Resolução


José Meireles Graça,

Bem, bem, não vou tomar os meus cafés de manhã, medem-me a temperatura duas vezes por dia (um excesso de cuidado, mas seja), se for dar o meu passeio a pé vou sozinho e não contacto com ninguém (na pista anda meia-dúzia de gatos-pingados, como eu) e, salvo para comprar tabaco e o euromilhões, uma vez por semana, não saio de casa. Quando acabar esta quarentena é provável que venham mais 15 dias, e cumprirei. Depois, mesmo que não haja vacina nem medicamentos, farei o que for preciso para manter a flutuar as duas chafaricas de que sou sócio, regressando, com precauções embora, à minha vida normal. E passarei a ser advogado da imunidade de rebanho, digam as autoridades as aldrabices que então acharem útil, que não serão exactamente as mesmas de hoje, e pense o que pensar a opinião pública, que então já não estará tão determinada.

7 comentários em “Resolução”

  1. É muito fácil advogar a imunidade de grupo e priotirizar a normalidade, económica e social.

    Basta assumir, com a mesma ligeireza, que qualquer pessoa que se apresente a cuidados de saúde com sintomas de uma pneumonia viral é aconselhado a ir para casa, ou se não quiser, enviado para um hospital de campanha onde não receberá outro tratamento além de cama, comida e paracetamol.

    Os que se safarem ficam imunes, esperamos. Os outros são cremados. Se o sistema funerário não der conta do recado, a cremação conjunta é admitida.

    Na verdade, para não nos preocuparmos com o COVID-19 basta abdicarmos do nível de cuidados de saúde a que estamos habituados. Países sem cuidados de saúde e sem economia pouco têm que se preocupar com o vírus.

    O que não é correcto, é que quem por infortúnio parte uma perna e precisa de ser operado, ou uma criança que apanha uma gastroenterite e está desidratada de tanto vomitar, receba maus cuidados de saúde porque os que decidem não levar isto a sério estão a entupir os hospitais, com as suas pneumonias atípicas e sobretudo com as dos seus familiares mais idosos.

    Itália não está como está por causa dos velhos e frágeis que estão a morrer. Está assim porque se recusa a deixá-los morrer sem nada fazer.

    1. E que género de cuidados de saúde conta ter depois a economia rebentar, quando tivermos uma crise económica e orçamental pior que a que tivemos de 2009? Ou a austeridade só matava pessoas pessoas nessa altura?

      1. Repare, eu por mim tudo bem.

        Mas em vez de se por com rodeios seja claro e responda à pergunta: quem se apresenta com uma pneumonia viral nos hospitais, deve ser tratado ou proscrito?

        Se tiver coragem para escolher a segunda para si e para os seus, e estiver disposto a assinar por baixo, está em condições para falar de economia nesta altura.

        Caso contrário, faça favor de seguir as indicações dos médicos que o querem tratar o melhor que conseguem.

        1. Excelente. Já dizia o saudoso Roy Batty que é excelente ser o “good man”. Todavia, basta ler para além dos jornais, e ver e ouvir para lá dos telejornais, para se saber que há médicos – pasme-se, há, até, professores de Medicina (como aquele que é insultado uns posts acima por sujeito que não distingue um brufene de um bem-u-ron – como eu, aliás) – que entendem que provocar uma depressão económica não é uma resposta proporcional ao vírus em causa. É que uma depressão económica também tem como efeitos que quem se apresenta com condições graves nos hospitais não possa ser atendido. E que mais pessoas tenhas essas condições graves. Pelo menos, foi o que correu entre 2011 e 2015. Não se está, portanto, portanto, perante uma escolha moral, e muito menos perante uma escolha técnica, mas sim, perante uma escolha política – que, acredite, mudará quando politicamente deixar de ser exequível, seja ou não o momento tecnicamente adequado para mudar de rumo. Saúde!

          1. Curiosamente, mais um que não consegue ser claro: os velhos, hipertensos, diabéticos, obesos, fumadores, etc, são tratados ou são proscritos?

            Recusar-se a “responder nesses termos” porque é uma escolha “política” e não “moral” é a atitude dum cobarde anónimo.

            O Boris foi muito criticado por simplesmente dizer “vamos perder muitos dos que amamos antes do seu tempo.”

            Se essa é a sua opção “política” (que eu até acho legítima), o mínimo de decência que se lhe exige é que o assuma com clareza.

    2. Pois é, pá! Já assisti a muitos estados de emergência e a cremações conjuntas. Todos os anos, quando morrem mais de 3000 pessoas por gripe no nosso país, assisto a esse triste espectáculo. E na Europa, hein? 110000 mortes só por gripe no ano passado! Foi terrível, ver as cremações conjuntas a céu aberto, pá!
      E antes da “pandemia”, quando ia com o meu pai ao hospital de Vila Franca de Xira, quando ele, já idoso, precisa de ir a uma consulta regular? É que era uma maravilha! O hospital nunca estava entupido! Mas agora, com o covid-19, acho que já contrataram uma empresa de desentupimentos, para minimizar o problema!
      Agora falando a sério: estamos lixados com F maiúsculo. Daqui a uns meses os que defenderam os estados de emergência e afins andarão a piar fininho.

  2. Sim, provavelmente mais 15 dias e depois, step-by-step, entraremos na normalidade. Aguarde-se as boas notícias que entretanto chegarão para o mundo inteiro.

    Da minha parte, e à distância regulamentar, prometi a uma vizinha que lhe apalparia o traseiro logo que o embargo seja levantado. Está visto que este covid é um moralista secular, direi mesmo um fariseu.

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