Saudades de São Francisco


Pedro Correia,

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Há uma atmosfera cintilante, tão parecida com a de Lisboa. E a luz coada. E a neblina, que cai quando menos se espera. E os carros eléctricos sulcando as curvas de Lombard Street. E os leões marinhos expostos aos raios do sol e ao olhar indiscreto dos turistas no Fisherman’s Wharf. E as frondosas alamedas verdes do parque Golden Gate, o maior pulmão verde da cidade. E a ponte. E os labirintos do bairro chinês. E a memória cinéfila ao espreitar de qualquer esquina, devolvendo-nos cenas míticas de alguns dos filmes das nossa vidas – Dark Passage, Vertigo, Bullitt, Dirty Harry, Basic Instinct. E os barcos que cruzam a baía, rumo a Sausalito. E o rochedo de Alcatraz, lá mais ao longe. E a eterna cantiga de Scott Mackenzie tocada algures em Union Square. E Haight-Ashbury, local mítico da geração das flores.

«Vimos estendida diante de nós a fabulosa cidade branca de São Francisco sobre as suas onze colinas míticas com o Pacífico azul e, ao largo, a sua muralha de nevoeiro marítimo a avançar, e fumo e a luz áurea do fim de tarde do tempo», escreveu Jack Kerouac nas páginas de On the Road. Com um deslumbramento que qualquer forasteiro sente ao visitar Frisco. À despedida, só apetecer trautear a canção de Tony Bennett. «I left my heart in San Francisco / High on a hill, it calls to me.

25 comentários em “Saudades de São Francisco”

  1. Sim, SanFran é uma cidade muito bonita. Mas segundo ouço dizer agora está com mais merda nas ruas que Lisboa (e é merda humana, não de cães), e com pessoas a viver em tendas espalhadas pelos passeios. A crise habitacional lá é ainda pior que cá.

  2. Quando li o post pensei: uma das mais belas cidades por onde passei, mas que raio, pouco me lembro; duas horas depois já a memória se encheu de espaços. Estive lá no Verão de 98. Retenho o lago e os jardins do Fine Arts Museum, onde além dos artistas de rua, reparei pela primeira vez no hábito dos turistas recém-casados escolherem imponentes edifícios públicos para as fotografias de noivos e que o lilás é a cor de cerimónia em muitas partes do mundo (o que mais tarde confirmei no Oriente). Lembro da grande marina. E da minha imagem do país, aqui é tudo em ponto grande. Fiz a highway 1 de San Diego a San Francisco, e fiquei embasbacada com a extensão das bases militares. O mundo começou a ficar mais claro, com menos mistérios sobre a ordem natural do poder global. Em San Francisco derreti com os novos beetles. Em Portugal ou ainda não havia a nova versão, ou havia poucos; lá as ruas estavam apinhadas deles, muito coloridos, a contrastar com os imponentes carros americanos. Uma cidade luminosa e alegre. Vista da parte alta, distendida e relaxada, de gente descontraída e casas ao estilo europeu, mas mais desempoeiradas, e muito diferente do feio e frio centro de Los Angeles. Fiquei apaixonada. Lembro ainda da reservada Chinatown e dos fortune cookies. Recordo o avistar de Alcatraz divertida ao som dos muitos leões marinhos, mas sem Sean Connery. E do porto, do navio Queen Mary. E, claro, da Golden Gate, que dá excelentes fotografias. E das noites numa Van de sete lugares no meio de nada, ou num motel baratucho à entrada da cidade. Depois de passar por San Francisco nunca mais se ouve as músicas San Francisco e Hotel California da mesma forma. You can check out any time you like,/But you can never leave!’

    1. Excelente comentário, Isabel. Gostei muito mais de São Francisco do que Los Angeles. Passar aquela ponte, que tanto nos recorda a de Lisboa, transmite-nos a sensação de sermos protagonistas dum filme. Foi ali que vi uma das mais engenhosas soluções para reduzirmos o tráfego para a capital: carros que transportem a partir de três pessoas só pagam um dólar de portagem; se nele forem uma ou duas, paga cinco.
      Fui à praia, banhada pelo Pacífico – bastante mais inóspita do que as da nossa Costa do Sol: aí não há comparação possível. Em compensação, a “Cacilhas” deles é muito mais bonita: gostei imenso de atravessar a baía e aportar em Sausalito. Só não fui a Alcatraz: as filas de visitantes eram enormes e não me apeteceu esperar tanto tempo para conhecer o interior duma prisão desactivada, aliás bem conhecida também de tantos filmes.

      1. Obrigada, Pedro. A ideia de pagar menos portagem por cada passageiro a mais é excelente sim. E São Francisco é de facto incomparavelmente mais bonita do que Los Angeles. Para dizer a verdade o centro de LA assustou-me; há ali uma frieza impessoal que não me agrada. Cheguei a visitar um tribunal e fiquei com a ideia de ali não é o sítio recomendável para praticar um crime. Coisa que também percebi quando fomos parados pela polícia numa das ruas por infringirmos um proibido virar à direita e pelo tom com que um dos polícias falou com a condutora. Mas percebo, ali corta-se a direito mesmo. À séria. Não estão para brincadeiras.

        Fiz essa viagem para fugir à de fim de curso. Como ir para Varadero em excursão não era o meu ideal de destino, fui para a Marktest fazer entrevistas telefónicas durante ano e meio para pagar uma viagem de um mês e picos aos Estados Unidos.

        Quanto ao sentirmo-nos como num filme, também experimentei a sensação mas de forma bem pífia. Éramos um grupo de 7, maioritariamente feminino. Como tínhamos poiso não muito longe das praias do Baywatch, resolvemos ir tirar uma fotografia com o salva-vidas in loco. Avistamos a vítima de calções vermelho no ponto de vigia e lá fomos, de máquina fotográfica em punho, pedir a alguém que registasse o nosso momento com um esbelto nadador salvador das praias de LA. Sucede que ao aproximarmo-nos demos com um desinteressante bexigoso com pança. E era ver-nos a implorar a quem tirava a fotografia para recuar e tirar de mais longe possível para não se notar muito. Mas ele esforçou-se na pose, fez peitaça e meteu a barriga para dentro. E tivemos o nosso momento Baywatch de trazer por casa. E o mar, convenhamos, tinha petróleo a mais. Ainda nadei um pedaço, mas não foi entusiasmante para estreia no Pacífico.

        P.S.: acho que nunca vi um episódio do Baywatch. Quando muito uma cena ou outra enquanto mudava de canal.

  3. Hoje é um desastre, aliás como a Califórnia…afogada em regulacionismo e esquerdismo.

    https://www.city-journal.org/san-francisco-homelessness

    “Failure to enforce basic standards of public behavior has made one of America’s great cities increasingly unlivable.”

    “For the last three decades, San Francisco has conducted a real-life experiment in what happens when a society stops enforcing bourgeois norms of behavior. “

    lucklucky

    1. Sem ela, ‘Vertigo’ não seria – como é – o filme das vidas de tantos de nós. Em São Francisco andei a reconstituir o circuito de várias cenas dessa inesquecível longa-metragem de Alfred Hitchcock.
      Infelizmente não vi a Kim Novak. Mas vi em palco o Jerry Lewis, para compensar. E a Suzanne Vega, que me autografou um CD.

  4. São Francisco, tantas séries e tantos filmes.
    E ,que dizer de Tales of the City de Armistead Maupin que
    tanto prazer me deu . Mal acabava um livro lá ía eu a correr
    comprar o seguinte. Um prazer simples e tão agradável.
    Mas tudo tem um fim.

      1. Uma das mais fabulosas e trepidantes cenas de perseguição de automóveis da história do cinema, protagonizada pelo Mustang conduzido por Steve MacQueen, actor que chegou a ser piloto de competição.
        Confesso que sou admirador incondicional e “coleccionador” destas cenas. Obrigado por tê-la trazido aqui (vê-se Alcatraz e espreita-se a ponte, lá ao longe).

    1. É uma cidade absolutamente cinéfila. Como seria Lisboa: custa-me acreditar que tão poucos filmes sejam aqui rodados.
      Há pouco tempo revi ‘Cidade Branca’, de Alain Tanner. Lisboa aparece-nos, vergonhosamente, como uma cidade feia e suja e decadente.

      1. Gostei imenso desse filme que aliás foi premiado
        no Festival de Cannes . Lisboa aparece-nos dessa forma ,
        porque realmente era suja ( e continua) e decadente .
        Feia nunca foi nem nunca será. 🤗

      2. Não, não foi premiado no Festival de Cannes,
        ganhou um César em Paris o que também tem um certo prestígio. 🙉

          1. De facto Lisboa era uma cidade muito suja na década de 80, como este filme documenta. E um interessante romance da mesma década – ‘Hotel Lusitano’, de Rui Zink – testemunha também.

          2. Não conheço o autor. Neste espaço passo a vida a ” tomar nota ”
            Agradeço a dica

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