
Faz hoje 36 anos que os Estados Unidos deram autorização para assassinar Salvador Allende, o presidente chileno eleito democraticamente, para colocar no poder um execrável, cobarde e sanguinário ditador: Augusto Pinochet.
Se no longínquo ano de 1973 os EUA respeitassem os governos eleitos democraticamente, nunca teriam ajudado Pinochet a matar Allende. Para azar dos sul-americanos, os EUA só se preocupam com o governo democrático da Geórgia (no que são seguidos por babados analistas políticos de fraca memória).
Tive a felicidade de trabalhar com um ex-ministro e um ex-secretário de Estado de Allende, que escaparam à implacável polícia política de Pinochet. Pude, por isso, perceber como o 11 de Setembro de 1973 atrasou o crescimento da América Latina em várias décadas. Hoje compreendo, também, que aquele crime hediondo justifica o aparecimento de Chavez, Morales e outros líderes sul-americanos que querem impor uma nova ordem no sub-continente americano.
Gostava que todos aqueles que atacam os novos líderes sul-americanos com acusações grosseiras e despidas de qualquer contextualização histórica percebessem que os países sul-americanos foram até há bem pouco tempo colonizados pelos EUA, que não se coibiram de intervir naquela zona do Globo para impor ditaduras sanguinárias sempre que a escolha dos povos tendia para a democracia.
Apesar de Uribe e das Honduras, acredito que se acabou o tempo em que a América do Sul era coutada americana. Felizmente o mundo mudou. Para mim, ficará para sempre viva a memória de Salvador Allende. Um mártir assassinado às mãos de uns bárbaros.
Em tempo: Hoje assinalam-se, noutro hemisfério, oito anos de outro 11 de Setembro. Bárbaros vindos de um outro continente fizeram milhares de vítimas em Nova Iorque. Dois momentos para nunca mais esquecer.

” ….. percebessem que os países sul-americanos foram até há bem pouco tempo colonizados pelos EUA, que não se coibiram de intervir naquela zona do Globo, para impor ditaduras sanguinárias….” Nem mais, Carlos. Felizmente esse tempo acabou.
Quero acreditar que acabou, Ariel, mas nunca fiando…
são tantos os atentados contra a vida humana caro Carlos, como se mera formalidade se tratasse. Uns justificarem os outros é que é coisa com a qual nunca concordarei.
É uma data triste sim por todos os motivos que aponta e mais aqueles que não são do nosso conhecimento. Enquanto houver quem em nome do que quer que seja ceife vidas inocentes ou culpadas, haverá sempre datas a relembrar. Era bom que se aprendesse algo com o que nelas aconteceu.
O esquecimento é terreno fértil para a intolerância.
Era bo, era, o problema é que as pessoas puxam a brasa para a sua sardinha e tendem a valorizar um ou outro de acordo com as suas ideologias. Foram dois momentos da nossa história recente que devem ser igualmente lembrados, porque ambos mostram até onde pode chegar a brutalidade humana. Destaquei mais o de 1973, porque tende a ser desvalorizado. Afinal apenas morreu um hmem, não é? E ainda por cima era socialista!
Lembro-me perfeitamente eu tinha 18 anos e em vésperas do 25 de Abril em Portugal – nessa altura já desperta para essa questão da “Liberdade”. Carlos, obrigada, muito bonita a sua homenagem – sentida.
( hoje, também, faz anos que se suicidou o poeta açoriano-micaelense, Antero de Quental -18/4/1943 – 11/9/1891)
e, se me permite deixo aqui em jeito de homenagem a Salvador Allende este poema de Antero)
Evolução
Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta…
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo…
Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo…
Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade…
Interrogo o infinito e às vezes choro…
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.
Antero de Quental, in “Sonetos”
Correcção:
Desculpem, Antero nasceu no ano de 1942 e não como citei, 1943.
1842
Muito obrigada, que vergonha, não atinava …:))
E morreu num dia 11 (talvez não por acaso), como se verá no mais recente filme do Zeca Medeiros, já concluído.
Obrigado por ter recordado aqui o Antero, Maria! Foi muito oportuna.
De fracto são duas datas para não esquecer. Entendo melhor o que aconteceu em 73 no Chile pouco tempo depois quando contactei e me tornei amiga de pessoas que tinham fugido de Pinochet.
Em 2001 imaginei que tinha começado a terceira guerra mundial. Recordo que fui mais cedo para casa e que fui recebida pelo meu filho com um abraço mais apertado do que o normal. Eu disse-lhe: que porcaria de mundo vos deixamos. E ele respondeu-me de forma económica mas certeira: Se é que nos deixam algum!
O seu filho tem razão,Maria do Sol. Os adultos pasam a vida a falar dos jovens, mas nunca pensam neles. Excepto em campanhas eleitorais, claro!
belo post, que subscrevo na quase na íntegra. entristece-me e muito, ver a direita liberal em Portugal a apoiar todas as aventuras imperialistas americanas, mesmo quando altamente injustificáveis.
no entanto não sou tão optimista quanto ao futuro do continente, veja-se o caso Lula-PT, que apenas entrou para o governo e seguiu a política do FMI. daí não susbscrever na íntegra o post: a américa latina só pode realmente avançar quando o Brasil se decidir a isso mesmo.
Dizer que a direita liberal portuguesa apoia todas as “aventuras imperialistas americanas”, além de ser uma tirada fora de moda é abusiva e injusta.
Quanto a Lula e ao FMI, a verdade é que o Brasil finalmente arrancou. Mas é impossível trocar ideias com anónimos.
Acabas de fazer um ‘post’ que é uma intervenção histórica, na minha modesta opinião. Fica por contar a experiência que viveste ao lado de alguns pares de Allende.
É apenas um relato João. Quanto à minha experiência ao lado de companheiros de Allende, pertence ao meu passado de trabalho no PNUD. Momentos bons, mas que não merecem relato.Apenas me ajudaram a ver o mundo com outros olhos.
Carlos:
São datas que marcaram e continuam indeléveis na nossa memória. Infelizmente há quem esqueça rápidamente estes acontecimentos trágicos como se não tivesse acontecido nada para esses o desprezo são vidas humanas que para sempre se perderam.
Recordo também um 11 de Setembro em Portugal em 1985 em que ocorreu o maior desastre ferroviário, em Alcafache, de que nunca se soube o número certo de vitimas mortais.
Nao me recordava da data do acidente de Alcafache, Carlos, as começo a pensar que o dia 11 de setembro é uma data perigosa
Dois momentos para nunca mais esquecer, de facto, com uma coincidência de datas perturbante. Que comprovam mais uma vez um facto simples: os fanatismos e os totalitarismos são todos temíveis, todos dispensáveis e todos acabam mal.
Belo post, Carlos.
Pinochet não acabou nada mal… Ao que sei, e não é muito, a justiça na América Latina ficou em grande medida por fazer.
Talvez em espírito de concilliação, uns concedem a outros uma paz que estes nunca lhes agradecerão.
O que não é novo, aliás.
Eu ia dizer quase o mesmo que o João: e não foi sempre assim?
Mas não será por isso que a sua observação não é justa e pertinente, L. Rodrigues.
Totalitarismos e intolerâncias, Ana. Nunca mais aprendemos a ser civilizados.
Mas olhem que eles estão vivos e encarregam-se de nos lembrar, como nas Honduras.
Não foi por acaso que falei nas Honduras e na Colômbia, Salvo
Oportunas lembranças.
É sempe bom lembrar datas como estas, Sérgio. Na esperança de que não se repitam.