Em miúdo sempre me fez confusão ouvir o meu pai dizer que era saloio. Ainda para mais porque o dizia com algum orgulho. Referia-se, percebi anos mais tarde, ao facto de ser natural de Santa Iria da Azóia. Recordei o significado benigno da palavra a propósito de um texto que Ferreira Fernandes publicou hoje no Diário de Notícias.
Comecemos pelo princípio. A historiadora Maria de Fátima Bonifácio publicou um artigo de opinião com laivos de racismo no jornal Público este fim-de-semana. Igualmente grave, pelo menos na óptica de um espaço de opinião, escreveu um texto cujos argumentos são francamente débeis e desadequados para sustentar uma opinião perfeitamente atendível – a saber, a oposição à criação de quotas para minorias étnicas. Não gostei do texto. Não o subscrevo.
Hoje, no Diário de Notícias, Ferreira Fernandes enfatiza o racismo do texto de Bonifácio. Mais, Ferreira Fernandes recorre ao seu percurso de vida para evidenciar a fragilidade dos argumentos da historiadora. Defende, contudo, o jornal onde a opinião foi publicada, lembrando os leitores que sem o Público seríamos “uns saloios”. Avocando a minha costela saloia, é aqui que a porca torce o rabo.
Não me custa nada admitir que a leitura do Público foi parte importante dos meus anos formativos. Acontece, porém, que o Público dos meus tempos de faculdade desapareceu. A secção de Internacional forte, bem informada e bem escrita mirrou, desinformou-se e é actualmente quase um pro forma nas páginas do jornal. As ‘causas’ e o cosmopolitismo do Público, que sempre apreciei, sustinham-se em argumentos, mas hoje sustêm-se em militância. São opções legítimas, mas é um jornal diferente, mais saloio.
Porventura a maior prova dessa diferença é o editorial assinado por Manuel Carvalho. Além de demonstrar arrependimento pela publicação do artigo de Maria de Fátima Bonifácio, Carvalho afirma que “as reacções e episódios associados a esta polémica obrigam-nos a reforçar os critérios de exigência e selectividade”. E aqui reside o verdadeiro problema. Os arrependimentos são legítimos – que atire a primeira pedra quem não os tem –, mas subordinar o rumo do jornal a “reacções” e “episódios” não se coaduna com um periódico que pretende converter saloios em gente informada. É navegação de cabotagem.
Gosto de Manuel Carvalho e ainda mais de Ferreira Fernandes. E de Maria de Fátima Bonifácio também. Leio-os sempre, mesmo quando discordo do que defendem – o que acontece com alguma frequência. Jamais em circunstância alguma, mesmo perante textos escabrosos e tontos, apoiarei qualquer tentativa de censura, sobretudo se fundada em “reacções” e em “episódios”. Penso desta forma por várias razões, entre as quais ter lido o Público nos meus anos de faculdade. Mas esse Público desapareceu e esta polémica com Maria de Fátima Bonifácio é prova disso. O meu pai é saloio, eu tenho uma costela saloia, não nos livramos disso. O Público é saloio por opção.
ADENDA: muito recomendável a leitura do ‘postal’ do José Pimentel Teixeira aqui, no DELITO, sobre o mesmo assunto.

Nem uma vírgula a mais!!
Bem haja,
Um abraço saloio
Parabéns Diogo!
” (…) apoiarei qualquer tentativa de censura, sobretudo se fundada em “reacções” e em “episódios”.
Não será que distraiu e que queria dizer o conttrário?
“…Jamais…[…] apoiarei…”
Convém ler e… ler bem.
Reli o seu texto e vejo que escreveu bem. Eu é que li cruzado e não captei a sua ideia correctamente. Desculpe.
Neste blog existe sempre alguém que analisa e exprime correctamente o que pensa.
Parabéns !
A.Vieira
O curioso do texto de Ferreira Fernandes é que termina um artigo supostamente contra o racismo usando o termo saloio como se fosse pejorativo.
Ora, diz-se que os saloios (também como eu) são descendentes de mouros que viviam nos arredores de Lisboa aquando da conquista da cidade por D. Afonso Henriques e que por lá ficaram.
A palavra mantém-se “insultuosa” passados quase mil anos. Usando a mesma lógica, não será isto racismo também?
David
Alguém diga ao estúpido do FF que escolher alguém por causa da cor da pele é que é racismo. Discriminação positiva é racismo – e não fazer uma merda de um artigo de opinião contra isso. É este o assunto.
Para haver verdadeira igualdade, um preto ou um cigano deve ser tão prejudicado como todos nós que não temos amigos na política e não temos como pagar a renda.
Moral de toda esta triste história:
1) “La Bonifácio” resolveu dar uma de Ana Gomes (a valentona que diz todas as “verdades” – na opinião dela – doa a quem doer) e acabou por fazer figura de parva e levar na cabeça.
2) “El Pena Pires” e “el Ferreira Fernandes” apenas vieram demonstrar que de boas intenções está o Inferno cheio e que quando se defende alguma coisa, não por convicção mas apenas porque parece bem, a emenda acaba por ser pior que o soneto.
3) E as agrestes palavras do comentadeiro “el V.” apenas vieram demonstrar que estas cenas maradas das quotas e da discriminação positiva, apenas servem para dar munição aos racistas e seus derivados que, agora, vão passar a dizer que todos os negros ou ciganos competentes e bem sucedidos – que existem, por incrível que pareça a alguns… – devem esse sucesso apenas às tais quotas e não aos seu próprio mérito.
Enfim, vidas…
No meu planeta só existem pessoas: i.e. cidadãos registados num determinado buraco com os mesmos direitos mas sobretudo os mesmos deveres. E ou cumprem os seus deveres ou vão prá pildra (ou melhor ainda, deportem-nos para o Brasil).
Quando começam a jogar a cartada das cores e do género e do raio que o parta para obter subsídios e privilégios fico logo eriçado. A igualdade já existe na Lei e é a única que pode existir. Quanto ao resto VTPróC.