Num mundo dominado por incertezas, onde tantas vezes escutamos a palavra “talvez”, há que saber também dizer não. Com toda a clareza. Há quem se preocupe em cultivar adversativas à la carte, acrescentando um “mas” justificativo das mais brutais agressões dos direitos humanos. Em nome do respeito pelas diferenças culturais, relativizam-se atropelos de toda a espécie. Em nome de afinidades políticas ou cartilhas ideológicas, absolve-se num quadrante o crime que se denuncia noutro.
As indignações selectivas retiram autoridade moral a quem se dedica a esta prática nada recomendável. Como criticar retrospectivamente a ditadura salazarista, que organizava eleições fraudulentas e perseguia opositores políticos, enquanto se aplaudem práticas do mesmo género no mundo contemporâneo em países como o Irão, onde as presidenciais de 2009 decorreram num inaceitável contexto de coacção, violência e medo? De que vale enaltecer uma figura como a do general Humberto Delgado, com a sua impetuosidade heróica, enquanto se reservam palavras de compreensão ou mesmo de elogio aos salazares de barba e turbante que transformaram o Irão num cenário de pesadelo? De que serve hoje denunciar os desmandos da ditadura do xá derrubado em 1979 enquanto se evita qualquer crítica ao actual regime teocrático de Teerão que destina a tantos dos seus cidadãos, como opções exclusivas, o exílio ou a “justiça islâmica”, com o seu brutal cortejo de condenações à morte?
Há realidades inaceitáveis, que não podem ser justificadas por quadrantes geográficos, crenças religiosas ou matizes culturais. A prática da escravatura é inaceitável. A mutilação genital feminina é inaceitável. As lapidações são inaceitáveis. E os regimes que praticam ou toleram atrocidades deste tipo são igualmente condenáveis. Sem ambiguidades, sem adversativas. Sem a palavra “talvez”.
Publicado hoje no DN


exactamente. casos como os referidos não pode existir talvez, porque e assim assim. Toas as barbáries têm e devem ser condenadas.
“Há realidades inaceitáveis, que não podem ser justificadas por quadrantes geográficos, crenças religiosas ou matizes culturais. A prática da escravatura é inaceitável. A mutilação genital feminina é inaceitável. As lapidações são inaceitáveis. E os regimes que praticam ou toleram atrocidades deste tipo são igualmente condenáveis. Sem ambiguidades, sem adversativas. Sem a palavra “talvez”.”
plenamente de acordo, só não consigo perceber a diferença, porque é que um País, como Portugal, em que o assassinio de milhares de Seres Humanos é tolerado e aceitavel, com a lei sanguinária do Aborto…
” A Vida Humana é Inviolável ” – Constituição da Républica Portuguesa , ou seja, bla,bla,bla…
aprox. 19 000!!!!!!!!!!! Vidas Humanas chacinadas ( sem talvez…) na civilizada Republica Portuguesa…
Assino por baixo. Tentamos arrumar a casa dos outros e nossa continua desarrumada. Bem prega Frei Tomás….
Totalmente de acordo, Pedro
http://devaneiosaoriente.blogspot.com/20 10/08/cultura-ou-crueldade-barbara.html
Sim, sim.Não, não.
De acordo.
No mundo perfeito, seremos capazes de dizer ao Outro: é errado.
Olhando o fim, o perfeito, conscientes de uma finitude angustiante, dizemos Não à guerra. Não à pobreza. Não à pena de morte. Não à criminalização do adultério. Não às penas degradantes.
Pedro, também eu quero esse mundo…
Agora, antes a palavra, a razão, o verbo, e sabe para quê? Para dizer ao Outro…dizer…tornar claro…levá-lo ao convencimento, argumentar com boa-fé. Neste campo, e só neste campo, há muito a percorrer…o mundo não acaba amanhã, e eu e você, e todos os que seriamente querem discutir têm de:
–saír de si mesmos;
–saber argumentar saindo da visão já formada, empacotada.
Só assim saímos da relatividade do tempo e do espaço (falar com um cidadão do sec. xv português sobre escravatura nao é o mesmo que agora: É O Tal Mas…), mas assim já seremos donos do FIM, donos de uma Perfeição, não haverá realidades a questionar, nada nos espanta…
Creio que não chagamos ainda a esse tempo absoluto.
Argumenta-se que há pena de morte em alguns países democráticos ( p.e. USA)… Certo…
a diferença a grande diferença, está na natureza do CRIME e no “código” que o condena!!!
Se este “crime” fosse condenavel desta forma, nestes países… Os arábes trocariam a exportação de crude por pedras…e
assistiriamos à cotaçao do “calhau” na Bolsa… O mal a grande hipocrisia disto tudo é que não faltariam investidores…
Revoltante e inaceitável. Sem mas nem talvez. Algumas coisas na vida são mesmo preto ou branco, como dizes. Não há cinzentos que sejam sequer discutíveis.
A pena de morte é inaceitável, independentemente do tipo de crime, independentemente da forma de execução.
É inaceitável! Ponto.
Posso aditar?
…Quando não nos diz respeito…
Que mal lhe pergunte:
– Que sentença daria a um criminoso que, por exemplo, matasse um filho seu… depois de …(!)
Um país que permitisse à mãe da vítima julgar o assassino do filho não seria, seguramente, um Estado de Direito, e eu espero nunca ser obrigada a viver num país que não possa ser qualificado desta maneira.
Este texto foi dos melhores jamais publicados em qualquer jornal sobre o assunto.
Exagero teu, João. Abraço.
É tudo tão lindo, tão geométrico. É tudo preto ou branco. Sim ou não. Sem pensar. Sem dizer um único argumento. Insulta-se, adjectivizam-se as pessoas. Nao saíram das novas oportunidades, bem sei.
O cinzento pode não ser a cor da moda, mas muda.
Foi com o afastamento da lógica binária que muito mundo andou.
Sem querer ser fastidioso, vou dar um exemplo: o concilio vaticano ii. Vou dar outro exemplo no campo do Islão: no sec xv e xvi o Islão progredia pela Europa de Leste, haveria muitos massacres a fazer…qual foi a fórmula encontrada? Uma terceira categoria, passou haver os djimmi, isto é, para além dos crentes, dos não crentes, há os que pagam um tributo ao califado e eram poupados.
O que quero dizer é que em muitos casos não convencemos o Outro (consciente do seu monoteísmo, logo dono de uma verdade) pelo simples não. Há que entrar no seu campo, conhecer melhor, argumentar com os próprios suras do Alcorão.
Só por falta de clareza da minha parte (não conhecia o nivel de discussão) fui interpretado no sentido de apoiar a ideia iraniana. Obviamente não podia ser lido dessa maneira porque não escrevi tal coisa.
O que não tem a clareza que alguns querem fazer crer é a escolha de sociedade que o Irão fez, e essa escolha não foi só em 2009. Essa escolha implicou determinados resultados, casos. No âmbito desses resultados está um Estado Teocrático (de forma não rigorosa: não é laico ).
Ora, o combate deve ser feito no próprio Islão.
De outro modo, no campo da Verdade do Outro.
Pode-se fazer manifestações ou dissertações? Pode. Mas eu (desculpem qualquer coisinha…) penso que o combate melhor é fazer um esforço para conhecermos porque razão milhões de pessoas aderem ao preconceito imanente à lógica do binário: ou eles ou nós.
Uma terceira visão.
O que se espera de um conjunto de pessoas que se mostram irredutíveis? O que sobra é a falta de imaginação discursiva.