Sim, Senhor Ministro (5)


Pedro Correia,

article-0-031009E80000044D-711_634x400[1].jpg

 

Sir Humphrey Appleby – Bernard, você sabe muito bem que tem de haver uma forma de medir o êxito da administração pública. A British Leyland mede o êxito pela dimensão dos lucros ou, melhor dizendo, mede o falhanço pela dimensão dos prejuízos. Mas nós, na função pública, não temos lucros nem prejuízos. Temos de medir o êxito pela dimensão do nosso pessoal e pelo volume do nosso orçamento. Um organismo grande tem mais êxito do que um pequeno.

Bernard Woolley – Isso quer dizer que o responsável pela Autoridade Regional do Nordeste agiu mal ao economizar tanto?

Sir Humphrey – Claro que sim. Ninguém lhe pediu para fazer isso. Já pensou se todos fizéssemos o mesmo? Se todos começássemos irresponsavelmente a poupar dinheiro público?

Bernard – Mas é isso que o ministro quer…

Sir Humphrey – Os ministros vêm e vão. Duram em média menos de onze meses em funções. O nosso dever é ajudar o ministro  bater-se por mais dinheiro para o ministério, por maior que seja a reacção de pânico que isso lhe provoque.

Bernard – E não o ajudamos a superar o pânico?

Sir Humphrey – Não, não. Ele que fique em pânico. Os políticos apreciam isso, o pânico fá-los sentir activos. Serve-lhes como sucedâneo das concretizações. Só temos de nos certificar de que isso não altera nada.

Bernard – Mas são representantes do povo, democraticamente escolhidos…

Sir Humphrey – Os deputados são escolhidos pelas secções locais dos partidos: 35 homens de gabardina ou 35 mulheres com chapéus ridiculos.

Bernard – Mas o Governo é escolhido de entre os melhores deles…

Sir Humphrey – Bernard, só há 630 deputados. Basta um pouco mais de trezentos para formar governo. Desses trezentos, cem são demasiado velhos e demasiado tontos. Outros cem são demasiado jovens. Sobram cem deputados para preencher cem postos governamentais. Não há escolha. Não houve selecção nem preparação. Temos de ser nós, na administração pública, a fazer o trabalho deles.

0 comentários em “Sim, Senhor Ministro (5)”

  1. Pedro, parabéns. Andei uns dias arredado do blog e hoje deparei-me com esta fantástica série.
    Ler estes textos fez-me dar duas ou três gargalhadas num local menos apropriado, mas paciência…
    Eu era um espectador incondicional desta sitcom, talvez uma das melhores caricaturas da política e da administração pública que eu conheço.
    Obrigado por esta lembrança.

    1. Obrigado, Nuno. Estes textinhos vão continuar: é a forma que escolhi para prestar homenagem a uma das minhas séries preferidas de todos os tempos. O mais espantoso, agora que a revisito, é verificar até que ponto os diálogos (e os conceitos, e os temas, e a mentalidade que se satiriza) se mantêm tão actuais 35 anos depois.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *