Sean Spicer, um porta-voz à medida do seu líder


odiplomata,

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Depois de Donald Trump ter dado, na Quarta-feira passada, a primeira entrevista em sinal aberto ao canal ABC, no dia a seguir reparei que um dos apresentadores da FOX News não deixou de atirar uma “boca” ao Presidente por ter escolhido a concorrência para tão importante momento televisivo. De facto, nessa altura, só faltava mesmo a “insuspeita” FOX News juntar-se ao coro de críticas que vinham dos media americanos. Trump foi literalmente arrasado durante a primeira semana de mandato, com os principais canais noticiosos americanos a dissecarem até ao tutano os vários disparates que se iam sucedendo. Tive o privilégio de assistir a essa primeira semana da presidência de Trump nos EUA, mas a questão é de que não me recordo de qualquer outro mandato ter começado de forma tão atribulada e polémica. Foi a argumentação patética de Trump por causa da assistência que esteve na cerimónia do “inauguration day” em Washington, depois veio a polémica do muro e a questão do imposto de 20 por cento sobre produtos mexicanos. Trump lançou ainda a “bomba” da possível fraude eleitoral, algo que terá passado despercebido nos media europeus, mas que os jornalistas americanos consideraram uma acusação de proporções monumentais, questionando o Presidente por que razão então não concretizava essa acusação e pedia uma investigação federal. E, finalmente, a “immigration order”. Muita coisa para apenas uma semana e meia de trabalho. E em todas estas frentes de combate mediático, Trump tem contado basicamente apenas com uma pessoa ao seu lado: Sean Spicer, o seu assessor de imprensa. Nestes quatro casos, Spicer, tal e qual como se estivesse frente a um pelotão de fuzilamento, surgiu perante os jornalistas num exercício penoso e que o próprio um dia deverá recordar como momentos bastante humilhantes na sua carreira.

 

Spicer, num dos briefings da Casa Branca, chegou mesmo a ser interrogado por um dos jornalistas se acreditava naquilo que estava a dizer. Uma pergunta que eu nem queria acreditar estar a ouvir logo na primeira semana de trabalho de uma presidência. Como era possível que os jornalistas questionassem a palavra do assessor de imprensa do Presidente logo nos primeiros dias de mantado? Mas a verdade é que Spicer tem sido o único porta-voz das trapalhadas de Trump e isso certamente terá custos na sua reputação e credibilidade junto dos jornalistas. Nem mesmo outras figuras republicanas se têm atravessado pelas medidas que o Presidente tem adoptado. Na verdade, as figuras de topo do Partido Republicano ou estão caladas ou as que têm aparecido é para criticarem.

 

Reconheça-se que, apesar dos erros e dos disparates, coragem é coisa que parece não faltar a Spicer porque, mesmo caminhando para o abismo, ele segue em frente. Ou, por outro lado, também pode ser apenas loucura. Lembro-me sempre daquele ministro iraquiano da Informação e que foi o porta-voz de Saddam Hussein durante a invasão americana em 2003, que ficou célebre pela sua propaganda tola (e que divertiu muita gente, incluindo o Presidente George W. Bush), ao repetir convictamente que o Exército iraquiano iria vencer aquela batalha, quando a realidade mostrava os soldados americanos já às portas de Bagdade. Loucura à parte, a verdade é que a partir daí Mohammed Saeed al-Sahaf se tornou uma estrela à escala global até com direito a clube de fãs. Pode ser que Spicer tenha a mesma sorte.

0 comentários em “Sean Spicer, um porta-voz à medida do seu líder”

  1. Será sempre muito difícil alguém dar a cara para justificar o estilo desajeitado de um trumpalhão.
    Também se poderia justificar a célebre “grab her by the pussy” do seguinte modo:
    o trumpalhão andava de olho em alguém. Porém esse alguém era bastante chegada e protectora de sua gatinha. Para que pudesse tomar um café com a rapariga, o trumpalhão cogitou uma forma de agarrar/arrastar a gatinha para que a dona, pela via emocional, aceitasse o convite. Consumada a estratégia, o trumpalhão entende que o método do arrastão é modelo universal e que assim vai sentar todos à mesa para tomar café. A Starbuchs, que entende de café, não se sentará com ele. E outros virão.

    Daqui por 3 meses constatar-se-á que Trump, o alhão, aparecerá mais “domesticado”; e Spicer surgirá mais solto.

    Tudo isto para demostrar que vai ser precisa na Casa Branca muita imaginação para justificar a estratégia social/negocial de Trump, o alhão.

    Por outro lado, os grandes credores dos americanos, a China e o Japão, também se encarregarão de fazer compreender a Trump que nem tudo quanto pensa sobre proteccionismo económico será possível aplicar. A China encarregar-se-á, com argumentos fortes, de dividir a pretensa aliança entre Theresa May e Trump. Eles têm armas muito sólidas para os conter.
    Por fim, quer Theresa May quer Trump compreenderão no futuro a importância da Europa para o equilíbrio de suas nações.

    A Europa tem aqui a sua oportunidade para alterar o modelo seguido na última década.

  2. Trump não tem qualquer hipóteses de levar o mandato até ao fim. Nunca irá reunir o apoio dos barões do Partido Republicano, nem do lobyng das grandes empresas americanas multinacionais.

    Trump poderia ter sucesso numa republica das bananas, apoiado no exército e numa imprensa domesticada. Mas nunca numa Republica livre como a Norte Americana.

    A única maneira de Trump durar os 4 anos é não cumprir o que prometeu, e domesticar o discurso. Mas aí terá um problema com o eleitorado que, genuinamente, o elegeu (o pessoal das fazendas, com abrigos nucleares no quintal)

  3. Apesar da dose de EUA já ser cavalar, para um país da UE, o que sobressai é a indigencia de toda esta nova administração. O povo daquele país era – segundo Delors há muitos anos atras, o que devia preocupar mais os europeus. O armamento, as opções culturais e politicas e os dirigentes que escolhem vão dar-lhe razão e concordo que é um aviso a levar ainda hoje bem a sério.

  4. Não estava à espera de ter de dar no Delito de Opinião o tipo de esclarecimentos habitualmente mais necessários no Aventar. Mas se é assim que vai ser… paciência.

    «Questionando o Presidente por que razão então não concretizava essa acusação e pedia uma investigação federal.»

    Foi anunciado que essa investigação será feita.

    «E em todas estas frentes de combate mediático, Trump tem contado basicamente apenas com uma pessoa ao seu lado: Sean Spicer, o seu assessor de imprensa. (…) A verdade é que Spicer tem sido o único porta-voz das trapalhadas de Trump. Nem mesmo outras figuras republicanas se têm atravessado pelas medidas que o Presidente tem adoptado. Na verdade, as figuras de topo do Partido Republicano ou estão caladas ou as que têm aparecido é para criticarem.»

    Não é verdade: também têm participado no «combate mediático» – para defenderem o presidente – Kellyanne Conway, Reince Priebus, Sebastian Gorka, Stephen Miller, Stephen Bannon, Omarosa Manigault, Ted Cruz, Mitch McConnell, entre outros.

    «E isso certamente terá custos na sua (de Sean Spicer) reputação e credibilidade junto dos jornalistas.»

    Como se ele, como qualquer republicano, se preocupasse com a «reputação e credibilidade» junto de pessoas que são, na sua maioria, aliados do Partido Democrata, tendo vários – como o WikiLeaks demonstrou – colaborado com a campanha de Hillary Clinton. Tanto mais que…

    «Spicer, num dos briefings da Casa Branca, chegou mesmo a ser interrogado por um dos jornalistas se acreditava naquilo que estava a dizer. Uma pergunta que eu nem queria acreditar estar a ouvir logo na primeira semana de trabalho de uma presidência. Como era possível que os jornalistas questionassem a palavra do assessor de imprensa do Presidente logo nos primeiros dias de mantado?»

    … Esses mesmos «jornalistas» não questionaram os porta-vozes de Barack Obama da mesma forma, apesar de, confirmou-se depois, eles terem mentido em diversas ocasiões.

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