A “Europa” suspensa da próxima presidência europeia, confiada à Dinamarca, já a partir do dia 1. Do próximo Conselho Europeu, em Bruxelas. De mais uma cimeira “decisiva”. Como gostam de dizer os jornalistas papagueadores de banalidades, “tudo pode acontecer”. Um deles, fazendo jus aos seus consabidos dotes histriónicos defronte das câmaras, vem proclamando com dramatismo crescente: “A União Europeia está à beira do precipício.”
Exageros à parte, paira de facto a sensação de que a curto prazo nada ficará na mesma: a Europa modelar do “Estado social”, do crescimento económico e do pleno emprego parece pertencer definitivamente ao passado nestes dias em que apenas se ouve falar em défice, “dívidas soberanas”, estagnação económica e recessão. O problema é que aquele modelo agora em acelerado declínio não se limitou a assegurar a prosperidade no Velho Continente durante mais de meio século: assegurou também a paz. E não é preciso sequer ser um espectador diário de telejornais para se divisarem as nuvens negras a crescer no horizonte: antevê-se uma explosão de nacionalismos exacerbados, violência extremista, tensões xenófobas, pulsões autoritárias. As fronteiras europeias foram durante séculos as mais perigosas do mundo. Jean Monnet, Robert Schuman, Alcide di Gasperi, Winston Churchill, Ernest Bevin, Paul-Henri Spaak e Konrad Adenauer — além do presidente norte-americano Harry Truman, através do Plano Marshall — contribuíram para diluir conflitos e limar arestas que pareciam insuperáveis, reiventando a Europa que emergiu das cinzas da guerra como um baluarte de cidadania, concórdia, progresso e esperança.
Vivemos numa expectativa tensa, num fugaz tempo de interlúdio. Um tempo em que os deuses morreram e Cristo ainda está por nascer, para usar uma magnífica metáfora de Marguerite Yourcenar — património franco-belga, património da Europa, património do mundo sem fronteiras.
Imagem: Churchill e Adenauer, dois pioneiros da Europa unida


Meu caro Pedro Correia (provando um magnífico Viña Pomal, um Rioja dos antigos), da leitura atenta das suas sábias palavras, em que o meu caro antevê uma explosão de nacionalismos exacerbados, violência extremista, tensões xenófobas e pulsões autoritárias (fazendo sinal ao escanção de que pode servir, o vinho está óptimo), resulta, na minha modesta opinião, um alinhamento absoluto com o tal jornalista do dramatismo crescente. Queira o meu caro, se lhe aprouver, claro está, esclarecer esta minha dúvida existencial. (deixando o palato deliciar-se com os segundos sabores a madeira de cerejeira)
Longe de mim perturbar as suas excelentes libações com estes temas tão incómodos, meu caro. Limito-me a desejar-lhe um bom ano.
Sim, é de prever um retrocesso nos nacionalismos, o que anulará décadas de evolução na aceitação das diferenças. É pena. Mas este modelo europeu foi precipitado e bastante irresponsável, convenhamos. Como diz, e muito bem, o nosso Zé André, a Europa quis o dois em um: a utópica preservação das soberanias e a união económica, sem cuidar de fortalecer uma união que teria de ir muito além disso. E as fragilidades estão à vista. A verdade é que a Europa nunca se entendeu, as guerras têm sido constantes em toda a sua história.
A Europa foi palco das guerras mais devastadoras de que há memória, Ana. O melhor antídoto contra a guerra é a unidade europeia. Mas esta unidade só pode construir-se com europeus convictos. Quanto maior for a reserva mental em relação a este projecto, mais ele estará antecipadamente condenado ao fracasso. Não nos espera nenhum “abismo”, como dizia o outro. Mas há riscos sérios de retrocesso em várias frentes que nenhum de nós gostaria de ver consumado.
Yawn!
Pois então que venha a Europa da discórdia! Essa Europa do pós-guerra deu prosperidade, sim, mas com colapso demográfico e tédio. Ideias novas, como as que fizeram a Europa dominar o mundo? Não.
Que venha a Europa da diversidade e da disparidade, da concorrência selvagem entre as pequenas nações, povos e culturas que, separadas e juntas, em conflitos e ligas e “ententes” descobriram, saquearam – e civilizaram, evangelizaram e conquistaram – toda a terra, dominaram todas as mentes, definiram todas as ideias, conceitos e nomes.
Vem, Senhora Europa, os que de ti, mesmo longe, guardam o sangue, a fé e a língua aguardam tua nova alvorada.
Obrigadinho pelas palavras tão estimulantes que aqui nos deixa, Brasileiro. Estamos mesmo a precisar de mensagens como esta.
Caro Pedro Correia, essa Europa vista pelo lado mais esperançoso, tb tinha outras realidades, bem esclarecidas aliás por uma obra fantástica: Pós-Guerra de Tony Judt (entre outras). Algumas das outras realidades mais utilitaristas e interesseiras, bem ao gosto de políticos que agora aparecem endeusados nas mentes do Ocidente (Truman, Churchil, Schuman, Staline, etc.).O que esses senhores perceberam foi que não era possível o regresso ao conservadorismo mais primário (que regressou pós anos 70 em força) sob pena de regressarmos rapidamente à guerra. As condições de vida miseráveis e a reconstrução da Europa abriram oportunidades tanto para a expansão económica dos EUA como para a necessidade de contenção do gigante do leste (URSS). A forma como os líderes da altura resolveram olhar para estas necessidades, foi, entre outras, a necessidade de supervisão do crescimento militar e económico do gigante alemão, a união estratégica EUA-UE para impedirem a expansão do comunismo e posteriormente para liderarem globalização, e manipulação do Plano Marshall para expansão da produtividade e desenvolvimento dos EUA. Nada para os homens da diplomacia é por acaso.
Entretanto o sistema económico liberal está a oferecer os encantamentos do capitalismo de Estado, com o substantivo crédito que ilude o verdadeiro poder de compra das populações mais desfavorecidas e as põe nas bocas moralistas dos jornaleiros e tudólogos superficiais do costume.
Daqui a algumas décadas os nossos filhos lerão grandes teorias sobre as divídidas soberanas, a crise de outros subprimes e outros tantos guiões de filmes de crise noutras paragens.
A Europa talvez expluda ou talvez não. Qto ao regresso dos nacionalismos? Tenho dúvidas. A maioria dos jovens da actualidade são bastante mais informados e indiferentes aos nacionalismos. O que regressará às ruas será certamente a descrença generalizada na democracia representativa que está prestes a implodir, assim como as suas duas grandes narrativas: liberalismo e marxismo.
Cara Vera: espero que Estaline não se inclua entre os políticos que, como diz, “aparecem endeusados nas mentes do Ocidente”.