Say “Cheese”


Maria Dulce Fernandes,

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Tenho os meus petiscos de eleição. Gosto de doces bem confeccionados, mas perco-me por queijo. Qualquer queijo. Todo o queijo. 

O meu pai era de Castelo Branco. Lá em casa havia sempre queijo. Queijo tipo rabaçal de boca cheia, queijo picante (o famigerado queijo chulé), queijo conservado em azeite aveludado e suave, queijo tipo Nisa, mais seco e fantástico, e queijo tipo Serra para comer à colherada, simplesmente fabuloso .  

Para mim, desde que haja queijo, está-se bem.

Ou pelo menos estava-se 

Não me lembro de não ter queijo para comer sempre que me apetecesse. 

E apetecer, apetece sempre, mas diz que não. 

Com o avançar da idade tornamo-nos mais serenos, mais calmos, mais ricos em saber e em saber que ganhámos candura, temperança,  conhecimento e peso. 

O peso não é apenas o dos anos, é mais o do que o esqueleto suporta e comporta e toda uma série de óbices que traz por acréscimo. 

HDL, LDL, VLDL, TOTAL… totalmente   dessincronizados… 

Drogas, chás e dietas… eu… a… fazer… dieta !!!! 

Tudo light e com moderação… pois sim. 

Alguém já provou queijo Limiano light? Daquele que não se sabe bem se estamos a comer o queijo ou a embalagem de plástico? Não? Então provem e digam de sua justiça. 

Alguém já provou qualquer queijo digno do nome em versão light que não soubesse a PVC fatiado? 

E leite magro? Parece a aguada de cal com que a minha avó caiava a chaminé. Não tem sabor nem odor… é tudo menos leite. 

A Grande Mudança chegou no ano passado. Deixei de ser uma cinquentona enxuta e passei humildemente à condição de sexagenária. 

Estranhamente, a Grande Mudança deu-se sem qualquer alteração, fosse pela efeméride, tampouco pelas gordurices.  

Não vou comer coisas light nem PVCs ou esferovites. 

 

Para tudo é preciso moderação e eu, que sempre soube quando parar, vou deixar as alfaces para os grilos e as sementes para os passarinhos: tenho um queijo de Azeitão à minha espera que é um mimo. 

42 comentários em “Say “Cheese””

    1. Também eu fiquei a olhar para tudo aquilo quando recebi o resultado das análises e me prescreveram um plano alimentar isento de tudo e mais alguma coisa que dá alento à vida, Pedro.
      HDL, LDL, VLDL tem a ver com o colesterol. Bom, mau e assim assim? Não sei bem qual é qual .
      PVC é PVC, policloreto de vinil, matéria básica em todas a construção civil, etc.etc.
      Espero que se colesterol e sus variaciones estejam ok.

      1. Achei piada ao seu PVC. Lembro-me que nos anos oitenta havia bolachas/tostas a que chamávamos ‘tabopan’, por parecerem mesmo placas em miniatura de contraplacado de madeira.

        Isabel

        1. Tabopan é o que chamam MDF ( mais uma sigla, que curiosamente tem as minhas iniciais). Uma colega minha tem ums “bolachas óptimas” , digestivas, dietéticas, com sabor a alfarroba, rijas como tudo e que parecem ter serradura por dentro. Quem sabe não serão primas das suas tostas?

          1. É possível que sejam. As que referi nunca mais vi nos supermercados. O nome era qualquer coisa parecida com ‘kaveli’. Gostava de roer aquilo.

            Isabel

  1. Quase não como queijo e nem sequer gosto muito.
    Mas, porém, todavia, tenho o mau colesterol em grau super. Portanto, coma queijo se lhe apraz. Pois se entrou nos sessenta e não nota diferença…

  2. É cá das minhas. Perco – me por queijos. Os regrados, os das dietas, são sempre uns chatos, uns espartilhados e sobretudo má companhia à mesa. Sempre que pegam em algo e o põe à boca são só esgares de má consciência e mal dizer.

    Não tenho pachorra.

    1. Modéstia aparte, sou óptima cozinheira e adoro cozinhar. Tinha prazer em juntar amigos e ter uma mesa colorida e aromática, cheia de bons petiscos. Bons tempos aqueles em que ninguém torcia o nariz aos meus acepipes, Pedro.
      Presentemente tenho muito poucas jantaradas. Ou porque são de saladas , sojas, tofus, sem molhos, grelhados, cozidos, manteiga magra, tudo desnatado, sem gluten, sem açucar…
      Enchidos? Que horror! Queijo? Só magro! Doces? Só com adoçante biológico…
      Quer isto tudo dizer que andámos 2000 anos a envenenar-nos, ou isto não passa de paranóia social?

      1. Vivemos tempos muito complicados, Dulce. A todo o momento temos gente a policiar os nossos gestos, os nossos olhares, as nossas palavras, os nossos hábitos alimentares.
        As patrulhas andam aí. Mais ferozes e autoritárias que nunca. Tratam-nos como se vivêssemos em regime de internato.

        Vale-me mestre Aquilino, que leio por estes dias.

        Em trechos como este:
        «Estavam de morrer por mais, os infalíveis bolinhos de bacalhau sobre o vinagre, e digno de D. João VI, grande papa-frangos, o polho de grão assado no espeto. Comeram e untaram a barbela, fazendo-lhes dignas honras um palhetinho alegrete e gajeiro de Leitões, colheita do Corregedor.»

        E este:
        «O que mais lisonjeia a mulher de parte dum homem em matéria de finezas é que ele a deseje. Desejada de lábios contra lábios, de braços nos braços, de poros nos poros a comunicarem-se toda a lia de que é feita a atracção universal.»

        (Ambos colhidos desse magnífico romance que é ‘A Casa Grande de Romarigães’, esplendoroso tributo à língua portuguesa.)

        1. Estes trechos são de antologia na literatura portuguesa Pedro. Já não se escreve assim. Agora comer bem é pecado, é veneno, é mortório.
          Tornamo-nos escravos dos hábitos alimentares, dos medicamentos, do exercício físico.
          Não tenho paciência.

          1. Os nossos escritores da actualidade prendem muito pouco o leitor.
            Uma ou duas obras bem conseguidas já não cativam segu8dore, creio que lhes falta o brilho e o traço dos mestres, Pedro.

  3. Deve ser por comer tanto queijo que desmiolei.
    Ando há anos em interminável jogo da contenção do queijo versus ombreira das portas, até agora a última vence por larga margem.

    Isabel

  4. Se é uma expert, pergunto já:
    Qual o melhor queijo, principalmente para oferecer?

    Há um aí na foto que parece que conheço.
    Queijo é tão bom!!

    Como pouco. E do “pvc” ou melhor, queijo flamengo fatiado Pingo Doce.
    Por curiosidade prove. Eu acho que até é muito bom!
    Mas vivo no UK e aqui não toco em queijo. Além de caros sabem a nada.

    Passe no meu blogue e fale-me de queijos! 😀
    Ao passar e comentar, deixe o seu link, para a poder seguir.

    Cumprimentos

  5. Eu faço dieta diariamente. Não inclui alimentos cujo rótulo contenha “laite”.
    Era o melhor, nesta vida da treta, comer ser mais um sacrifício.

    1. Há pessoas cujo organismo desenvolve intolerâcias a determinados alimentos, e ter um plano alimentar que os não inclua é fundamental.
      Eu, por emplo, há dois anos a esta parte reajo mal a bebidas com alcool. Nem por isso deixo de beber à refeição ou socialmente se me apetece. Apenas reduzo ou diluo.

  6. Este postal é um manifesto. Ombreio, camarada, na ideologia queijã e na luta contra os inimigos das calorias. Avante! A Luta Continua.

      1. Serei confrade, mas nunca mestre, pois parcos os meus conhecimentos. E mitiga-se-me o apetite, para queijos e acompanhamentos, mirro-me, nisto da idade. Mas vamos a isso, confraternizemos o queijo.

    1. Ena, jpt, ainda me falta experimentar tantas variedades! Nas nossas “abriladas” anuais, provamos sempre o queijo típico de cada região visitada.
      Sou fã dos queijos italianos para cozinhar. Não há como os nossos e alguns franceses para comer à “boca cheia”. Este guia é um mimo.

      1. Apanhei (e partilhei) isto há uns tempos no FB. Refiro-o para os que estão sempre a resmungar com as “redes sociais” como locais de alienação … É um mundo que se nos abre, com efeito, este mapa de queijos

  7. “ Lá em casa havia sempre queijo.” Que sorte incrível!!E que inveja, para ser sincero. Eu quando era jovem (e até agora) adorava queijo mas a minha mãe só muito raramente comprova na mercearia 250 gramas o que era um a pequena fatia.

    1. Não foi sorte, anónimo. Era tradição de quem tinha família na terra, receber cabazes com produtos regionais que não havia em Lisboa, para poder matar saudades.
      O meu pai era de Castelo Branco. Uma ou 2 vezes por ano, chegavam os bolinhos de erva doce, os queijos e os enchidos, que se conservavam em grandes frascos de vidro cheios de azeite que também vinha da terra em enormes garrafões de palha com duas pegas.

      1. ” Uma ou 2 vezes por ano, chegavam os bolinhos de erva doce, os queijos e os enchidos” De facto não foi sorte, foi azar: da minha terra não chegava nada. Azar, azar. Estou a exagerar: ás vezes chegavam umas maçãs.

        1. Tenho gratas recordações desses dias, de irmos a Santa Apolónia buscar duas ou três cestas de boca quadrada fechadas com uma serapilheira cozida, com uma etiqueta de madeira escrita a lápis. Lá de dentro, bem embrulhados em jornais , estavam os chouriços, os paios e os buchos. Uma toalha de pano com dois nós cheia de bolinhos. No outro queijos secos e meio frescos , castanhas e a carta que vinha cheia de abraços e saudades.

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