Ser ou não ser soberano na UE


Pedro Correia,

imm_1826826c[1].jpg

 

É curioso: alguns dos que se apressaram a contestar a suspensão da aplicação das regras vigentes no Espaço Schengen, por decisão soberana de Estados-membros da União Europeia, costumam estar na primeira linha da crítica à UE por desrespeitar as soberanias nacionais.

Eis que, no momento em que há países a adoptar medidas que consideram de estrito interesse nacional, as mesmíssimas vozes fazem-se escutar em contestação intransigente desse exercício de soberania.
Sem sequer repararem na contradição em que tombam.

 

A suspensão provisória das regras de Schengen para cidadãos extra-comunitários é plenamente justificada pelo imenso afluxo de pessoas oriundas da Síria, Iraque, Eritreia, Somália, Líbia, Sudão, Etiópia, Nigéria, Iémene, Afeganistão, República Democrática do Congo, República Centro-Africana, Mali, Paquistão, Nepal e Bangladeche que – salvo raríssimas excepções – procuram a Alemanha ou a Suécia como destinos finais.

Segundo dados do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, cerca de 450 mil já terão chegado ao continente europeu desde o início do ano: é aqui que encontram refúgio e esperança numa vida melhor. Fora da Europa, apenas a Turquia (dois milhões, o equivalente a 2% da sua população, o Líbano (um milhão, cerca de 28% da sua população) e a Jordânia (600 mil, o que corresponde a 10% do número de habitantes do país) têm acolhido estes imigrantes, que em grande parte escapam a situações de guerra – mas também à mobilização militar obrigatória decretada pela ditadura síria e a condições de penúria económica existente nos continentes africano e asiático.

A suspensão temporária que agora vigora decorre da necessidade de proporcionar condições mínimas de acolhimento a quem chega e de identificar devidamente todos quantos demandam o espaço comunitário. Para prevenir males maiores a curto prazo, pois os efeitos perversos da política de portas escancaradas são facilmente previsíveis. Desde logo, para travar o crescimento de movimentos extremistas e xenófobos um pouco por toda a Europa, inflamados pela retórica anti-imigrante. Além disso, para impedir uma sensação crescente de insegurança no espaço da UE: é fácil prever que o chamado ‘estado islâmico’ tem capacidade para infiltrar estas correntes migratórias que circulam de país em país muitas vezes sem documentação e quase sempre sem controlo.

Não accionar agora este travão provisório acabaria fatalmente por condicionar em definitivo um dos pilares da construção europeia, que é a liberdade de circulação. Só a Baviera recebeu desde 31 de Agosto cerca de 70 mil pessoas oriundas de outras latitudes e muitos milhares continuam em movimento – sempre de leste para oeste e de sul para norte.

Perante tanta demanda, a capacidade de acolhimento torna-se limitada. Sendo inquestionável que nenhum genuíno refugiado será remetido à procedência: quem escapou do terror da guerra e da opressão de regimes tirânicos tem o direito de encontrar asilo num continente que se gaba de ser livre.

 

Enquanto este escrutínio começa a ser feito, na medida do possível, vou escutando alguns indignadinhos de sofá no conforto da Europa Ocidental clamando contra a “repressão” e a “desumanidade” na UE.

São os mesmos que até hoje não proferiram o mais leve sussurro contra a brutal ditadura de Assad, responsável pelo banho de sangue em curso na Síria, com 240 mil mortos já confirmados.

São os mesmos que não ousam indignar-se contra a Rússia de Putin – aliada nº 1 da tirania síria – e as milionárias monarquias do Golfo Pérsico, que até agora não acolheram um só refugiado.

São os mesmos que, num exercício de chocante duplicidade moral, ousam até imputar ao Ocidente o patrocínio moral das atrocidades do auto-intitulado “estado islâmico”.

Os mesmos que desatariam a lançar pragas se vissem multidões de refugiados a rondar-lhes os bairros, os prédios e os quintais.

0 comentários em “Ser ou não ser soberano na UE”

  1. Há muitos imigrantes e migrantes que se vão sentir órfãos da “mãezinha” Merkel.
    Felizmente que todos esses, que até nem querem cheirar a Rússia, não consideraram “pai” o nosso primeiro. Pois em Portugal há órfãos a dar com pau e outros procurando um pai ou mãe que os acolha mundo fora (100 mil entre 2012 e 2013).

    A Europa chegou a acordo em receber 120 mil, distribuindo-os. E o encerramento de fronteiras só é feito porque não há capacidade e também vontade para os acolher.
    Claro está que é um acto soberano o encerramento das fronteiras. Mas a Alemanha estava chateada com esse acto soberano de outros que os deixavam passar a toda a força para a Áustria e Alemanha. Chegou mesmo a ameaçar cortes de fundos a quem se recusasse acolher.

    Claro, claríssimo é necessário arranjar pretextos. Agora é o do perigo dos extremistas infiltrados. Um dia destes ainda vou ver o EI louvado pela luta contra o ditador sírio.
    É uma questão de tempo.
    Mas não desesperemos. Esta não é do Guardian e diz a mesma coisa com um título diferente (eu quero evitar alergias):
    http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=790763

  2. Caro Pedro Correia,

    O problema não será tanto o encerramento (ou para ser mais exacto, um maior zelo na fiscalização) das fronteiras da UE, nem a suspensão de Schengen intra-UE. É o MODO como se faz isso mesmo. Responder a pessoas desesperadas com medidas repressivas tem um longo historial de maus resultados.

    1. Caro Carlos: se as medidas “repressivas” são na Europa, que adjectivo reservaremos à situação existente nos países de onde essas pessoas partem, com destaque para a Síria?

      1. As pessoas que vêm de países em guerra ou com ditaduras não são menos humanas que as que vivem na Europa. Não podemos negar-lhes direitos com a desculpa de que em casa deles é pior.

        A Europa democrática apoiou e vendeu armas a todos os lados em conflito nestas guerras.

  3. Ceder à invasão muçulmana é um erro que um dia teremos de fazer os nossos dirigentes pagar caro. O Islão é incompatível com a democracia e é mais forte do que as nossas sociedades governadas por oportunistas políticos que são permeáveis à manipulacão da opinião pública. E os bondosos democratas que os acolheram um dia vão perceber da pior maneira que os seus amiguinhos se estão a borrifar para as suas igualdades e democracias e somos todos humanos e sei lá mais quê e vão limpar-lhes o sarampo entre duas orações a um deus que não existe.

  4. O medo é a sensação mais básica de todas. Viver o terror, soma de todos os medos, fruto do horror, do desespero e do caos manieta qualquer reação e o primeiro impulso é fugir. É instintivo.

    Um mito ( ou não) sobejamente conhecido é o dos lemmings, que durante as suas migrações destruiriam tudo à sua passagem, cometendo no fim suicídio em massa, levando de arrasto consigo tudo e quem lhes obstruísse o passo no caminho da perdição.

    Temo que a horda nos empurre inexoravelmente para um abismo com proporções bem mais negras do que este em que vivemos. Não sou desumana nem indiferente ao que se está a passar a leste, mas conheço tanta gente aqui, ali, ao virar da esquina, refugiados na indignidade a que a vida os votou, sem saber como ultrapassar as barreiras farpadas da humilhação , da vergonha da fome e da tristeza, da incerteza do porvir. Não fazem manchetes, não abrem jornais televisivos, não contam. São os danos colaterais de um laboratório de sucessivas experiências politicas falhadas. São o demérito de todos nós, mas não contam porque não fugiram, ficaram a expiar pecados que provavelmente nem são os seus.
    Indignemo-nos pois contra as injustiças, mas façamos primeiro o trabalho de casa com consciência.

    1. Sobretudo não deve haver indignações selectivas, Dulce. Vemos e ouvimos isso em reportagens que nos vão chegando: o que é “chocante” e “dramático” nuns países passa a ser aceitável e até louvável noutros.
      Nas redes, é o que se sabe: num dia indignam-se as almas ululantes devido à comovente fotografia do menino morto na praia; no dia seguinte as mesmas almas já estão a ulular sobre outro tema bem diferente. A Joana Amaral Dias desnuda, por exemplo. Da mesma forma, quase sem matizes. Como se um assunto fosse o prolongamento do outro.

    2. Não é medo dos estrangeiros: é medo do que os nossos, a coberto da democracia, de ima constituição socialista e da manipulação da opinião pública e para acomodar uma ou duas ideias, são capazes de destruir. Um exemplo mais simples: o acordo ortográfico.

      Aos outros, sabendo bem dessas fraquezas, basta deixar uma criança morta na praia oara chocar o ocidente inteiro. Eles, que se escondem em escolas quando as guerras começam.

  5. A Europa e os Estados Unidos, em alguns desses países, tiveram toda a culpa, agora, arquem com as consequências. Não é só ir a um país, a troco dumas aldrabices, destruir tudo e todos e depois arranjem-se. Não, isso é cobardia pura de quem quis destruir e no fim não soube dar um fim digno aos que ficaram. Se vamos continuar a assustar a Europa porque vêm infiltrados terroristas, estamos mal porque há-os, onde menos esperamos. Neste vai e vem, há gente exausta faminta e sequiosa dum pouco de paz que lhes põem entraves a torto e a direito. Macabro, horroroso o que se passa na Hungria, país da famosa UE que não tem coragem de dizer ao ditador húngaro fora da UE. Ninguém precisa mencionar aqui Assad e os seus feitos porque todo o mundo sabe que é um louco psicopata e desses a história descrevê-los-á da pior forma, Putin e outros que tal, todos sabem o que são e o que fazem. Interessa, aqui, falar e discutir a melhor maneira de dar apoio, a todos que fogem dos horrores da guerra que deixaram tudo e hoje nada têm. Será que a Hungria tem a noção do que está a fazer? Suponho que não, mas duma coisa eu tenho a certeza, é que está a criar ódios e esses ódios poderá ter de pagá-los bem caros. Ninguém faça mal pensando receber o bem. Se assim pensam enganam-se e a Hungria provavelmente está a colher lenha para se queimar.

    1. “Ninguém precisa mencionar aqui Assad e os seus feitos.” Só um fã do ditador pode escrever uma frase absurda como esta.
      Então os sírios fogem de onde? E de quê? E de quem?

      1. O seu contraditório é tudo menos sério e isso não o engrandece em nada. Vou dar-lhe uma resposta igual à sua: se calhar fogem do seu blog.

          1. É democrático, mas só transcreve o que quer. Se for no minimamente justo, transcreve tudo o que escrevi e não só, o que lhe dá jeito. Tal como faz não é digno num blog que se diz democrático. Eu já classifiquei Assad e abomino falar desse monstro, o Pedro está sempre a mencionar essa criatura que não merece que se lembrem dele.

  6. O Pedro Correia escreve tanto que já nem sabe por onde lhe pegar.

    Eu sou a favor do controlo de fronteiras contra esta invasão de gente em que a esmagadora maioria são homens em idade de combater e com bom caparro . O governo húngaro está a fazer o que lhe compete para proteger os seus, os Alemães mais uma vez estão a sacrificar os países vizinhos em favor dos seus interesses (nada que nos surpreenda).

    A construção europeia é uma falácia (como se viu pela Grécia) que serve os interesses de algumas Nações e sobretudo do capital transnacional sem escrúpulos e ética.

    Felizmente temos Putin que apesar de tudo não se acorbadou na Ucrânia e agora é o 1º País a por tropas no terreno para combater o ISIS , o que nem toda a gente agradece a começar pelos que têm mais a ganhar com o caos que o ISIS tem criado na Síria e Iraque, até os curdos que estavam a levar a melhor sobre o ISIS estão agora a ser atacados pelos Turcos.

    Os federalistas e amantes da globalização que resolvam o problema e nem um pesudo refugiado para Portugal, já temos problemas que cheguem nomeadamente mais de 1 milhão de desempregados.

    Aliás basta passar por uma qualquer caixa de comentários de noticias relacionadas com o tema para perceber que toda gente diz e com razão que o caos na Síria , Iraque e Líbia foi provocado pelas potências europeias + USA e que NÃO QUER CÁ NINGUÉM isto apesar da comunicação social ignorar isto e continuar a dizer e a escrever sobre o “nosso” apoio a esses imigrantes.

  7. Que ninguém se atreva a relacionar e comparar o que se passa hoje com os que chegam à Europa, com os que fomos RETORNADOS.

    É que ainda andam por aí alguns indígenas, para quem a história ainda não está escrita, ainda vivem na ignorância.

  8. a brutal ditadura de Assad, responsável pelo banho de sangue em curso na Síria

    Discordo. Responsáveis por esse banho de sangue são as brutais ditaduras da Arábia Saudita, do Qatar e de outros países que tais, que são quem financia os revoltosos.

      1. Há muito que a guerra na Síria deixou de ser uma rebelião contra uma ditadura. Atualmente são duas ditaduras e lutar uma contra a outra, com os civis a apanhar pelo meio.
        Com a diferença de que uma ditadura – a de Assad – é laica e progressista, a outra – a dos rebeldes – é fundamentalista sunita e retrógrada. Entre as duas, eu não duvido qual a preferível.

          1. No contexto do mundo árabe, sim. Basta comparar o estatuto das mulheres e o nível educativo da população entre a Síria e a Arábia Saudita. Não tem nada a ver.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *