Saudades de São Francisco


Pedro Correia,

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Há uma atmosfera cintilante, tão parecida com a de Lisboa. E a luz coada. E a neblina, que cai quando menos se espera. E os carros eléctricos sulcando as curvas de Lombard Street. E os leões marinhos expostos aos raios do sol e ao olhar indiscreto dos turistas no Fisherman’s Wharf. E as frondosas alamedas verdes do parque Golden Gate, o maior pulmão verde da cidade. E a ponte. E os labirintos do bairro chinês. E a memória cinéfila ao espreitar de qualquer esquina, devolvendo-nos cenas míticas de alguns dos filmes das nossas vidas – Dark Passage, Vertigo, Bullitt, Dirty Harry, Basic Instinct. E os barcos que cruzam a baía, rumo a Sausalito. E o rochedo de Alcatraz, lá mais ao longe. E a eterna cantiga de Scott Mackenzie tocada algures em Union Square. E Haight-Ashbury, local mítico da geração das flores.

«Vimos estendida diante de nós a fabulosa cidade branca de São Francisco sobre as suas onze colinas míticas com o Pacífico azul e, ao largo, a sua muralha de nevoeiro marítimo a avançar, e fumo e a luz áurea do fim de tarde do tempo», escreveu Jack Kerouac nas páginas de On the Road. Com um deslumbramento que qualquer forasteiro sente ao visitar Frisco.

À despedida, só apetecer trautear a canção de Tony Bennett: «I left my heart in San Francisco / High on a hill, it calls to me.»

16 comentários em “Saudades de São Francisco”

  1. E The Streets of San Francisco com Michael Douglas e o Karl Malden com 121 episodios ninguém esquece, excepto as mulheres que preferiam ver a casa na padaria.

  2. Do pouco que conheço dos Estados Unidos, cidades feias é o que por lá mais abunda. As únicas cidades americanas bonitas que conheço são San Francisco e Boston.
    Vivi nos EUA em Pittsburgh, uma cidade de uma fealdade e de um ridículo arquitetónico incomparáveis.
    Até Seattle, que tem uma localização esplendorosa, é feia.

  3. Sao Francisco, cidade extraordinaria.
    Faz pena ver a decadencia actual com a crise do Fentanyl e a falta de cuidado e limpeza.
    Parece que as coisas estao a mudar e que Sao Francisco comeca a reerguer-se. Esperemos que sim!

  4. Miradouro de Battery Spencer. De um lado, a imponente Golden Gate Bridge. Do outro, uma parede de nevoeiro espesso que não deixa ver absolutamente nada. O vento sopra a 80 à hora.

    Zeca (45 anos, nascido nas Escadinhas de São Miguel, Alfama). Neste momento vive num quarto alugado na Pontinha porque o seu senhorio decidiu transformar a casa num Lisbon Authentic Soul Airbnb.

    Brad (32 anos, natural de São Francisco). Trabalha em tech, usa um colete acolchoado da Patagonia e bebe um latte de leite de aveia que lhe custou 14 dólares.

    Zeca (a tremer de frio, a tentar acender um cigarro que o vento apaga sucessivamente): Porra. E eu a achar que Cacilhas em novembro era deprimente. Onde é que está a «fabulosa cidade branca» de que o Kerouac falava? É que eu só vejo cinzento. Cinzento e gajos a dormir em tendas na rua.

    Brad: Man, you don’t get it. É a neblina. Nós chamamos-lhe Karl the Fog. É poético. É a nossa atmosfera cintilante, a luz coada… muito parecido com a vossa Lisboa, certo? As colinas míticas, os cable cars na Lombard Street…

    Zeca: Não compares os vossos cable cars com o nosso Elétrico 28. O vosso elétrico é um parque de diversões para asiáticos. O nosso elétrico 28 é um ecossistema de sobrevivência. É o National Geographic dos carteiristas. Se te distrais um segundo no 28 a olhar para a “luz coada”, roubam-te a carteira, o relógio e a dignidade.

    Brad: Yeah, yeah. Mas temos o Fisherman’s Wharf. Os leões marinhos ao sol! A natureza misturada com a cidade, os turistas a olhar…

    Zeca: Leões marinhos? Animais gordos, a cheirar a peixe podre, a estorvar o caminho e a apanhar sol? Em Alfama também temos isso. Mas nós chamamos-lhes «bêbedos do miradouro das Portas do Sol». E fazem menos barulho.

    Brad: E a paz? Haight-Ashbury! A geração das flores! Peace and love, Scott Mackenzie a cantar em Union Square…

    Zeca: A geração das flores… sim, senhor. Fui lá ontem. Mas agora parece mais a “geração do fentanil”. Muita malta “On the Road”, de facto, mas a ressacar encostada aos caixotes do lixo.

    Brad (suspira, olhando para o vazio e tentando encontrar inspiração): Sabes, podes dizer o que quiseres. Mas o Tony Bennett tinha razão. À despedida, toda a gente canta aquela cantiga: “I left my heart in San Francisco / High on a hill…”

    Zeca: Pois… O Tony Bennett deixou cá o coração. E eu deixei o meu T1 com vista pó rio em Alfama para o cabrão do teu primo do Wisconsin. Vamos mas é beber uma jola. Que a vossa cerveja artesanal sabe a mijo de gato, mas ao menos anestesia.

  5. Não há perseguições automóveis como as dos filmes em S. Francisco, “no doubt about that”… O sobe e desce daquelas colinas dá cenas memoráveis.

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