Rumo à Presidência.


Luís Menezes Leitão,

 

Tudo o que tinha escrito aqui sobre a candidatura de Durão Barroso à Presidência da República com o apoio simultâneo do PSD e do PS acaba de ser confirmado por esta curiosa conferência promovida pela Comissão Europeia em Lisboa, intitulada “Portugal: Rumo ao Crescimento e Emprego“, mas que melhor se poderia chamar: “Barroso: Rumo à Presidência“. Depois da elucidativa entrevista ao Expresso, parece que Durão Barroso já arrumou definitivamente os papéis como Presidente da Comissão Europeia, cargo em que se destacou por uma total ausência de intervenção, e dedica-se agora com afã a promover a sua candidatura presidencial. De facto, é incompreensível que o Presidente da Comissão Europeia tenha feito o ataque que fez ao Vice-Presidente do Banco Central Europeu, sem que o seu Presidente e o próprio Banco tivessem dito a mais leve palavra sobre o assunto. E também é incompreensível que a Comissão Europeia organize uma conferência com claro significado político em Portugal nas vésperas das eleições europeias, com a presença do próprio Presidente da Comissão, que tem um claro dever de neutralidade sobre as questões políticas internas do seu país. Mas a conferência realizou-se e agora é preciso ver o seu significado político.

 

Este significado é claro. Já se sabia que o PSD de Passos Coelho iria apoiar Durão Barroso nas presidenciais, por muito que Marcelo Rebelo de Sousa proteste na TVI ou leve os militantes às lágrimas nos Congressos. Agora ficou a saber-se que há um claro endorsement de Cavaco Silva a Durão Barroso, que pretende ver como o seu sucessor no cargo. Foram especialmente comoventes estas palavras carinhosas de Cavaco: “Posso testemunhar, como poucos, a atenção que o doutor Durão Barroso sempre prestou aos problemas do país e a valiosa contribuição que deu para encontrar soluções, minorar custos, facilitar apoios e abrir oportunidades de desenvolvimento“. Fica-se a saber que Cavaco já escolheu o seu Delfim. Só é pena que os portugueses também possam “testemunhar, como poucos“, a forma como Durão Barroso tratou o país, deixando um Governo em colapso com a sua ida para Bruxelas, e ameaçando recentemente que estaria o caldo entornado se não cumprissem as suas determinações. Mas reconheço que Cavaco tem razão quando diz que “Portugal e os portugueses muito lhe devem“. Não só devemos como estamos a pagar todos os dias os empréstimos que a troika nos concedeu, mesmo que isso nos deixe só com pele e osso.

 

Mas o que foi elucidativo na conferência foi a reacção do PS. Ao contrário da restante oposição, que não quis estar presente, “o PS recebeu convite para assistir e deu liberdade a cada deputado para fazer o que entender“. Conforme já tinha anunciado, parece claramente estar a desenhar-se a preparação de um governo de Bloco Central, para depois da queda de Passos Coelho, aparecendo, como contrapartida do apoio do PSD ao PS, o apoio deste a uma candidatura de Durão Barroso a Belém. Para isso o PS só tem que tirar António Costa do caminho, mas isso é fácil. Não é por acaso que o PS anda a reclamar nos últimos tempos o direito a nomear o próximo Comissário europeu. O PSD pode perfeitamente oferecer-lhe a nomeação de António Costa, o que permitiria tirar já do terreno alguém que poderia ameaçar simultaneamente a liderança de António José Seguro e a eleição de Durão Barroso. Parece que a estratégia de Cavaco de forçar um acordo entre Passos e Seguro vai agora cumprir-se sob a égide de Durão Barroso. Les beaux esprits se rencontrent.

4 comentários em “Rumo à Presidência.”

  1. outra pergunta que não lhe foi feita, na recente entrevista ao expresso:
    – o que sentiu quando se apercebeu que tinha sido engando pelos seus mais póximos? quem o enagnou, pediu-lhe desculpa? ou isso não lhe importa? não lhe parece que também os portugueses foram engandos e merecem um pedido de desculpas?
    porque quando ele foi enganado, na qualidade de primeiro-ministro do governo de portugal, com as falsas provas da existência no iraque de armas de destruição massiva, foram também enganados todos os portugueses, e para isso ele contribuiu, mesmo que involuntariamente, porque também o anunciou aos portugueses.
    e alguma vez reconheceu isso, ou fez com que quem promoveu o engano o reconhecesse?
    e quer ser presidente dos portugueses…

  2. Muito bem ou muito mal.
    Signigica isto que o conclave foi inconclusivo, porque faltou a figura de proa, o Espírito Santo, para legitimar tais façanhas e virtudes. Na realidade este caminho quaresmal ao contrário de nos conduzir ao túmulo vazio apresenta-nos o cadáver, e os autores de sua morte, bem identificado(s). Sobre este capítulo ou sínodo virtuoso, venha então o próximo.

    Cavaco está a dar o mote que alguma disciplina orçamental vai ser substítuida pela hora do lanche, que será parcimoniosa, e assim retirará espaço de manobra ao PS chamando a si o protagonismo em alguma inversão das políticas criminosas que até apadrinhou mas que justificava por causa dos papões da troika.
    Ao retirar esse protagonismo a Seguro certamente que pretende chamar a si as atenções no sentido de poder credibilizar a apresentação de Durão como seu sucessor. Tudo isto porque se Durão aparecesse pela mão do PSD a morte política do mesmo, que ocorrerá sem qualquer dúvida, antecipar-se-ia.

    Ao mesmo tempo Cavaco sabe que Portas é inteligente e não esquece. E com esta fotografia em torno de um rumo para Portugal ele pretende neutralizar qualquer acção deste após a saída da troika.

    Jogar o futuro quadro político em torno de António Costa, per si, é não reconhecer que Costa no Largo do Rato já jogou sua cartada e perdeu. Seguro, como já o disse há muito, continuará a surpreender, pela positiva.

  3. Depois de ser Presidente da Comissão Europeia durante dez anos, só se estiver completamente louco é que Durão Barroso se candidata a ser Presidente da Républica Portuguesa.
    Também não percebo como é que se pode concluir das “especialmente comoventes palavras carinhosas de Cavaco: Posso testemunhar como poucos, a atenção que o doutor Durão Barroso sempre prestou aos problemas do país e a valiosa contribuição que deu para encontrar soluções, minorar custos, facilitar apoios e abrir oportunidades de desenvolvimento”, que Cavaco escolheu o seu delfim.
    Já vi um urso a conduzir uma mota sózinho, descer do Saldanha aos Restauradores. Foi mais fácil esta façanha do que o Costa da camâra ser nomeado Comissário Europeu por esta maioria.

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