Será isto o que nos espera?


Sérgio de Almeida Correia,

Em quaisquer circunstâncias, a indiferença foi sempre um estado de espírito ou uma atitude que me assustou. Somos feitos de matéria, temos vontade, aparentemente pensamos e somos seres capazes de tomarmos decisões, o que nos distinguiria de outras espécies que ocupam o mesmo espaço neste planeta onde habitamos. As imagens do vídeo que aqui trago, divulgado pelo La Reppublica, não devem ser vistas como um mero caso de violência urbana numa cidade que tem fama, injustamente para muitos dos seus cidadãos, de ser um dos locais de acolhimento dos camorristas. O roubo por esticão vulgarizou-se por todo o lado, a falta de segurança não é um exclusivo de Nápoles, a violência faz parte do quotidiano de muitos países, Portugal não foge à regra. Os relatos diários de alguma imprensa confirmam-no. Fosse por isso e não vos traria aqui estas imagens. O que me leva a convocar-vos para as verem é o facto de perante uma cena como a que foi filmada e presenciada por algumas dezenas de pessoas, a única que saiu em defesa da vítima foi, imagine-se, um jovem emigrante. No caso tratou-se de um pedinte de origem africana, aquilo a que muitos entre nós chamam um “sem abrigo”. De todos os que ali estavam naquele momento talvez fosse aquele que tinha mais a temer pelas consequências, pela origem, pelo estigma da cor da pele. Porém, foi ele o único que se levantou, que ofereceu resistência, que se indignou, que cumpriu um dever de cidadania sem que esta lhe seja conferida. Para tantos que hoje gritam contra a emigração, contra a presença de estrangeiros, que culpam os outros pela crise, pela falta de empregos, pelos salários baixos, e que insistem em fechar as fronteiras enquanto olham de soslaio e com desdém para os que fogem a um destino de miséria e tentam encontrar na Europa o que lhes foi negado na terra de onde provavelmente nunca teriam querido sair, estas imagens devem obrigar a uma reflexão. Sei que esta não mudará quase nada no nosso dia-a-dia, mas talvez possa ajudar-nos a olhar para alguns que connosco se cruzam com outros olhos. O outro somos nós. A vítima também.    

15 comentários em “Será isto o que nos espera?”

  1. A mim aconteceu-me uma vez, ser assaltado no meio da rua por meia dúzia de adolescentes, num café a dez metros de distância estavam umas pessoas sentadas na esplanada, num stand de automóveis mais adiante estavam dois homens, eu gritei por socorro e ninguém se mexeu.
    Cheguei à conclusão de que este é um povo de merda que bem merece tudo o que lhe está a suceder.

    1. Caro Luís, isso é essencialmente decorrente da condição humana e da impessoalidade das relações em (grandes) cidades. Na Holanda decorre(u) uma campanha para pedir às pessoas que tivessem mais envolvimento nestas situações, especialmente em casos de abusos de condutores de transportes públicos. Na Alemanha já vi precisamente esta situação a suceder (e, tal como as outras pessoas na rua, nada fiz). Não é uma questão de povo, é uma questão de mentalidade. Se for para cidades pequenas, vilas ou aldeias, garanto-lhe que na maioria das vezes o criminoso se arrisca a ser de imediato chacinado.

      Recordo-me de uma história com alguns 30 anos no Alentejo que me contaram. Duas pessoas teriam assaltado um estabelecimento comercial (banco/ourivesaria/outro – não recordo bem isso) e à saída foram vistos por um caçador que regressava a casa. O caçador saca da caçadeira e abate ali mesmo os criminosos. A polícia chegou e ninguém viu nada. A polícia teria escrito no relatório que os assaltantes morreram por envenenamento com chumbo. Fosse hoje e/ou numa cidade grande, ninguém se teria mexido, aposto.

      1. Caro Sérgio, o primeiro parágrafo do seu comentário contradiz o seu post. Segundo esse parágrafo, todas as pessoas no vídeo exibido no post agiram bem, com exceção do imigrante africano, que é um desadaptado à vida nas grandes cidades e nada entende da saudável impessoalidade das relações.
        Mantenho a opinião que exprimi no meu comentário. O imigrante africano agiu bem e quem não age como ele não vale um chavo.

  2. Ainda bem que em Nápoles tudo terminou como terminou, pois tenho a certeza que aquele imigrante estaria metido num sério problema se não tivesse terminado assim. O acto de cidadania é feito por cidadãos, e estes poucos existem. Olhe que eu afirmo isto por experiência na primeira pessoa do singular e não porque tenha visto o vídeo que postou.

    Aliás o sistema está pensado para que as pessoas se comportem mesmo assim, sempre apelando ao seu egoísmo, cobardia e comodismo. De que adianta indignar por um assaltante especialista na técnica do arrastão quando andam por aí bandidos intocáveis em carros de grande cilindrada a arrastar e a arrestar os bens que também não lhes pertencem.

      1. Faltou colocar um ponto de interrogação no último parágrafo de meu comentário.
        E sim, o sistema são as pessoas. Mas isto só confirma o que produzi.

      2. Caro Sérgio,
        permita que discorde, as pessoas participam no sistema, não o fizeram.
        Umas participam no sentido da herança, outros no sentido da mudança, sendo claro que a 6ª num carro de 5 velocidades é a marcha-ré.
        Quem beneficia da herança só alinha na mudança se for clara a errança.
        O contexto dá sinais do erro, mas é preciso olhos para ver o problema dos modelos, para além do detalhe das unhas que não incomoda as passerelles.
        O que se vê nas passarelles?
        Que o modelo social é forçado a uma anorexia para caber num ideal implantado em cabeças esqueléticas de pensamento. A estrutura visada são ossos e músculo, e tudo o resto são gorduras a eliminar… excepto, é claro, o viver à conta, a chamada “mama”.
        Enquanto não se questionar a origem da inspiração, os vómitos espelham as contradições entre modelos da cripta e o olear da realidade.

        E estou de acordo com o Vento, o imigrante fez o que devia, mas arriscou problemas com a camorra, com o estado, e o toque final é o regresso à posição de mendigo, sem ter merecido qualquer apreço alheio.

  3. O imigrante fez aquilo porque é o menos ultra-civilizado.

    Auto defesa é um conceito que está contra as regras da ultra-civilização europeia.
    A ultra-civilização defende que só o Estado pode usar a violência.

    Veja-se por exemplo o que defende a Polícia/Estado em Inglaterra ou como os tribunais tratam quem se defende.

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