Rui Machete e a multiplicação de ortónimos


Rui Rocha,

Na última versão conhecida, a que leio no Público às 19.56 do dia 8 de Outubro de 2013, Rui Machete afirma que na entrevista que deu à RNA pretendia minimizar os efeitos de uma violação do segredo de justiça. Esta versão, veremos se definitiva ou não (o historial recente demonstra que as versões de Rui Machete sobre determinado acontecimento não costumam durar mais que a vida de uma mosca da fruta) tem dois problemas. O primeiro consiste em poder ser muito verdadeira mas não ser menos desconhecida de um certo Rui Machete que exercia como Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal há menos de uma semana. Na verdade, o tal Rui Machete, não confundir com o Rui Machete que hoje presta esclarecimentos no Parlamento, emitiu um comunicado em que tenta justificar tais declarações admitindo que estas se referiam a aspectos substanciais do processo (gravidade dos factos em investigação) e em nenhum momento coloca sobre a mesa qualquer ligação das suas palavras à violação do segredo de justiça. Da mesma maneira, não devemos confundir o Rui Machete que declarou ter vendido acções a um preço X com o Rui Machete que reconheceu uns tempos depois que as tinha vendido ao preço Y. É ainda evidente que nenhum destes Machetes deve, por sua vez, confundir-se com o Machete que afirmou em determinada altura que não detinha quaisquer das acções que os outros Machetes declararam posteriormente ter vendido a diferentes preços. A proliferação de Machetes não é, todavia, a maior razão de preocupação. A dificuldade principal é que, pelo visto, os diversos Machetes nunca se encontram e cada um dos Machetes não faz ideia do que fazem ou dizem os outros. O segundo problema é que um dos Machetes, o que deu a entrevista à RNA e posteriormente emitiu o comunicado justificativo (presumo que sejam o mesmo mas confesso que nesta matéria não tenho certezas) faltaram gravemente ao respeito aos portugueses pondo em causa de forma desastrada o princípio fundamental da separação de poderes. O terceiro problema é que o Machete que está hoje no Parlamento é bem capaz de ter faltado ao respeito aos angolanos por dar a entender que o outro Machete disse umas coisas que na realidade não disse e que, na verdade, as suas declarações foram conversa fiada para os entreter. Temos assim ou excesso de Machetes (um fenómeno de multiplicação de ortónimos), ou razoável falta de vergonha e, em qualquer caso, razões mais do que suficientes para uma demissão ainda que para tal se tenha de aplicar o conceito desportivo de expulsão por acumulação de amarelos. Quanto ao mais, sei bem que falei de dois problemas no início do texto e acabei por referir três. Tratou-se, como bem compreenderão, de mera imprecisão factual. De expressão menos feliz, se quiserem, em que, todavia, não incorri em erro superior a cinquenta por cento. 

7 comentários em “Rui Machete e a multiplicação de ortónimos”

  1. Basta ouvir os noticiários para se perceber que, de facto, há o Machéte e o Machête (ou o Machête e o Machéte, para o caso tanto faz), pormenor que explicará todas essas trapalhadas.

  2. Lol. Benditos Manchetes que inspiraram este texto. Espero que continuem a aparecer mais, Manchetes e os correspondentes textos.

  3. Qual deles (Machetes) é que se referiu à existência da “podridão da política”?
    Que me lembre foi a única afirmação que qualquer deles (Machetes) não rectificou, desmentiu ou justificou.
    Poderá assim ser aquela a sua única afirmação válida e correcta?
    Não sendo eu monárquico penso na falta que faz um Rei Juan Carlos para lhe dizer: òh Machete, porque non te callas?
    Claro que o Presidente Aníbal poderia “fazer as vezes”, mas…

    Cumprimentos.

  4. Claro que nós todos é que ouvimos e vemos mal e além disso somos uns tremendos duns maldosos. O rapaz até é um rapaz esforçado, trabalhador e patriota, nós não passamos duns ingratos caloteiros

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