluntaristas, no que diz respeito à economia. Todos sabemos que estamos no euro, mas creio que, como se farta de dizer o Dr. Medina Carreira, ainda não temos verdadeiramente noção do que tal significa, desde os direitos adquiridos (que têm uma expressão económica) até aos vários mecanismos de (re) equilíbrio (da competitividade ao déficit) que desapareceram com o fim do escudo.
      Há 20 anos, a desvalorização da moeda – em parte automática, em parte feita o que se fazia por decreto, tudo sem “dor” – até permitiria ganhos de competitividade & aumento dos ordenados – desde que estes aumentassem em percentagem menos do que o valor da desvalorização e inflação… Mas aumentavam, nominalmente e todos ficavam contentes.
      Hoje, como dizia Octávio Teixeira, o aumento da competitividade, no curto prazo, só se consegue ou com a baixa de salários ou a saída do euro…

      Também não se vê ninguém – ou pouca gente -, agora que se percebe que a velha questão nacional da falta de meios se mantém e que é preciso atrair capital, pensar em estratégias que façam com que um investidor prefira Portugal à República Checa ou à Polónia.

  2. Uma sondagem de há 4 anos.

    Está contente com o seu Banco — 99,99 sim.
    Pretende comprar casa mobilada /automóvel/ passar férias em Cuba com empréstimo do seu Banco e da Cofidis ….. 99,99 sim!

    Acha que as PPP são benéficas para o país — 99,99 — sim!

    Etc, etc, etc …. 99,99 sim!
    Era amem a tudo! Lembra-se?

  3. As respostas às 1ª, 3ª, 4ª e 5ª perguntas, é chover no molhado. No entanto as respostas às 4ª e 6ª perguntas, demonstram que ainda existe uma maioria de portugueses conscientes da realidade.
    Não deixa de ser curioso que na 2ª pergunta a percentagem que respondeu que as medidas de austeridade são “iniciativas do governo” (qual deles?), é práticamente igual à percentagem atribuida ao PS na última sondagem.
    Admito que esteja enganado, mas parece-me que a decisão do Tribunal Constitucional alemão publicada hoje, limitando a participação alemã nos fundos de resgate europeus a montantes concretos, deve ter dado uma machada nas teorias da mutualização das “dividas acima dos 60%”.

    http://economico.sapo.pt/noticias/constitucional-alemao-da-luz-verde-a-fundo-de-resgate-europeu_189292.html

  4. O país não piorou porque deixámos de pedir emprestado. Piorou porque falhou sobretudo a ideia peregrina de que bastava aumentar o desemprego e desregular a legislação laboral, provocando indiretamente uma abaixamento dos salários, para atrair investidores para empresas exportadoras.
    Os investidores fugiram da retração do mercado, as receitas do estado caíram – porque elas vêm sobretudo dos impostos sobre o trabalho -, o estado tornou-se mais insustentável e não só estamos mais pobres, como devemos mais.

    1. “Os investidores fugiram”… quais investidores, devo andar muito distraído.

      “As receitas do estado cairam”… tem a certeza?

      1. Fugiram, com o sentido que nunca apareceram.
        Venderam a ideia de que iam aparecer muitos investidores se liberalizássemos a legislação laboral, mas parece que alguém se enganou.

    2. Aqui temos o Pravda do Jo novamente.

      Então o Jo o corte dos gastos do Estado(que são em parte dívida e chegaram a 25% , 1/4 no fim do consulado Sócrates) não contribuem para o desemprego excepto quando em discursos queremos mais gastos do estado para contribuir para o emprego.

      É tudo e o seu contrário conforme as conveniências.

  5. Ao “keynesiano , graças a Deus” talvez fosse oportuno uma réstia de decoro, antes de vir rasgar as vestes por um punhado de automóveis de luxo (os que ele cita sê-lo-ão em todo o lado, de acordo, mas por cá muitos mais são-no porque a vergonhosa voracidade fiscal portuguesa nisso os transforma).

    Muitos desses carros terão sido comprados por, ou para uso de, gente que de facto estará sempre bem: gente ligada às empresas de regime e à facilitação de negócios, como se escreve. E quem melhor do que a cor política a quem o keynesiano presta constante vassalagem acarinhou e acarinha ao longo das últimas décadas o desenvolvimento desse sólido, intocável, grupo parasitário? Os outros também o fizeram (e por estes dias fazem, bem sei), mas serão sempre meninos de coro, na matéria, perante essa família política.

    A tal com quem não convém que nos metamos, porque “levamos”.

    E quem fala em automóveis fala em imobiliário de luxo, fala em vestuário de luxo, fala em relojoaria e joalharia de luxo, etc., etc.. Esses nichos de mercado (“clusters “, não é?, na linguagem dessa gente) sempre sobrevivem. A explosão de lojas de “prestígio” na avenida da Liberdade (e não só) não viverá apenas de chineses e angolanos. Do cidadão médio português é que não vive.

    O resto é o grande desígnio por trás de tudo isto, conhecido e preparado pelos que agora “lá estão” e pelos que lá estiveram antes (e lá voltarão, claro; ao que acham seu por direito divino, aliás): acabar com a classe média, criar uns milhões de formiguinhas operárias a esgravatar para apenas subsistir – sem tempo, energia, inteligência ou audácia para ousar querer mais do que isso – e, sobre eles, uma elite (ou como já pude ler – e muito melhor qualificado – uma matilha, no que essa denominação tem de pejorativo) despudoradamente confortável e imutável.

    Costa

  6. Significam os números que aqui reproduz que em sítio algum do mundo se conseguiria ver um povo tão consciente da necessidade de arrumar sua casa.

    E o que é absolutamente incrível no meio de tudo isto é o facto desses incompetentes, ignorantes, e acrescento, imaturos, megalómanos e meninos a cheirar a cueiros não terem sido capaz de utilizar toda esta força anímica para se corrigirem e corrigirem todo o sistema.
    Nunca neste país terá existido tanta consciência e apoio para promover as reformas na justiça, na saúde, no sistema político e no sistema empresarial público, no próprio funcionalismo público e acima de tudo no sistema empresarial privado, sem esquecer o sistema financeiro, que tem vindo a viver a benesses dos capatazes que vai jogando para cima do tabuleiro de acordo com a cor do momento.

    Mas não, não se aproveitou toda esta energia. O que se fez? Uns (a)fundaram e outros re(a)fundaram. Não existiu consciência de tempo e oportunidade para implementar um plano capaz de se criar um sistema ajustado às demandas da nação e aos compromissos contraídos. Os mercados, credores privilegiados, queriam sangue. Tiveram e ainda não viram a bufunfa. O que se faz? Recompras da dívida.
    E o que se viu? A ganância e o oportunismo para reduzir salários, cortar as ditas “regalias”, delapidar por delapidar os acordos jurídico-laborais e contratuais existentes sem pensar nos seus efeitos perversos, delapidação através da alienação de empresas públicas rentáveis etc. e …

    E o que aconteceu? Aqueles que defendiam tudo isto hoje ambicionam para que tudo volte ao mesmo. Até o aumento do salário mínimo se transforma em pão para a boca desta economia feita por economicistas.

    Mais ainda, existem todas as condições para os sonhados e prometidos investidores aterrarem. E o que vemos? Compradores no mercado de saldo.

    O que acontecerá depois disto tudo? Vai ser o estado que terá de promover novamente a recuperação económica só que agora, para lavarem a cara, dirão que estes investimentos é que são os tais que deviam ter sido feitos mesmo quando não eram necessários. Eles é que são os bons. Clap, Clap, Clap, Clap. E os alemães também o farão. Uma vez que não conseguiram ir para a frente com o TGV ao menos que seja por outros carris e até mesmo nos cais dos barcos. Lá vem o programa cautelar.

    1. Significam os números que aqui reproduz que em sítio algum do mundo se conseguiria ver um povo tão consciente da necessidade de arrumar sua casa.

      E o que é absolutamente incrível no meio de tudo isto é o facto desses incompetentes, ignorantes, e acrescento, imaturos, megalómanos e meninos a cheirar a cueiros não terem sido capaz de utilizar toda esta força anímica para se corrigirem e corrigirem todo o sistema.
      Nunca neste país terá existido tanta consciência e apoio para promover as reformas na justiça, na saúde, no sistema político e no sistema empresarial público, no próprio funcionalismo público e acima de tudo no sistema empresarial privado, sem esquecer o sistema financeiro, que tem vindo a viver a benesses dos capatazes que vai jogando para cima do tabuleiro de acordo com a cor do momento.

      Caro Vento foi mais oportunidade perdida. As suas frases que acima repliquei ilustram bem o que se perdeu e todos os dias se perde até que nada restará de Portugal e dos Portugueses.
      Infelizmente palavras leva-as o vento e em Portugal já poucos restam para mudar o rumo.

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