Raras vezes uma mulher assim, neste meio, detém esta força. Contra a sua obra (e a obra por fazer) contaram séculos de predomínio masculino, oportunamente somados aos mais recentes anos de desconceito dos valores humanísticos, na crista de um poder que devia ser esclarecido porque é o poder de todos os futuros: o universitário.
Não a quiseram por cá? Outros a quiseram. Habituem-se.
Conheço-a há quase tantos anos quanto a mim própria e sei que ela é a força de teimar na acção. A obra lúcida, em movimento, contra o mecanicismo económico, os oráculos da estatística, os que olham fixamente – e sem fé– um amanhã enganado.
La science sans conscience n’est que ruine de l’âme: foi este o seu estandarte, que diz tudo sobre quanto se perdeu.
Agora, a caminho de Rabat para dirigir o novo polo da maior associação universitária do mundo, deixa na última página do ‘Jornal de Letras’ o seu Diário de partida de um tempo velho; e de chegada a um tempo com futuro.
Cristina Robalo Cordeiro
(…) Trago comigo um mundo imenso de rostos e de afectos. Deixo uma casa, uma cidade, uma universidade. Ou, pelo menos, uma certa ideia da minha universidade, no sentido que De Gaulle dava à celebérrima afirmação «Je me suis toujours fait une certaine idée de la France».
Detenho-me na resposta de Bellabes à última pergunta que lhe é colocada: «Não gosto de competições! Apenas uma forma de competição me interessa, a que me põe face a mim, em face de mim». E vêm-me à memória os meus recentes combates, tão semelhantes em natureza, tão desiguais nos seus efeitos.
Sei então porque parto. Não para reconhecer objectos e gestos, perfumes e sabores, no mistério das silhuetas desaparecidas na esquina de um souk ou das sombras projectadas sobre as paredes atravessadas pelo tempo. Mas porque é grande o apelo da vida, do pensamento e da acção. Porque há lugares onde ainda é possível construir, onde é inútil e ultrajante dizer não, não há condições… nem meios… nem esperança! Parto porque há condições, meios e esperança! E vontade firme!
Boa sorte, Cristina.


Grande parágrafo o primeiro, Laura! Que não te doam as teclas.
Admiro-a muito, também, carácter e obra. São pessoas assim que os deuses escolhem para proteger: os audazes.
Grande texto é o dela, na ‘contracapa’ do JL. Não percas, Ivone.
Belos textos. Imagens de um certo país e de um certo género a que me orgulho de pertencer.
A mágoa que tenho – cada vez maior -, é a de as ver partir, por Portugal não ter consciência de quanto precisa de mulheres da cepa de Cristina.
Tem razão, Helena. E somos ‘nós próprios’ a descartar os que, consistentemente, teimam em ver caminhos, condições e meios. De alguma forma, não nos reconhecemos nisso. Parece que ficou um Medina Carreira dentro de cada português…
Num tempo em que parece faltarem causas, esta não é apenas uma mulher de causas. Cristina Robalo Cordeiro é uma mulher que continua a honrar o nome de uma família dedicada a causas humanas, entre as quais uma área clínica a que me tornei particularmente sensível.
Estás muito bem informado 🙂
É de esperar o pior, a destruição acelerada do ensino deve-se à cada vez maior preponderância das mulheres neste.
Só aquela frase: “Não gosto de competições”
É a frase que demonstra como as mulheres escorraçam os homens do ensino.
Lembra-se quando um dia cheguei à escola e as notas deixaram de ser de 0 a 20 para ser de 0 a 5. Uma das maiores decepções. E as senhoras palermas – já nos anos 80 eram a maioria a dizerem são tão novinhos, não se deve discriminar, bla bla bla…
Agora é que abri a caixa de pandora…hehehe
Lucky, não percebeu nada. Aterrou no filme errado.
Lembra-me e não lembra-se.
Mais uma mulher de fibra que se vai embora. Será bom para ela, não duvido, mas é pena que o país não saiba reter os seus melhores, sobretudo numa altura destas.
É mesmo, Ana. E desta vez a ‘culpa’ não foi do governo…
Conheço mal a Cristina, de há muitos anos é certo, mas o que me chega conforta-me, aqui e por outras paragens tão distantes quanto o Brasil. Vejo nela a melhor característica dos homens, talvez a que nos separa mais no género, a pouca aversão ao risco, alguém que troca a segurança por um projecto maior. É verdade Laura, nós os homens somos mais emocionais, essa é a razão da nossa bravura e, sobretudo, do sucesso empresarial. 🙂
Desejo à Cristina a maior ventura neste recomeço, mais ainda tratando-se de uma mulher que vai falar alto o nome de Portugal. Precisamos muito disto, de verdadeiros embaixadores do saber, de pedras importantes no xadrez dos vários poderes. Estou feliz por ela, estou feliz por nós!
João, bem-vindo ao Delito! E essa aí dos homens serem mais emocionais…. Gostei 😉
Quanto à feminina aversão ao risco como característica (substantiva) do género, discordo. O que se passa é que o papel ancestral de ‘curadoras’ que ainda cabe às mulheres as faz, pragmaticamente, optar pelo sedentarismo estável e pela previsibilidade. E assim a humanidade se vai multiplicando em condições propícias…
Mas, se vires bem, se – ou quando – já não há necessidade de garantir essa ancoragem rotineira… a ver se elas não zarpam mar fora, atrás dos seus projectos.
A Cristina é muito engraçada: cerebral ao extremo, emocional como muito poucos. E aqui (novamente) discordo: a capacidade de entrega absoluta e de ‘afiliação’ de causas é muito, muito feminina. Curadoras até ao fim….
Isto, claro, se é que faz algum sentido procurarmos sinais distintivos de género: ainda não me decidi sobre essa magna questão 🙂