6 comentários em “Resistência activa ao aborto ortográfico (105)”

  1. Quando o assunto toca mesmo, escrevem em português.

    De resto, o país está todo em resistência activa, o que deveria ser um fenómeno estranho numa democracia que se diz “representativa”.
    Por causa do “acordo” passei a votar em branco (sim, saio de casa de propósito, para que a corja não venha depois atribuir os poucos votos ao estado do tempo, etc), para não me sentir insultado por alguém que se pode dizer “meu deputado” e que escreva “abjetamente” ou que se limite a exibir a sua cobardia.
    O “acordo ortográfico” é um crime cultural e cívico, contra o Estado de Direito e a Democracia. Bem dizia há dias Vasco Pulido Valente que cds, ps e psd não vêem qualquer objecção moral em governar à revelia dos portugueses.

    1. Em português, sem acordo: milhares de exemplos destes sucedem-se todos os dias em Portugal. O país oficial “ado[p]tou-o”, o país real ignora-o.
      E ninguém sabe escrever com as novas/velhas regras. Rigorosamente ninguém, sem a ajuda dos “conversores” de texto, também eles inadaptados ao acordês, que substituem em muitos casos pelo português do Brasil (em palavras como contacto ou contactar, por exemplo).

      1. Caro Pedro Correia,

        Mudou quem manda no aparelho de estado mas não mudaram, realmente, práticas características de um estado autoritário e antidemocrático.
        O acordo é imposto através dos partidos pelos interesses que mais ou menos mandam neles e que lhes impõem muitas das suas estranhas crendices. A ortografia fonética foi uma moda passageira no séc. XVIII, em França, nascida de uma blague de Voltaire, “traduzida” em português pelo Ir:. Verney (o tal que achava que Camões tinha pouco discernimento poético) e retomada pela república maçónica de 1911: a ortografia etimológica era dada como uma “superstição” (sic – assim se exprimia Gonçalves Viana). A coisa é um pouco confusa porque Viana – um autodidacta que mal frequentou a universidade (da qual teve de sair, para mal de todos nós, por falta de meios), chama “superstição” à prática – que ocorreu em toda a cultura europeia – da busca de radicais greco-romanos para com eles formar palavras que designassem as realidades novas criadas pela revolução científica a partir do renascimento e barroco. Com os amigos chegados ao poder, a língua portuguesa foi mutilada por decreto de um governo ditatorial.

        A tentativa de 1990 tem como novidade a sujeição aos interesses do hiper-nacionalismo brasileiro, parece que em nome da de um estado mundial (“Só assim poderemos participar, e a nossa participação é essencial na criação de um estado mundial de ordem baseada no direito e de progresso. (…) Por isso Portugal ratificou o acordo ortográfico da língua portuguesa – tudo “sic” ministro da cultura Pinto Ribeiro) que, é de crer, seria dirigido pelo Brasil, replicando-se o fenómeno de religiosidade jacobina de 1911.

        Sem se atender ao aspecto profundamente ilógico (e de pseudo-ciência) do acordismo será mais difícil combatermos este crime – que é ainda um tributo pago ao atraso.

          1. Mas, para além de alguns mais ingénuos, há uma verdadeira campanha concebida para a imposição do acordês.
            A coisa chegou à criação, nas redes sociais, de várias páginas falsamente anti-acordo, com equipes (bem preparadas) que actuavam a partir de diversos perfis falsos (o interessante foi ver deputados na assembleia da república a repetirem ipsis verbis o mesmo argumentário acordista.
            À pessoa que chegava a queixar-se do acordês eram dados pelos supostos anti-acordisas, falsos contra-argumentos, geralmente usando a “evolução” (como se a evolução da ortografia não consistisse, afinal, na sua estabilização…), explicando que as reformas eram coisa comum e normal (eeheh) e que a ortografia tinha de ser revista várias vezes.
            Depois, tentavam incutir a ideia de que quem não era partidário do acordo, o fazia por medo de não se conseguir adaptar (este argumento tem sido usado com sucesso junto das pessoas mais velhas e com menos conhecimentos literários, e explora essa insegurança) ou que era por xenofobia com os brasileiros que, muito contra a vontade deles tinham acabado por ser apanhados por Portugal, a quem haviam cedido. A ideia de que a “coisa” (passada a época de 1986) foi lançada pelo Brasil de Sarney em 1989/90, embora conste pacificamente da net, era rebatida com os insultos mais soezes. Tratava-se de eliminar a muito natural reacção de uma imposição vinda do exterior e sem qualquer sentido.

          2. Pois, valeu tudo no cumprimento do célebre mote: os fins justificam os meios. Sempre com o poder político de cerviz dobrada ao Brasil, impondo uma ortografia que ultrapassa a brasileira no apego à transcrição fonética.
            Nenhum brasileiro exigiu ou pediu sequer uma ortografia assim. Aliás ninguém se revê nesta ortografia – nem portugueses nem brasileiros nem angolanos nem timorenses nem caboverdianos nem macaenses nem goeses nem guineenses nem moçambicanos nem sãotomenses.

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