Saneamentos


José Meireles Graça,

Em tempos, o Facebook suspendeu-me um amigo por 30 dias, por causa de uma piada qualquer aparentemente racista (e que fosse, a piada e ele; mas, incidentalmente, o amigo em questão de racista tem nada). Irritado, escrevi um texto onde reflectia sobre as redes sociais.

Acabava assim: Fizeram-me falta os 30 dias do meu amigo. Não é esquerdista, não é preto nem cigano, não é pobre nem explorado, não é situacionista nem convencional. Azar dele: os tempos vão para quem pensa como deve ser; para os outros há suspensões.

De então para cá o mesmo incontinente verbal já foi suspenso várias vezes, pelas mais diversas razões, e calhou conhecê-lo em pessoa: é, como previa, igual ao que previa. Se vivêssemos na mesma cidade, é provável que frequentássemos o mesmo café, nos sentássemos às mesmas mesas e asneirássemos com pertinácia, à vez; e seguro que com ele aprendesse alguma coisa porque isso é o normal quando se têm percursos de vida, experiências, formações e interesses muito diferentes, se houver um fundo inato de tolerância, curiosidade, alguma coisa para a troca e predisposição para levar o mundo, sempre que possível, na desportiva.

O Facebook é um café em ponto grande, tão grande que há uma quantidade infinita de grupinhos que não se podem ver uns aos outros, e numerosos clientes dos quais a prudência aconselha a manter uma confortável distância. Mas todos têm o direito de beber a sua meia-de-leite, ou a imperial, ou o bagaço, ou o que seja, é ao gosto de cada qual. E se o camarada tem por hábito arrotar, ou cuspir, ou mesmo vomitar, o espaço sobra e por isso o dono do estabelecimento não se incomoda, até porque os bêbados e os malcomportados tendem a juntar-se uns aos outros ou, quando venham às mesas dos civilizados, serem acolhidos com fleuma nuns casos, e com abundância de pontapés noutros.

Não se incomoda com isso, e faz muito bem, mas três coisas lhe importam: a primeira é que se diga mal do Governo; a segunda são mentiras; e a terceira a nudez.

Governo é como quem diz, não é bem isso: é mais um conjunto de ideias que acha que desagradam aos costureiros das tendências e à maioria dos clientes. Mentiras também não, é mais, além das propriamente ditas, verdades ou hipóteses que não tenham chancelas oficiais dos mandarins do pensamento. E nudez porque, coitado, é americano e lhe ensinaram de pequenino que é pecado, além do que muitos clientes são também daquela infeliz nacionalidade, ou não são mas ingeriram na infância quantidades consideráveis de pudicícia e hipocrisia.

Pois bem: há dias o meu mural, velhinho de dez anos e pesado de milhares de histórias, fotografias, links, reflexões, levou completo sumiço: nada, zero, niente, kaput. Alguém num servidor em Denver, Colorado, alterou a palavra-passe e o endereço de e-mail, de modo que semelhante arca do tesouro estará talvez perdida para a humanidade, que ficará com certeza impassível enquanto eu furibundo. Adiante, que talvez o meu eu pretérito ainda venha a renascer.

Sucede que outro amigo, da variedade com vastíssima plateia, notoriedade pública e créditos firmados como autor de crónicas, no caso sobretudo sobre assuntos económicos e de políticas públicas, reproduziu há dias uma capa da revista Playboy onde aparecia a Lenka do Preço Certo de mamas ao léu, num comentário. No dia seguinte, ao querer publicar um link para outro assunto, ficou ciente de que estava impedido de o fazer. Chegou-lhe a mostarda ao nariz e bazou de vez – não está para aturar insolências moralistas de uns merdas que ninguém sabe quem são e que, quase planetariamente, decidem o que se pode e não publicar num meio que só teve o sucesso que teve, e que se traduz em incontáveis milhões para os proprietários, porque deu voz a quem não a tinha, ou permitiu ampliar os púlpitos de alguns pregadores, preservando o direito de cada um ler apenas o que lhe interessa, escrever para grupos ou, se houver audiência, um público mais vasto, e interagir com quem aceite interacções.

Grandes burros, o sucesso cega-os: quase toda a gente é conformista e aprecia indignar-se contra os que não o são. Mas são estes o chamariz, o exercício da liberdade de opinião incomoda mas a sua ausência acaba por fazer os ambientes enjoativos.

Suponho que se vai arrepender: quem está habituado a um café imenso achará qualquer outro acanhado; e o paleio de que há coisas muito mais produtivas para fazer, sendo de conteúdo verdadeiro, deixa de lado que pois sim mas nem só de pão vive o homem – também vive de se irritar com disparates, dar umas ensinadelas nos dias bons a alguns pedantes, receber outras nos maus, aturar uma turba de irrelevantes, aprender alguma coisa sobre o que lhe interessa e o que julgava que não lhe interessava, e divertir-se no durante e nos intervalos.

A mim, que porque sou velho sou mais sensato (também já era em novo, mas não quero pôr-me para aqui com gabarolices), não é impossível que isto irrite mais do que a ele. É genericamente um tipo de esquerda, no sentido de que liga muito mais importância à igualdade material entre os cidadãos, e tem muito mais confiança nos poderes demiúrgicos do Estado, do que eu. Mas não é um idiota que diz coisas porque sim, antes se dá ao trabalho de as medir, e como é de profissão professor de economia, usa ancorar-se em doutrina, estudos, pareceres, tudo embrulhado em despretensão, a que soma uma declinação própria. Por último, e sem ser o menos, não se leva demasiado a sério, em contraste com a suficiência que é quase uma marca d’água da profissão, e aprecia discretear nas redes sobre o que se chama a espuma dos dias, a qual não é menos saborosa do que a na parte de cima de um fino (imperial, para quem viver nas partes para onde o Saara se vai expandir primeiro) bem tirado.

O Facebook vai fazer-lhe falta, e ele a mim. Razões porque o aconselho a fazer o que se fazia nos tempos da Velha Senhora: encontrar maneiras de dizer o que se quer de forma que os coronéis deixem passar.

Somos muitos a apreciar-te, Luís Aguiar-Conraria, mesmo na versão light, que não é a mesma dos artigos de opinião. E se isso não te diz grande coisa, informo que também não falta quem não te grame: queres dar-lhes essa alegria?

24 comentários em “Saneamentos”

  1. O livro das faces e tantos outros meios digitais nunca foram uma ferramenta de comunicação e para a comunicação. São antes instrumentos de colecta, selectividade, controlo e propagação do pensamento único, que é laboratorialmente edificado em ambientes que fazem-se passar por uma teoria da conspiração para alcançarem o que verdadeiramente pretendem: conspirar, corromper e dominar.

    A vertente não menos importante para alcançar os 3 pilares acima designados passava por uma cuidada comunicação e transmissão de mensagens subliminares que piano piano se instalassem quais cookies na mente dos cidadãos.
    Com o advento da internet, onde a comunicação, o ajuntamento e a transmissão de pareceres se tornou mais fluido, à velocidade da luz, e agregou múltiplas correntes que se iam completando em sua visão e estudos, o alerta e até mesmo o pânico instalou-se no meio desses que, controlando os meios tradicionais de comunicação, querem fazer parecer que são alvo de uma teoria da conspiração para melhor continuarem a conspirar.
    Posto isto, o passo seguinte da estratégia foi o assalto ao poder instituído para que através do poder legislativo se transformasse em forma de lei a corrupção que pretendem instaurar, sem deixar ao acaso que a melhor forma de o fazer, isto é, de corromper, também passaria por minar o terreno estrutural das sociedades que se denomina por cultura, antropologia e tradição. Criando, assim, uma teoria da evolução virtual que visa determinar que o homem é deus de si mesmo e sobre todos os demais quando o pode.

    Porém, para poder dominar sobre todos os demais, faltava permitir fazer acreditar que cada um individualmente era o seu próprio deus e criador a quem tudo quanto fosse na ordem da perversão e da corrupção e até mesmo da sua condição, contrariando ainda a ordem natural – histórica, antropológica e científica -, lhe era possível e legitimo.
    Tudo isto, compreende-se, em ordem a estabelecer uma nova ordem, desta feita virtual, mas efectiva para esses na capacidade de concretizar seu domínio.
    O seguimento deste assalto, já em curso, passa ainda por quebrar as estruturas fundamentais do individuo, na sua crença e fé, substituindo por uma outra de origem teosófica onde, de forma kantiana e hegeliana, a objectividade do fundamento deixa de existir, fazendo passar a ideia de que tudo é subjectivo e faz parte de um erro do pensamento.

    Assim, deixo-vos uma sugestão: criem os vossos próprios sítios, ou sites, de forma independente e procurem criar ainda outras plataformas para fazer residir vossos pensamentos e conteúdos que não os meios tradicionais. Isto é possível de fazer.

  2. Desta vez não lhe posso gabar o conselho.

    Genuflectir perante a prepotência nunca pode ser uma forma de “não lhes dar essa alegria”.

    Dir-se-á que, assim, eles vencem. Pois vencem, porque são donos do terreno.

    Há-que retirar, reagrupar e preparar a próxima batalha.

    1. Pois sim, mas a rede alternativa, isto é, o Twitter, é um esgoto a céu aberto onde não se pode manter uma conversa de jeito, desde logo pela limitação de caracteres. Claro que vai surgir outra coisa, mas para já…

      1. a rede alternativa, isto é, o Twitter

        Não há outras redes disponíveis?

        Eu creio que a China tem diversas, a Rússia também terá…

  3. Mas vocês, para palrarem num café em Portugal, estão dependentes do critério censório dum moralista de merda anónimo em Denver, Colorado – uma das mais horrorosas cidades dos EUA?
    Tenham paciência, arranjem vias alternativas para perorar, meu caro. De que vale arengar contra a censura aos meios digitais que vai vigorar em Portugal a partir do dia 17 se aceitamos a mesmíssima censura vinda duns “amaricanos” que ninguém elegeu e que nem sequer fazemos a menor ideia quem são?
    Por mim, a opção está feita. Nesse café não entro.

  4. reproduziu há dias uma capa da revista Playboy onde aparecia a Lenka do Preço Certo de mamas ao léu

    Menos grave fôra ter mostrado a Lenka de passarinha ao léu.

    Admira-me que o LA-G, que conhece os EUA melhor do que eu, caia em tal asneira. É que, na cultura dos EUA, as mamas são aquilo que de mais pudibundo uma mulher tem. A mulher pode mostrar muita coisa, mas as mamas não, não e não!!! É evidente que, se alguém exibe imagens de mamas no Facebook, só pode ser de lá banido!

    1. Admira-me que uma sociedade tão puritana não tenha ainda conseguido banir a pornografia das diversas plataformas que se transformou num negócio de biliões; e aí há de tudo, até mamas.
      Balio, será que a colecta de impostos a um negócio com esta dimensão supera todo esse puritanismo mamário que diz aplicar-se ao caso em apreço? Não terá sido o pretexto para indicar ao amigo de JMG que estava sob observação? A censura tem muitas formas de amestrar.

  5. Nunca quiz entrar no Facebook e será estultícia pois sou o único membro da minha família próxima que não o tem. Aliás também não tenho o Whatsapp e assim o grupo da minha Mulher e filhos chama-se “Nós sem o pai”.
    O autor que me desculpe o devaneio mas a referência a grupos diferentes no mesmo café levou-me inevitavelmente há 60 anos atrás, à cave do café Nicola onde ao fim da tarde se reuniam dois grupos de idade respeitável(*) um de interessados em genealogia, o outro de oficiais reformados de Cavalaria. Detestavam-se cordialmente e crismaram-se respectivamente de “Colégio dos Nobres” e “Escola Práctica de Cavalaria” designações que caíram no goto dos empregados mais antigos e que assim identificavam os grupos a clientes curiosos.
    (*) Interessei-me por genealogia muito cedo e frequentei o “Colégio dos Nobres” por cerca de dois anos com o esperançoso título de “fidalgo aprendiz”, título esse que viria a perder para o Jorge Brito e Abreu, depois distinto arquitecto e investigador.

      1. Infelizmente tem razão e agradeço o reparo. Creio que reajo instintivamente à queda das consoantes mudas no AO90 que às vezes erro por excesso como neste caso. A palavra tinha k em grego e c em latim mas, enquanto galegos e espanhóis mantiveram o c, no português perdeu-se há séculos.
        Pelo que vi numa rápida passagem pelo Google, há mais pessoas com o mesmo problema.

        1. A dissertação sobre o grego e o latim é interessante, mas creio que atualmente as pessoas se guiam mais pelo inglês. Se tem c antes do t nessa língua, as pessoas pensam e acham que também deveria ter em português.
          Outro erro que é muito comum é escrever “contracto” em vez de “contrato”.

  6. O problema é que há uma grande confusão entre liberdade de expressão e liberdade de opinião.
    Eu posso dizer merda e não há problema porque tenho liberdade de expressão.
    Mas se eu disser que o governo é uma merda, aí já vou ter problemas porque não permitem a liberdade de opinião.
    Ou seja, a liberdade de expressão está dependente da merda na liberdade de opinião.

  7. Caro Senhor

    A dita “democracia digital” ( onde todos têm voz) é mais uma parangona em que todos fingimos acreditar quando apareceu, mas que naturalmente segue as mesmas regras de todas as anteriores modas: os interesses comerciais , editoriais, e outro,s que têm a ver com o retorno financeiro do meio em questão, predominam.
    Os senhores Zuckerberg (facebook), Dorsey (twitter), ou outros que tais não são a favor, nem contra, essa ilusão: são apenas homens de negócios. Tal como o Sr Balsemão ( Expresso), ou Azevedo (Público), querem vender , facturar, ou conquistar boas vontades no poder. Não há qualquer novidade desde o Citizen kane ( ou desde Platão).
    É uma falsa surpresa ou ingenuidade julgar que tudo mudou só porque o suporte técnico mudou: o Homem é o mesmo!

    Melhores cumprimentos

    Vasco Silveira

  8. Independentemente de considerações outras sobre o Facebook (no qual tenho passado incólume, bem ao contrário do que me acontece no rossio português) e sobre o aqui desagravado, tenho a lamentar uma discordância abissal com o autor do postal e com o louvado dono de café: pois nada me importam as maledicências sobre os possidentes, a nudez ou as mentiras demonstradas pela clientela (nem a bebedeira, desde que não muito sonora). O que detesto mesmo são os donos de canídeos que os tornam em fregueses habituais.

    1. ” O que detesto mesmo são os donos de canídeos que os tornam em fregueses habituais.”
      Apoiado! Apoiado! Palmas

  9. O facebook é um negócio.
    O Zuckerberg é um libertário liberal, desde que nao prejudique a facturação.

    1. Tem razão mas não tirou a conclusão. Hoje a maioria dos utilizadores do Facebook sõa uma amostra agravada da população: ignorantes, politicamente correctos em ambas as versões, burguesa e neo-marxista. Assim, por motivo de negócios, de números, Zuckerberg apoia a sua maioria e defende-a contra comentários de conteúdo conservador, nacionalista ou anti-esquerdista.

  10. Brevemente a GNR vos irá bater á porta por causa do delito de pensamento. Por agora esbofeteiam jovens na rua e vão a casa de uma mãe, raptar meninas de 12 anos por não usar máscara. Muito aplaudem de contentamento. Esperem pela demora. A vossa vez chegará.

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