Sim, a crise é uma oportunidade


Teresa Ribeiro,

Infelizmente, nunca poderemos saber se em circunstâncias menos desesperadas, o executivo de Passos Coelho estaria disposto a “sujar as mãos”, levantando pedras de onde se desprende um cheiro nauseabundo. Mas já que é obrigado a fazer aquilo que nenhum outro sequer tentou, por falta de vontade política, este governo faz bem em escavar, descobrir os podres do sistema e partilhá-los. As pessoas precisam de perceber até que ponto os anteriores governantes deixaram este país a saque, para suportar os sacrifícios que lhes pedem agora. Mas encostar os contribuintes à parede revelando-lhes os buracos das contas públicas não chega. Nem tão pouco arregaçar as mangas e começar a mostrar serviço relativamente aos prometidos cortes na despesa.

Na sua propaganda, o executivo gosta muito de falar de coragem ao anunciar as suas poupanças. Está no seu papel, mas eu não chamaria corajosas às reformas que se fazem sob coacção do exterior. Diminuir serviços, despedir pessoas, fechar empresas do Estado é consequência directa do cada vez mais polémico acordo que foi assinado com a troika. Só reconhecerei coragem a este governo se não se limitar a cumprir este caderno de encargos e ousar fazer as reformas para que os nossos amigos da UE se estão nas tintas, mas que são as únicas que poderão assegurar um futuro melhor a este país e consequentemente dar-nos um sentido para as restrições a que nos estamos a submeter.

Criem condições para acabar com isto, isto e isto. Fico à espera não de conversa, mas de medidas concretas. Enquanto estas não vierem, bem pode o executivo de Passos falar de coragem política, que não me convence.

5 comentários em “Sim, a crise é uma oportunidade”

  1. Cheia de razão, Teresa. Tenho para mim que a corrupção – a grande, a pequena, a média, o tráfico de influências, a confusão entre os negócios públicos e os privados – é o principal cancro do país. Do nosso e não só. Mas interessa, para já, o nosso. Haja, pois, coragem para criar condições para pôr termo a este estado de coisas, por demais enraizado na nossa vida colectiva e, pior do que isso, nas nossas mentalidades. É que, se bem reparares, no fundo, no fundo, ninguém é verdadeiramente contra a corrupção, porque, no fundo, no fundo, todos nós temos um pequeno corrupto dentro de nós (uns mais do que outros, entenda-se), o que nos leva a fustigar os corruptos conhecidos, mas não muito, porque nos falta legitimidade moral para o efeito.
    É nos pequenos comportamento do dia-a-dia que o vírus se instala. Todos nós – uns mais do que outros, volto a sublinhar – achamos perfeitamente normal a cunhazinha para o emprego público, mesmo quando isso significa que alguém vai sair prejudicado. E também achamos normal uma nota entalada no cumprimento ao funcionário para olear a máquina que vai despachar mais depressa.
    É boa a crise, tal como dizes, para mudar a situação. Já escrevi algures que este governo tem condições excepcionais para fazer as reformas que importam. Os portugueses estão resignados aos sacrifícios e estão a aprender alguma coisa, a avaliar pelo crescimento notório da poupança. No fundo, todos sabemos que andámos demasiado tempo a gastar demasiado e, sobretudo, a gastar o que não tínhamos. É, pois, de aproveitar o balanço. E, tal como já escrevi algures, os portugueses estão dispostos a levar com o pau, a não ser – questão importante – que comecem por aí a surgir notícias de que há no actual poder quem esteja a fazer a habitual confusão entre o que é público e o que é privado.
    Aida assim, acho que tudo isto é pouco para nos credibilizar como país. É preciso mais. Por exemplo: suponho que neste momento haja muitos portugueses preocupados com a flexibilização das leis laborais, com o montante do subsídio de desemprego, com os limites à indemnização por despedimento, mas quantos trabalhadores portugueses desempregados ou em vias disso estarão neste momento a pensar em criar o seu próprio posto de trabalho e, porventura, o de mais alguns? E quantos empregadores estarão preocupados com a responsabilidade social das suas empresas? E quantos portugueses estarão já convencidos de que não podemos ser um povo maioritariamente dependente dos empregos do Estado, ou dos subsídios do Estado? E quantos portugueses estarão dispostos a sair do litoral – apesar de uma vida periclitante – rumo ao interior, aproveitando a possibilidade de fazer uma vida nova, com outros condimentos e outras perspectivas, ao invés de andarem a clamar contra políticas que desertificam o interior? E quantos portugueses terão já percebido que o Estado Social, tal como tem existido, não pode persistir, sob pena de não haver Estado Social nem Estado?
    Não tenho dúvidas de que os portugueses precisam de bons exemplos de quem nos governa. Mas também precisamos de estar preparados para encarar a nossa vida de outra forma. Ou, então, não vale mesmo a pena.

    1. Joaquim, embora concordando com tudo o que disseste sobre os portugueses, penso que invocar a culpa colectiva quando falamos dos nossos problemas estruturais é sempre a melhor forma de iludir as responsabilidades de quem está em posição de promover a mudança, fazendo as reformas que se impõe. A cultura, essa, depois muda. Quem disse que a cultura não muda por decreto?

  2. Inteiramente de acordo com ambos. Este governo tem condições invulgares e autoridade para reformar os podres que tem estado a destapar. Não basta atacar as consequências do descalabro anterior – é o mais urgente, admito – mas é imperioso que ataque também as causas. Espero sinceramente que o faça, até porque seria a estratégia mais inteligente: depois do que foi anunciado hoje é duvidoso que ganhe as próximas eleições, a não ser que mantenha os portugueses convencidos de que os gigantescos sacrifícios que lhes são pedidos têm uma finalidade concreta e resultados visíveis. Uma finalidade não só económica, mas também (e sobretudo) moral. Espero que a coragem demonstrada até aqui não esmoreça com o aproximar das eleições.

    1. “É imperioso que (o governo) ataque também as causas” deste descalabro, “uma finalidade não só económica mas também (e sobretudo) moral” – disseste-o muito bem. Mas já reparaste que sempre que se fala disto pesa um enorme silêncio? Não me refiro ao post, mas às declarações que a espaços pessoas de mérito e autoridade moral reconhecidos fazem a este propósito. Quando saem a público parece-me sempre que ficam a falar sozinhos. Raramente geram discussão continuada e muito menos reacções por parte de quem tem poder para tomar medidas.
      A corrupção e o tráfico de influências são invocados constantemente nos debates parlamentares, mas só têm servido como arma de arremesso. No concreto pouco ou nada se tem feito para os combater. Só que enquanto isto não mudar, as condições que nos levaram até aqui vão-se manter. O que quer dizer que estes sacrifícios que agora nos pedem, poderão, na melhor das hipóteses, ter um efeito corrector da nossa economia a finanças meramentente conjuntural. Nada mais.

      1. Mas eu tenho realmente esperança de que alguma coisa seja feita nesse sentido, Teresa. A mudança demorará a fazer-se sentir, mas acredito que já está em marcha. Gostei francamente da atitude de Passos Coelho hoje no debate parlamentar: deu o peito às balas com serenidade, humildade e firmeza, sem se furtar a respostas e sem rodriguinhos de político matreiro. Pela primeira vez em muitos anos, senti que – apesar dos sacrifícios homéricos que nos exigem – estamos bem representados com este primeiro-ministro. Espero não me enganar.

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