Sem certezas nem trincheiras


Pedro Correia,

Vivemos num mundo povoado de gente grávida de certezas inabaláveis. Ai dos discordantes, ai dos que duvidam, ai dos que se atrevem a exprimir opiniões moderadas, ai daqueles que não arriscam sentenças definitivas sobre qualquer assunto. São encarados, no mínimo, como cidadãos de segunda. E excomungados das trincheiras, supremo castigo nos tempos que correm.

Ninguém te perdoa se arriscas viver sem certezas nem trincheiras. Tratam-te como cidadão de segunda. Catalogam-te como instrumento insidioso do inimigo. Viram os polegares para baixo. Desamigam-te até.

38 comentários em “Sem certezas nem trincheiras”

  1. Ter a certeza inabalável que toda a gente tem certezas inabaláveis não é estar grávido de certezas inabaláveis?

      1. Pergunto-lhe a si:
        Há quantos meses tem a certeza que toda a gente tem certezas inabaláveis?
        Ou pensa que pode haver gente sem certezas inabaláveis, caso em que, sobre este assunto, teria só uma certeza abalável.
        Não sei bem o que é, deve corresponder a uma gravidez histérica.

      2. Deve estar quase no fim da gestação de três gémeos bizantinos (sem ofensa, mas não consegui resistir).

  2. Depende das certezas e das trincheiras…

    O Pedro Correia podia e devia escrever uma prosa sobre a mais recente manobra do nosso PM, que arrastou um ministro durante 3 dias, promoveu o deputado Galamba e fez um show off com orçamento nunca visto montando até um site para cada um saber quanto lhe vai custar o próximo ano caso ainda tenha trabalho e um tecto.

    WW

  3. Pedro, cultivou-se, há uns anos, um orgulho satânico. O sucesso vestia-se, na altura, com as cores da arrogância, do egoísmo e do egotismo. Diziam-nos que já bastava a humildade portuguesinha do “vamos indo”, do “a ver se conseguimos” . Há toda uma literatura de autoajuda nesse sentido -“ama-te; “primeiro tu” – . Nunca foi infelizmente a minha praia. Teria sido tudo tão mais simples

    1. Sim, demos um salto epistemológico desde os tempos em que a todo o momento nos saíam frases como ‘mais ou menos’, ‘vamos andando’, ‘assim assim’, ‘uns dias melhor, outros pior’.

  4. a única certeza inabalável que me assiste é a de o meu conceito de amizade não passar por nenhum dos ‘facecoisos’…

  5. Agora a sério: ter umas quantas (poucas) certezas (mais ou menos) inabaláveis é essencial ao equilíbrio de qualquer ser humano. O problema é que anda por aí uma multidão que há muito perdeu a certeza no que quer que fosse e, paradoxalmente, quanto mais se afunda (e nos afunda) no seu relativismo nihilista, mais se apega à jangada destroçada da fé fundamentalista das novíssimas religiões cívicas-(pseudo) progressistas.
    E já que de certezas se fala, aqui deixo uma que sinceramente eu cultivo: a certeza de que ir a favor da corrente não nos leva obrigatoriamente a bom porto.

    1. Vivemos um tempo em que todos exibem certezas absolutas e categóricas sobre quase tudo. Um tempo em que a moderação, o meio-termo, um olhar equidistante e equilibrado são considerados defeitos gravíssimos ou até falhas de carácter.
      O que está a dar é o berro tonitruante disparado das trincheiras das redes sociais. E a descoberta de “inimigos” por todo o lado. Extremos a gerarem novos extremos. E a linguagem dos debates é sempre uma linguagem agressiva e crispada, de contornos bélicos – uma linguagem que não reconhece Convenção de Genebra nem admite prisioneiros.

      1. Não os ouço, caro Pedro Correia, pois, afastando-me para longe, estou a remar contra a corrente em que eles gostosamente se deixam levar.
        Quanto à linguagem agressiva, crispada, de contornos bélicos, já houve, pelo menos, um (involuntário?) avanço civilizacional: os impulsos eléctricos internetianos impedem a presencial troca de bengaladas dos tempos do Eça.
        Agora, vou descansar. Voltarei de aqui a uns tempos. Uma boa noite, caro Pedro Correia

    2. Subscrevo e acrescento…
      Exageros à parte, o que eu detesto são os marias-vão- com-as-outras.
      Os dizes-tu, os depende, os tanto-faz, os da pós-verdade…
      Abomino os que estão sempre de acordo, mesmo comigo, sobretudo comigo, naquela implícita num vago sorriso – não me chateies, não estou para te aturar.
      Valorizo muito mais uma convicção errada do que uma cedência estratégica e cínica.
      Denuncio que é precisamente uma sociedade parda e aparvalhada que convém àqueles poucos que manipulam todos os restantes em benefício próprio.
      Àqueles a quem interessa difundir informação a mais e facultar formação a menos (atente-se nos sistemas de ensino).
      Não sendo crente, ainda assim reconheço que a Bíblia nos transmite sólidos ensinamentos.
      Um deles, o maior de todos, é “Amai-vos uns aos outros…”.
      Um outro é “Aqueles que não são peixe nem carne, vomitá-los-ei…”
      João de Brito

      1. E acrescentando, caro João de Brito, deixou-nos aqui um comentário de antologia. Um muito obrigado pelas suas certeiras, sábias e proveitosas palavras que, com sua licença, faço inteiramente minhas. Bem haja.

    1. Oiço alguns jurar que têm “milhares de amigos”. Todos virtuais. Outros – ou os mesmos – garantem que todos os dias “desamigam” alguém.
      Este verbo, desamigar, é um dos mais extraordinários inventos dos nossos dias. Basta um clique, e já está: “adiós, amigo”, como se dizia nos velhos ‘westerns’, de dedo no gatilho.
      As relações humanas resumem-se a isto, a um ritmo cada vez mais veloz.

    2. Concordo plenamente: um gajo sem “migas” – de preferência boas e quentinhas – não é nada. Agora, deixa-me dar à soleta que lá vem a bordoada do costume…

  6. Com a existência de um pós 25 Abril permitiu-se a todos/as a liberdade para exercer o que antes não havia. E ainda bem, porque caso contrário muita da nossa classe política, comentadores e outros teriam outras funções. Agora temos lado menos positivo: Com o passar dos anos, tudo é permitido, plausível, e com as redes sociais agravou-se. A noção do respeito pelo outro foi-se. É fácil encontrar-se todo um “rosário de A a Z” perfeitamente aceitável pela Sociedade e com a qual convivemos. Atenção que não estou a falar de puritanismo. Algo perfeitamente diferente. Trocas de opiniões viram “guerras” de net. Chegámos a um ponto em que até já foi criada uma Investigação que vai avaliar o espectro de ódio em que atuam os extremistas no Twitter. Muitos “Ilustres” da nossa “Bela Sociedade Portuguesa” são os próprios a dar o exemplo. Quanto pior, melhor! Admiram-se se um Trump ou Bolsonaro “sobrevivem” neste nosso mundo. Eu não!

    1. Qualquer discussão redunda em guerra, com os beligerantes de armas em riste nas trincheiras.
      É assim nas “redes sociais”, em perfeita metáfora do que tem vindo a transformar-se a sociedade contemporânea, dominada pelo “fluxo digital”.
      Alguns dos maiores belicistas, curiosamente, são pessoas que se afirmam pacifistas. Mas transfiguram-se quando estão em linha – o que, aliás, acontece quase sempre – e tornam-se caceteiros na Rede.
      E são recompensados por isso.

      1. “Mas transfiguram-se quando estão em linha” É como um tipo ao volante: chama nomes que não chamaria quando vai a pé.

        1. O tipo (ou a tipa) ao volante, assim como o tipo (ou a tipa) ao teclado que tal coisa faz – que não faria cara-a-cara com o alvo do seu insulto soez – tem um nome na lusa língua: é um (ou uma) cobarde. Coisa cada vez mais vulgar nos dias que correm, infelizmente.

          1. É como a senhora bem quiser, porque, infelizmente, a vera natureza do bicho (ou da… bem, é melhor eu aqui não mudar o género do substantivo não vá ser eu acusado de alguma coisa) não se transforma com a mudança do sexo.

  7. Crescer sem o amparo da religião ou da cartilha partidária é tramado. Não há aquele aconchego do manual de instruções ali à mão. Quando as dúvidas surgem tem que se pensar, procurar, estudar – que séca.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *