Sim, Senhor Ministro (11)


Pedro Correia,

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker – Em dez anos, o pessoal administrativo na saúde aumentou em 40 mil pessoas enquanto passou a haver menos 60 mil camas nos hospitais. O custo anual do Serviço Nacional de Saúde aumentou 1,5 mil milhões de libras!

Sir Humphrey Appleby – Ah, se a indústria inglesa conseguisse crescer assim…

Ministro – Acha que gastar cada vez mais dinheiro em cada vez menos doentes para contratarmos cada vez mais funcionários é uma boa maneira de gastarmos o dinheiro dos contribuintes?

Sir Humphrey – Certamente.

Ministro – O orçamento da saúde existe para tratar os doentes.

Sir Humphrey – Não, de maneira nenhuma! O orçamento serve para toda a gente exibir sensibilidade social. Quando é atribuída mais verba aos serviços sociais ou à saúde, o parlamento e o país sentem-se limpos, purificados, absolvidos. É um sacrifício.

Ministro – Conversa fiada.

Sir Humphrey – Quando se faz um sacrifício, ninguém pergunta ao sacerdote o que aconteceu à oferenda ritual depois da cerimónia.

Ministro – Engana-se. As pessoas preocupam-se se a verba for mal gasta.

Sir Humphrey – Senhor ministro, elas só querem que a verba não pareça mal gasta.

Ministro – Isso é cinismo! Concorda ou não que é um desperdício haver um hospital aberto só para lá ter funcionários, como acontece no hospital St. Edward?

Sir Humphrey – Eu não poria a questão nesses termos…

Ministro – Então como a poria?

Sir Humphrey – O senhor ministro fala como se não houvesse mais nada para fazer num hospital.

Ministro – Que mais se faz neste hospital sem doentes?!

Sir Humphrey – Em St. Edward há secções ocupadíssimas. Por exemplo, a secção de Planeamento de Emergências – em caso de incêndios, guerras, ataques aéreos, bombardeamentos nucleares, epidemias, envenenamento de alimentos ou águas: numa crise dessas o hospital é vital para a sobrevivência. Depois há a Secção de Dados e Investigação, que organiza estudos demográficos de toda a zona: temos de prever as futuras exigências de maternidade, geriatria, pediatria… Há também as Finanças, com previsão de contas, balancetes… E a Secção de Compras, para aquisição de equipamento médico e avaliação de catálogos…

Ministro – O que é que compram?

Sir Humphrey – Compram tudo, senhor ministro. Desde encefalógrafos a detergentes. Posso continuar?

Ministro – Seja breve.

Sir Humphrey – Quem me dera, mas o senhor precisa de perceber. Há a Secção Técnica, para o equipamento. Há a Secção de Construções. Há as secções de Manutenção, Limpeza, Abastecimentos, Pessoal… E há funcionários da Assistência, para olharem pelos outros 500 funcionários do hospital. E, finalmente, há os serviços administrativos.

Ministro – ?!!

Sir Humphrey – É um trabalho importante, senhor ministro: asseguram a dactilografia, escalas de armazém, a ligação entre os diversos departamentos…

Ministro – Não consigo perceber se você está a falar a sério ou não…

Sir Humphrey – Como assim?

Ministro – Não há doentes! É para isso que um hospital existe. Pacientes. Gente doente. Curar os enfermos.

Sir Humphrey – Todas as funções vitais de que lhe falei têm de ser asseguradas. Com ou sem doentes.

Ministro – Porquê?!

Sir Humphrey – O senhor acabava com o Exército só por não haver guerra?

Ministro – Isso é completamente diferente. Um hospital tem de produzir resultados.

Sir Humphrey – Não avaliamos o êxito pelos resultados, mas pela actividade. E a actividade ali é considerável. Aqueles 500 funcionários hospitalares estão sobrecarregados de trabalho, senhor ministro. Aliás o quadro completo do hospital devia ser de 650 e não apenas de 500.

0 comentários em “Sim, Senhor Ministro (11)”

  1. Pedro Correia
    Em complemento do que lhe referi por Mail, considero que “esta série” que em muito boa hora entendeu iniciar é excelente. Se cada um de nós se der ao trabalho de ponderar sobre estes assuntos e, sobretudo, procurar parecenças com a nossa realidade e a nossa envolvente, verificaremos melhor um conjunto de “arestas” que bem precisávamos de limar neste nosso e querido País.
    António Cabral

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