As palavras, que haviam circulado apenas entre elites, ainda vagas, ainda delicadas, encorpavam e tornavam-se fáceis de entender. Nascera uma amizade entre a linguagem dos ideais e aquele mal-estar sem nome com que os pobres dormiam e acordavam.
Adoecer, Hélia Correia (Ed. Relógio d’Água)
Há uns largos meses, quando li o Adoecer, sublinhei esta frase, que me pareceu uma precisa noção de revolução. Relembro-a agora, que passam 40 anos da nossa, sem obviamente querer identificar a Hélia Correia com qualquer uma das minhas ideias, e como forma de iniciar uma série de reflexões sobre revoluções ou sobre a nossa revolução.

Só conversa, as elites sempre tiveram desprezo pelos pobres. Pior, sempre tiveram vergonha deles—o que é clássico e explica o atraso dos países católicos em relação aos países protestantes. E pior ainda: ainda têm.
É por isso, Pedro, que os termos económicos se tornaram tão corriqueiros. Todos falam de spreads, de dívida pública, de swaps, etc. A linguagem é a mesma. Só que nem todos sabem a teoria e por isso dão-lhes significados muito diversos.
Mas para uma revolução o que interessa é que elas se encorpem e sejam fáceis de entender. Penso que tens razão!
E, claro, que onde está Pedro, deveria estar Adolfo.
A Merkel manda no país e o alemão anda com vontade de mandar em mim…
Gosto muito desta frase da Hélia Correia que, atenção, nada tem que ver com o 25 de Abril, mas que de certa forma identifica o momento em que surge a revolução.
Ou seja, quem manda são os mercados, é o pilim, como se diz cá por casa. Logo será indiferente se o partido mais à direita ou mais à esquerda está no poder? E que diferença existe entre as duas realidades? ideologias? Existem? Farão sentido? Depois de 40 anos, ainda nos falta responder a tanto.
Concordo contigo. Falta responder a muito. Daí que as revoluções não sejam momentos nem derradeiros nem oferecem guiões. São inaugurais, oferecem um certo grau de expectativa mas deixam-nos exactamente como somos: à procura.