Resistência activa ao aborto ortográfico (103)


Pedro Correia,

 

«O Vasco Graça Moura não gostaria nem nunca gostou de lamúrias. Não vou, portanto, entrar naquele tom que às vezes se usa quando se refere à morte de alguém de quem se é próximo. Mas há um combate de Vasco Graça Moura que ele certamente gostaria que continuassem em nome dele: o combate ao acordo ortográfico. (…) As pessoas devem dar continuidade ao combate pela defesa da língua portuguesa, contra o acordo ortográfico.»

Pacheco Pereira, na Quadratura do Círculo (SIC Notícias, 2 de Maio)

14 comentários em “Resistência activa ao aborto ortográfico (103)”

  1. Sem querer ser antipático, o Pacheco podia fazer mais do que faz na luta contra o acordo.
    Para começar, poderia não ter votado favoravelmente o uso do acordês nos documentos da Assembleia da República*, algo que Vasco da Graça Moura nunca faria. Vejamos: 15 de Dezembro de 2010: Expresso “O Parlamento decidiu hoje, por unanimidade [sic], aplicar o novo Acordo Ortográfico a partir de 1 de janeiro [sic] de 2012, adotando [sic] o vocabulário do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC)[sic]”.
    Pacheco é dado como presente (http://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/DetalheReuniaoPlenaria.aspx?BID=63496).

  2. pela defesa da língua portuguesa

    ;

    Mais precisamente, pela defesa de uma ortografia da língua portuguesa imposta em Portugal pela 1ª República em 1911 e pelo salazarismo em 1945.

    1. É estranho que o Lavoura, para um confesso liberal, não veja a ironia de apoiar o acordo como faz no seu blog, onde escreve ao abrigo dele. Tem toda a razão, os acordos anteriores foram todos impostos: o de 1911, por uma República semi-tirânica; a ditadura militar tentou impor outro em 1931, mas não foi avante; houve novo acordo já no tempo de Salazar; e outro antes de Marcello sair de cena. Depois houve um abortado em 1986 e por fim o de 1990.

      Todos estes acordos antes de 1986 foram rapidamente passados pela força do poder vigente, que governava com mão de ferro, à revelia da vontade popular. Mas o primeiro acordo feito com um povo livre foi imediatamente rejeitado por ele; e o de 1990 iria pelo mesmo caminho, se não fosse a má vontade do governo em usar todos os seus recursos para o impor.

      Por isso, acho bizarro e ilógico que um liberal não só não combata um acordo imposto por um governo que claramente está a exceder o seu pelouro – eu não consigo imaginar a Ayn Rand a apoiar tal medida, para ela isto seria um claro exemplo do Big Government que ela tanto detestava; ou o seu precioso Pessoa, cuja autoridade usa para se definir como liberal – como ainda por cima não parece muito preocupado com um governo que silencia e oprime a expressão individual dos resistentes (eu não consigo imaginar John Locke a ficar impávido ante o facto de um antigo ministro de Sócrates ter ameaçado a Academia de Ciências de Lisboa de extinção se não apoiasse incondicionalmente o acordo; isso é algo digno do mais despótico dos absolutismos monárquicos. Como liberal, presumo que já tenha lido o Two Treatises of Government?), o que é muito estranho num homem que alegadamente acredita que o “indivíduo tem o direito de pensar o que quiser, de exprimir o que pensa como quiser, e de pôr em prática o que pensa como quiser.”

      O Lavoura não tem de me explicar o que é que é um liberal. Mas antes de mais precisa de o explicar a si mesmo, porque claramente anda muito confuso sobre o termo, a sua história e os seus conceitos principais.

      1. acho bizarro e ilógico que um liberal não combata um acordo imposto por um governo

        Um liberal concorda que tem que haver um governo, e que esse governo tem que impôr algumas normas e leis.

        Eu acho que tem que haver uma ortografia oficial da língua portuguesa. A ortografia oficial é aquela que se ensina nas escolas e aquela na qual os textos oficiais são escritos. E acho que essa ortografia oficial tem que, necessariamente, ser imposta pelo Estado.

        E, de qualquer forma, já foi. A ortografia que os adversários do acordo de 1990 defendem é a ortografia imposta pelo Estado em 1945. Portanto, não se debate aqui se vamos aceitar uma ortografia imposta pelo Estado ou uma outra da preferência do povo; o que se debate é qual de duas ortografias impostas pelo Estado é preferível.

        Ora, eu sou um liberal progressista – no que me distingo dos liberais conservadores que por aí pululam. E considero que a ortografia imposta pelo Estado em 1990 é melhor do que a de 1945. E, por isso, utilizo-a.

        1. Quem se opõe ao “acordo” não uma ortografia. Defende a estabilidade ortográfica, que é um bem em si mesma e de valor inestimável, já que apenas atingido pelos países com um índice de literacia razoável.
          É essa a razão pela qual o inglês, o francês não têm mudanças na ortogtrafia: desde logo a ausência de analfabetismo e uma boa taxa de literacia. Quem teve acesso a um bom ensino e, por isso, à norma, não comete erros. E não os cometendo, a ortografia não se desvirtua. Entre uma 1ª edição de Dickens e uma actual não há qualquer diferença. O mesmo se diga de um romance de Balzac.

          Quanto à “imposição de leis” num estado de direito e numa democracia avançada a sua posição é, no mínimo, curiosa. Mas, como essas coisas da obediência devem começar em casa, conviria que não desrespeitasse a Lei em vigor, o Decreto n.º 35228 de 8 de Dezembro de 1945.

          (Não podendo ser a obediência à lei, segundo as suas concepções, uma questão de escolha pessoal, o que diz em baixo “E considero que a ortografia imposta pelo Estado em 1990 é melhor do que a de 1945. E, por isso, utilizo-a” é totalmente inconsistente com o que afirma antes.

          Um pequena nota final: o “acordo” ortográfico é usado e incensado pelos sectores mais conservadores da sociedade portuguesa (basta ver o portal da Ordem de Malta). E tem os grandes nomes da cultura portuguesa -e da esquerda – contra. A oposição ao “acordês” é de todos os estratos da sociedade portuguesa, de todas as ideologias e de todas as idades.

          1. Há um lapso evidente na 1ª frase. Queria-se dizer que Quem se opõe ao “acordo” é, acima de tudo, partidário da estabilidade ortográfica.

        2. “Um liberal concorda que tem que haver um governo, e que esse governo tem que impôr algumas normas e leis.”

          Um liberal concorda que um governo deve ser pequeno e cingir-se ao básico: cobrar impostos (os mínimos possíveis), manter os tribunais a funcionar, proteger a propriedade privada, assegurar as liberdades dos cidadãos, defender as fronteiras… e pouco mais. Um liberal concorda que o governo não tem nada que meter o bedelho em questões como a religião, o sexo, moralidade, e língua.

          “Eu acho que tem que haver uma ortografia oficial da língua portuguesa. A ortografia oficial é aquela que se ensina nas escolas e aquela na qual os textos oficiais são escritos. E acho que essa ortografia oficial tem que, necessariamente, ser imposta pelo Estado.”

          Não há país mais liberal do que os EUA, mas o inglês lá nem tem estatuto de língua oficial. A ortografia oficial do RU nem sequer foi inventada pelo estado, foi um privado chamado Samuel Johnson que a inventou; a sua ortografia apenas pegou moda, espontaneamente. Quando Webster alterou a ortografia, o governo americano apenas a adoptou décadas depois, e apenas porque a população já a usava e o governo não queria parecer antiquado. Isto é um triunfo liberal, cidadãos a dizerem ao estado o que fazer, não o oposto. O oposto é mero despotismo.

          “que se debate é qual de duas ortografias impostas pelo Estado é preferível.”

          Não, o que se debate é a inutilidade de fazer MAIS reformas ortográficas. Elas deviam ter parado em 1911. Todas as outras foram inúteis porque não melhorarm o que a primeira atingiu: fixar a ortografia e combater o analfabetismo. Um novo acordo não vai fixar melhor a ortografia porque ela já está estável; pelo contrário, ela só muda exactamente quando a reformam. E não é a queda de umas consoantes que vai melhorar a aprendizagem da língua, isso é demagogia de pacotilha para tolos.

          “Ora, eu sou um liberal progressista – no que me distingo dos liberais conservadores que por aí pululam.”

          Então não é progressista? O epítome do Liberalismo em Portugal, Alexandre Herculano, pegou em armas para lutar contra as forcas de D. Miguel, honrando a memória dos pais do Liberalismo como John Locke e Voltaire. O Lavoura apoia a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, apesar de ser regida por um déspota como Obiang. Se por progressismo quer dizer, afastar-se meteoricamente dos conceitos basilares do Liberalismo, então tem toda a razão, é progressista. Temo, porém, que esteja a progredir para crenças repugnantes. Mas cada um se justifica a si próprio perante a sua consciência.

          1. 1 – A “reforma” ditatorial de 1911 não fixou ortografia nenhuma. A ortografia portuguesa estava fixada e a proclamada “anarquia” é mais uma mentirosa. no séc. XIX. Eça e Camilo escreviam na mesma ortografia. A Universidade de Coimbra, então a única no país, contribuía para a uniformização e havia manuais escolares usados em todo o país pelos professores e professoras do ensino primário.
            2 – A “reforma” de 1911 não contribuiu em nada para a baixa do analfabetismo, porque amputar letras não é o meio adequado para isso. . A apreensão das palavras é feita globalmente. Uma criança aprende com a mesma facilidade a escrever philosophia ou filosofia. Aliás, o ph mantém-se nos países mais cultos.
            Se o amputação das palavras contribuísse para diminuir o analfabetismo os brasileiros não teriam 75% de analfabetos.

      2. Miguel, talvez se seguir o avental perceba melhor o fenómeno da imposição do acordês:

        Não sei se o ex-ministro da Cultura ou o comentador Lavoura pertencem a essa venerável organização, mas o ideário está aqui, nomeadamente a questão do estado mundial ideia que enformou, aliás, a criação da SDN por Wilson, um membro daquela organização, e da sua sucessora, o ONU (que tem aparecido, como não podia deixar de ser, neste processo).

        «O entendimento entre todos os falantes da língua portuguesa e a sua divulgação constituem o instrumento indispensável na resolução de problemas de coesão social, desenvolvimento, democracia e segurança. Só assim poderemos participar, e a nossa participação é essencial na criação de um estado mundial de ordem baseada no direito e de progresso. (…) Por isso Portugal ratificou o acordo ortográfico da língua portuguesa e criou um fundo para o aprofundamento da língua nas regiões do mundo que contam com comunidades de portugueses e nos países da CPLP.»
        J. A. Pinto Ribeiro | Ministro da Cultura
        [ citado por Marco Antinossi | Agência Lusa | S. Paulo | 10-06-2008 | 16:01:33

        Achou estranho? O Malaca também diz que é uma questão política. Mas aqui em baixo a franqueza impera:

        “Então, podemos perceber que a escrita não depende da língua em uso, mas de decisões tomadas por alguns estudiosos da língua, segundo interesses sócio-políticos de uma nação.” – MARCIA MEURER SANDRI Mestre em Língua Portuguesa UERJ
        (http://www.revistanossoestilo.com.br/continua-aqui/ortografia-nao-e-gramatica/)

        Se se lembrar que o presidente brasileiro Sarney – verdadeiro impulsionador deste “acordo” é, político, académico e maçon perceberá ainda melhor. Se vir quem em Portugal, por acção ou omissão protege a coisa, verá que tudo começa a bater certo.

  3. Desculpe, caro Pedro Correia, vir aqui meter o bedelho… Mas gostaria de comprender as razões dos “progressismos” que defendem para a Língua Portuguesa o Formulário Ortográfico brasileiro, de 1943, do “democrata” e “progressista” Getúlio Vargas, em substituição da Reforma Ortográfica “salazarista” de 1945 (acordada com o Brasil e nunca aplicada ali). Porque é disso que se trata: o AO90 vem abrasileirar o Português, deixar o 1945 português e “evoluir” para o 1943 brasileiro.
    Mas o que realmente é importante, a meu ver, é que resistamos ao aborto ortográfico, e esse exemplo foi-nos dado, desde a primeira hora, por Vasco Graça Moura. Sejamos dignos continuadores da sua luta.

    1. Sim, o mais importante é isso. Quanto ao AO, os brasileiros estão-se nas tintas. Tal como os angolanos e os moçambicanos. E quase todos os portugueses, excepto algum Portugal oficial que venera a grande “reforma ortográfica” parida pela dupla Cavaco Silva/José Sócrates.

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