Quinze dias após a consoada (qual é mesmo o período de encubação da covid?), o número dos infectados disparou a ponto de que teremos de regressar a um confinamento geral.
Aí vamos nós novamente, encosta e abaixo sem travões, derreter os farrapos que restam da nossa frágil economia. Mas há uma coisa que nos alegra, salvámos o Natal!
Exaurimos os serviços públicos, mas conseguimos maquilhar o défice!
Temos a electricidade mais cara da Europa, mas somos os campeões nas ventoinhas fora da paisagem lisboeta!
Até novembro foram contabilizadas 1.186.110 horas extraordinárias no Hospital de Santa Maria, tendo superado as de 2019, mas reduzimos o horário de trabalho dos servidores públicos para as 35 horas!
A mortalidade não covid disparou, mas a culpa é do calor, é do frio, é do sector privado, é de tudo e mais um par de botas, desde que não se fale nas decisões políticas que levaram a que entrássemos nesta pandemia com um SNS já doente.
Esta é a nossa sina na mão dos socialistas.
Este é o tipo de escolhas a que estamos habituados. Benefício enganador no curto prazo, e depois lá para a frente logo se vê!
Temos um PR que em público assume que transmitiu ao PM que uma ministra do seu governo deveria deixar de o ser, e este, ignorando a sua opinião, garante-lhe apoio na sua recandidatura. Pudera, ele quer lá alguém a quem possa ignorar e que não se importe de ficar a falar para o boneco. Faz sentido.
Os idiotas dos americanos arranjaram um sarilho com a votação por correspondência, nós que somos muito mais evoluídos iremos resolver isso quando faltarem duas semanas para as eleições. Ainda dá tempo.
O grunho do Trump colocou os americanos uns contra os outros, preferindo arriscar a estabilidade do país desde que assegurasse o seu poder. Deu-se mal, prestou um péssimo serviço e fez do seu país motivo de chacota global. O nosso governo limita a ADSE para os seus, os outros que engrossem as listas de espera. Hoje celebraram o decreto-lei que alarga este SNS Premium a 100.000 contratados pela Administração Pública, e são os operadores privados de saúde que maioritariamente prestam estes serviço. No privado esta possibilidade está reservada a quem possa pagar por ela. Fico impressionado com tanto humanismo.
O país está sem rumo. É incapaz de se reformar e, tal como um sabonete numa pia molhada, vai deslizando sem oposição, numa velocidade crescente em direcção ao próximo sobressalto. A questão de fundo não é se vamos voltar a ser sacudidos pela realidade, mas apenas quando é que isso irá acontecer. A culpa desta vez será da pandemia.

Grande postal, pois completamente pertinente. Vénia.
Hear, hear !
Excelente, cumprimentos
Fernando Antolin
Este é o tipo de escolhas a que estamos habituados. Benefício enganador no curto prazo, e depois lá para a frente logo se vê
Foi assim no Verão (bons tempos em que a preocupação#1 eram os corredores aéreos), foi assim no Natal.
História de Portugal contemporâneo.
Tirando meia dúzia, tipo Infante Henrique ou o Marquês, este é o típico político português.
Mas não só, é toda uma cultura incapaz de olhar para o dia depois de amanhã.
Relaxamento, despesismo, ausência de plano ou estratégia.
O Marquês, ao extinguir as ordens religiosas no sec XVIII interrompeu o ensino secundário em Portugal. Consta que 20.000 alunos ficaram sem aulas no dia seguinte. Só nos anos 30 do sec XX voltamos a ter 20.000 alunos no ensino secundário. Anda à procura de uma explicação para o nosso atraso estrutural?
Na actualidade, os donos do regime exploram as fraquezas da democracia de um país descrito no meu parágrafo anterior. Distribuem rendas indevidas a um número de pessoas/eleitores suficientes para que continuem a ser os escolhidos. Quem é que quer deixar de poder mamar?
Somos um país pobre. Isso explica mais do que o atraso académico. Qualquer sopa de lentilhas dá votos.
Mas a verdade é que os políticos (e não só) são incapazes de planear a longo prazo, ao contrário dos exemplos que dei. Os últimos governos têm sido sido gestão de défice e andar de dia para dia. Também porque têm vistas curtas, mas não só; a inexistência de uma vida profissional que não passe pela angariação do voto e da lealdade a isso leva.
A coisa passa por manter a corte dos beneficiados. São eles que legitimam o poder mas não são baratos em favores. Sem estar no poder a corte é insustentável e sem a corte perde-se o poder. O Estado Novo funcionava na mesma lógica mas com uma corte menor. É preciso mudar muita coisa para que tudo fique na mesma.
Muito bem sintetizado.
Impressionou-me especialmente a questão do alargamento da ADSE. Primeiro porque tenho dois subsistemas de saúde que, comparativamente com a generalidade da população são excelentes pois pago 10% de custos hospitalares com o limite máximo de 500 euros pelo que em despesas totais superiores a 30 mil euros na Fundação Champalimaud, desembolsei à volta de 2.500 euros. Mas já há longos anos, nos partos dos meus 2 primeiros filhos, na Cruz Vermelha de Lisboa, utilizámos a ADSE da minha mulher que ainda tinha um complemento específico do seu serviço e não paguei nada, nem sequer a estadia e alimentação como acompanhante. Anos depois fiz um exame com um contraste inovador que ainda não tinha protocolo pelo que me preparava para pagar 1.500 euros (afinal paguei 250 porque o protocolo foi assinado dias depois e foi aplicado apesar do exame ser anterior). O exame atrasou-se muito porque apareceram pacientes com prioridade e conversei com outro paciente que, a propósito, disse-me que ia pela ADSE e a custo zero.
Entendi as duas situações inexplicáveis e sintomáticas de gestão dissipadora como ainda hoje não percebo nem aprovo que, por ter cancro, esteja isento de pagamento no SNS para um tratamento de enfermagem que nada tem a ver com o cancro.
A mais consistente crítica política que vejo a Trump é ter implementado as divisões, que já existiam note-se, criando um clima de nós contra eles. Em Portugal, divisões dessa natureza não existiam mas já tínhamos uma divisão injusta entre salários nas categorias mais baixas (e muito mais numerosas) da função pública e dos privados que não só ganhavam menos, como podiam ser despedidos e não tinham nada de parecido com a a ADSE.
Ora este governo, reduziu-lhes o horário mantendo o salário mínimo acima do nacional e, em clima de pandemia, encerrou serviços e enviou os funcionários para casa sem redução de salário.
Ainda sem grande repercussão mediática mas já há sobejos sinais de estar instalada uma divisão profunda que é difícil que não venha a ter consequências sociológicas e políticas e, em comentários avulso, não foi apenas uma vez nem duas que oiço dizer que “isto” nem no tempo do Salazar (referido a atendimentos em serviços de finanças e conservatórias).
Talvez os “brandos costumes” permitam que isto continue ainda alguns anos mas há limites e parece-me que esta já não é só uma política errada e injusta mas começa a ser uma política perigosa.
Só agora dei por isso. Sempre que se fala em subsistema de saúde, fala-se numa versão do SNS Premium. Espero que os possa manter. Lamento que os restantes portugueses, especialmente os mais simples, tenham de consumir o resto do respectivo tempo de vida à espera de uma consulta, de um exame ou de uma cirurgia.
Muito bom. Só não concordo com o primeiro ponto. O crescente número de infectados não é culpa do socialismo nem dos Portugueses que celebraram o Natal. É culpa exclusiva do vírus e da estação do ano em que nos encontramos. Mas o estado desesperado em que se encontra o SNS foi muito agravado pelas redução do horário para as 35 horas que foi da responsabilidade do governo ( e do presidente).
O governo resolveu governar apenas para os funcionários públicos e reformados. E tem funcionado. Garantindo estes votos consegue manter-se no poder. Com papas e bolos se enganam os tolos…
O vírus não é culpa dos nossos socialistas, mas as medidas que têm sido tomadas que afunilam multidões no horário reduzido das superfícies comerciais, a mensagem de que íamos salvar o Natal, e de que tudo teria de ficar fechado na passagem de Ano, apenas na passagem de Ano, legitimou a vontade geral de abrir uma excepção nas medidas que sabemos que travam o vírus. A mensagem foi mais do que subliminar. Eles queriam ser agradáveis para com o povéu, apesar de saberem que o vírus não desacelera na Consoada. Os números estão à vista.
Eu continuo a achar que o vírus faz pouco caso das nossas ações. O HPS no cortafitas tem discutido esse assunto com clareza no cortafitas. Os países que entraram em confinamento total não viram o número de casos descer. Os vírus respondem sobretudo a variações ambientais. Nesse caso esta subida não está relacionada com o Natal mas com o frio seco.