Sim, falar falamos


Sérgio de Almeida Correia,
TASS33281723.jpg(créditos: Anton Novoderzhkin / TASS)

 

In illo tempore, em Moçambique, um médico foi chamado a arbitrar um conflito que, creio, opunha um curandeiro a um régulo num lugarejo remoto. Não falando o dialecto local o clínico recorreu a quem o acompanhava para a tradução. Passados uns bons minutos, durante os quais os intervenientes iam, pensava ele, terçando argumentos enquanto faziam vénias e trocavam sorrisos e gargalhadas, o árbitro interrompeu para perguntar o que já tinham dito. “Até agora nada, doutor, têm estado só a falar”, respondeu o tradutor ad hoc.

Vem isto a propósito porque ao chegar a casa liguei a televisão e dei de caras com a conferência de imprensa de Mike Pompeo e Sergei Lavrov, em Sochi.

Pelo que ouvi, praticamente todos os assuntos importantes e que interessam à comunidade internacional foram passados em revista. Venezuela, Síria, Irão, Ucrânia, eleições presidenciais nos EUA, “democracia” na Líbia. Calculo que o ataque de drones na Arábia Saudita também tenha sido ventilado.

Estranhei, apesar de tudo, que não tivessem falado das incidências dos jogos da “Liga Nos”, nem do “VAR”. Mas o tempo não dá para tudo nos canais internacionais. E lá fora não se podem dar ao luxo de ter um exército de “paineleiros”, de todas as formas e feitios, com os penteados, as gravatas e os sotaques mais mirabolantes, durante horas, dias, anos a fio, em múltiplos canais de televisão, falando em futebolês criativo, faça chuva ou faça sol,  gritando e gesticulando, oferecendo-se reciprocamente mimos, não raro desafiando-se para duelos “lá fora”, como se fossem Jaime Nogueira Pinto e Ruben de Carvalho a discutirem a crise dos mísseis cubanos. Têm sempre pano para mangas. E audiência, o que é ainda mais espantoso.

De qualquer modo, deu para perceber do encontro em Sochi que a atmosfera foi muito “amigável”, de grande respeito mútuo e admiração. Nas palavras do MNE russo foi uma “conversa franca e útil”. 

Confesso que não vejo grande diferença entre o que aconteceu no Vale do Limpopo com o conflito que opunha o curandeiro ao régulo e o que, ultimamente, Trump e Xi Jinping dizem de cada vez que se reúnem. “We have a good dialogue with China”, diz o estado-unidense. Quando não corre bem não passa de um “we had a little squabble with China”. Acontece o mesmo nos encontros com o celerado Kim, da Coreia do Norte, com excepção da parte da conferência de imprensa. Porque há sempre um que amua antes da sobremesa. 

A situação não foi hoje muito diferente no diálogo de Pompeo com Lavrov. Para todos os efeitos, conversa franca e útil, claro.

Os impasses, como as crises, os refugiados, o perigo nuclear, o terrorismo, a catástrofe ambiental, o drama da fome, as epidemias, a miséria moral, a estupidez humana e a ignorância é que são hoje permanentes. E cada vez mais universais.

0 comentários em “Sim, falar falamos”

  1. Os americanos neste momento têm cercada a Rússia com incontáveis bases militares e alianças com os governos corruptos da Ásia Menor , de modo a estrangularem economicamente a Rússia, por via dos novos pipelines previstos para o Turquemenistão. Aliás os EUA pressionaram recentemente a Alemanha para que não deixe passar um pipeline “russo” no seu território.

    Já para não falar no alargamento da Nato a leste, com a instalação de misseis nucleares na Polónia, e a saída dos EUA do Tratado das Forças Nucleares de Alcance Intermédio.

    Pergunto-me como reagiriam os americanos numa situação oposta?

    Putin: US anti-missile defence puts Europe in the crosshairs

    https://youtu.be/EE8C5fRcgl8

    Viva a Rossiya-Matushka

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