O enxovalho de que Portugal foi vítima há cerca de dois meses em Praga, por parte do mais alto representante do Estado checo, perante a passividade atónita de Aníbal Cavaco Silva, diz-nos muito sobre o que tem sido o mandato deste Presidente. Cavaco pecou genericamente por defeito, fazendo uma leitura minimalista dos poderes presidenciais. E não me refiro apenas à letra da Constituição, mas também ao seu espírito. O actual inquilino de Belém, por exemplo, abdicou em grande parte do ministério da palavra: quantas vezes, ao longo destes anos, não o ouvimos dizer que não podia comentar os mais relevantes temas da vida nacional?
Em nenhuma outra área este défice da intervenção do Presidente foi tão notório como naquela que o consagrou durante a década de 80 na nossa vida política: as finanças públicas. Cavaco dirigiu-se formalmente aos portugueses sobre a questão do Estatuto dos Açores e o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, mas foi incapaz de discursar sobre a crise financeira e o drama do desemprego, que atinge índices nunca registados em Portugal. O cúmulo desta falta de sintonia entre o Chefe do Estado e as preocupações reais dos portugueses ocorreu na última comemoração solene do 25 de Abril, quando os brutais efeitos da crise já nos batiam à porta: Cavaco, como se vogasse noutra galáxia, preferiu dissertar sobre as excelências do mar.
Desafia-me o Pedro Lomba a mencionar exemplos concretos de leitura minimalista dos poderes constitucionais. Já aqui deixei alguns, relacionados com a representação externa do Estado português, o défice de comunicação do Presidente com os portugueses e uma preocupante dissonância entre as prioridades que Cavaco foi enunciando e a realidade. E aqui vai outro: recentemente, o Chefe do Estado orgulhava-se de nunca ter vetado um diploma do Executivo, o que o torna no maior avalista da prática governativa de José Sócrates. Será mesmo motivo de orgulho?
Este seu apagamento voluntário teve a máxima expressão na “concertação estratégica” com um governo que desperdiçou uma legislatura de maioria absoluta na qual foi incapaz de concretizar as reformas de que Portugal necessita. Cavaco a quase tudo assistiu impávido. O País que irá a votos em Janeiro de 2011 em nada beneficiou das palavras de esperança com que o candidato Cavaco Silva lhe acenou na campanha de 2006. E se nem nas questões de consciência o Presidente consegue estar em sintonia com o seu eleitorado – como ainda agora se viu no lamentável discurso que fez ao País para justificar a promulgação dos casamentos homossexuais -, é caso para nos interrogarmos se continuará a justificar-se a eleição do Chefe do Estado por sufrágio universal. Até a isto – sobretudo a isto – Cavaco nos conduziu.


Enxovalho? Disse alguma mentira?
Aliás, Vaclav Klaus respondeu muitíssimo bem, é certo 15 anos depois, ao enxovalho que o seu pais recebera do dito Cavaco quando questionado se a Republica Checa poderia entrar na União Europeia, ao que ele disse nem pensar, que essas coisas eram mais difíceis do que se pensava.
O presidente checo limitou-se a dar-lhe o merecido troco, em grande estilo.
Você tem uma excelente concepção das relações internacionais, sobretudo entre parceiros da União Europeia. E já agora porque não desatar tudo ao estalo para vingar afrontas antigas? Porreiro, pá.
Pedro, desculpa tratar-te por tu. Se bem percebo aludes ao facto de, apesar de inúmeros avisos em inúmeras declarações públicas que Cavaco fez aos jornalistas, nunca ter convocado o País para falar da crise… Mas isso faria sentido? Tens razão quando dizes que o fez para casos menores, mas como – enquanto Presidente – é possível falar sobre uma crise que é um dado abstracto? Os presidentes devem falar sobre casos concretos – não matéria jornalística, ainda que isso se afigure como real (o que na maioria dos casos não é).
Neste início do mês de Junho, a crise toca-nos já de uma maneira muito concreta: o Governo começou a ir-nos ao bolso ainda mais do que já fazia, com o aumento dos impostos (que antes jurava que não subiriam). Isto é concreto.
A quebra das promessas eleitorais, escassos meses após as eleições, é outro tema muito concreto. A incapacidade de formar uma coligação governamental («proeza» quase única na Europa por parte de um partido sem maioria absoluta no Parlamento) é outro facto concreto. O aumento brutal do desemprego em cinco anos é outro facto concreto.
Sobre tudo isto, quase nada se ouviu do Presidente da República. Cavaco parece sentir temor reverencial por José Sócrates.
Pedro,
Peço desculpa de não ir comentar o texto,mas queria-lhe transmitir o meu agradecimento pelo carinho que sempre demonstrou pelo Vila Forte.Isto tudo,para o informar que o projecto Vila Forte termina hoje.Tudo pacifico e sem dramas.
Abraço e Obrigado por tudo.
p.s. por motivos profissionais venho cá menos vezes que gostaria,mas vou contuiar a ler o DO.
Tenho muita pena, meu caro. O Vila Forte era uma espécie de talismã do DELITO, pois gerou-se uma relação muito cordial entre os dois blogues assim que este apareceu, em Janeiro de 2009.
Espero que os nossos caminhos blogosféricos possam cruzar-se mais vezes. Deixo-lhe, entretanto, um forte abraço com votos de felicidades.
O meu voto não vai para Cavaco Silva um homem que, antes de tentar ser político, foi meu ídolo. Quanto me custa aceitar mais esta desilusão, cada vez mais é me dificil, senão impossivel, contrariar a aquela velha, gasta e simplória conversa: “os políticos são todos iguais”. São, não são?
O problema, Luís, é que Cavaco predomina na política portuguesa há um quarto de século. Desde que se tornou primeiro-ministro, em 1985. A política é uma actividade de desgaste rápido, há que dar lugar a outros. O tempo de Cavaco já foi. Espero que tenha a lucidez de não se candidatar a novo mandato, que só terminaria em 2016.
A política é como a Gestão, avalia-se por resultados. E os resultados de Cavaco, seja qual for o critério, foram fracos.
Partilho dessa ideia, André. Por isso mesmo escrevi o que escrevi.