«O Vasco Graça Moura não gostaria nem nunca gostou de lamúrias. Não vou, portanto, entrar naquele tom que às vezes se usa quando se refere à morte de alguém de quem se é próximo. Mas há um combate de Vasco Graça Moura que ele certamente gostaria que continuassem em nome dele: o combate ao acordo ortográfico. (…) As pessoas devem dar continuidade ao combate pela defesa da língua portuguesa, contra o acordo ortográfico.»
Pacheco Pereira, na Quadratura do Círculo (SIC Notícias, 2 de Maio)


É isso mesmo!
Continue-se o combate.
Sem querer ser antipático, o Pacheco podia fazer mais do que faz na luta contra o acordo. inas/DetalheReuniaoPlenaria.aspx?BID=634 96).
Para começar, poderia não ter votado favoravelmente o uso do acordês nos documentos da Assembleia da República*, algo que Vasco da Graça Moura nunca faria. Vejamos: 15 de Dezembro de 2010: Expresso “O Parlamento decidiu hoje, por unanimidade [sic], aplicar o novo Acordo Ortográfico a partir de 1 de janeiro [sic] de 2012, adotando [sic] o vocabulário do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC)[sic]”.
Pacheco é dado como presente (http://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Pag
pela defesa da língua portuguesa
;
Mais precisamente, pela defesa de uma ortografia da língua portuguesa imposta em Portugal pela 1ª República em 1911 e pelo salazarismo em 1945.
É estranho que o Lavoura, para um confesso liberal, não veja a ironia de apoiar o acordo como faz no seu blog, onde escreve ao abrigo dele. Tem toda a razão, os acordos anteriores foram todos impostos: o de 1911, por uma República semi-tirânica; a ditadura militar tentou impor outro em 1931, mas não foi avante; houve novo acordo já no tempo de Salazar; e outro antes de Marcello sair de cena. Depois houve um abortado em 1986 e por fim o de 1990.
Todos estes acordos antes de 1986 foram rapidamente passados pela força do poder vigente, que governava com mão de ferro, à revelia da vontade popular. Mas o primeiro acordo feito com um povo livre foi imediatamente rejeitado por ele; e o de 1990 iria pelo mesmo caminho, se não fosse a má vontade do governo em usar todos os seus recursos para o impor.
Por isso, acho bizarro e ilógico que um liberal não só não combata um acordo imposto por um governo que claramente está a exceder o seu pelouro – eu não consigo imaginar a Ayn Rand a apoiar tal medida, para ela isto seria um claro exemplo do Big Government que ela tanto detestava; ou o seu precioso Pessoa, cuja autoridade usa para se definir como liberal – como ainda por cima não parece muito preocupado com um governo que silencia e oprime a expressão individual dos resistentes (eu não consigo imaginar John Locke a ficar impávido ante o facto de um antigo ministro de Sócrates ter ameaçado a Academia de Ciências de Lisboa de extinção se não apoiasse incondicionalmente o acordo; isso é algo digno do mais despótico dos absolutismos monárquicos. Como liberal, presumo que já tenha lido o Two Treatises of Government?), o que é muito estranho num homem que alegadamente acredita que o “indivíduo tem o direito de pensar o que quiser, de exprimir o que pensa como quiser, e de pôr em prática o que pensa como quiser.”
O Lavoura não tem de me explicar o que é que é um liberal. Mas antes de mais precisa de o explicar a si mesmo, porque claramente anda muito confuso sobre o termo, a sua história e os seus conceitos principais.
acho bizarro e ilógico que um liberal não combata um acordo imposto por um governo
Um liberal concorda que tem que haver um governo, e que esse governo tem que impôr algumas normas e leis.
Eu acho que tem que haver uma ortografia oficial da língua portuguesa. A ortografia oficial é aquela que se ensina nas escolas e aquela na qual os textos oficiais são escritos. E acho que essa ortografia oficial tem que, necessariamente, ser imposta pelo Estado.
E, de qualquer forma, já foi. A ortografia que os adversários do acordo de 1990 defendem é a ortografia imposta pelo Estado em 1945. Portanto, não se debate aqui se vamos aceitar uma ortografia imposta pelo Estado ou uma outra da preferência do povo; o que se debate é qual de duas ortografias impostas pelo Estado é preferível.
Ora, eu sou um liberal progressista – no que me distingo dos liberais conservadores que por aí pululam. E considero que a ortografia imposta pelo Estado em 1990 é melhor do que a de 1945. E, por isso, utilizo-a.
Quem se opõe ao “acordo” não uma ortografia. Defende a estabilidade ortográfica, que é um bem em si mesma e de valor inestimável, já que apenas atingido pelos países com um índice de literacia razoável.
É essa a razão pela qual o inglês, o francês não têm mudanças na ortogtrafia: desde logo a ausência de analfabetismo e uma boa taxa de literacia. Quem teve acesso a um bom ensino e, por isso, à norma, não comete erros. E não os cometendo, a ortografia não se desvirtua. Entre uma 1ª edição de Dickens e uma actual não há qualquer diferença. O mesmo se diga de um romance de Balzac.
Quanto à “imposição de leis” num estado de direito e numa democracia avançada a sua posição é, no mínimo, curiosa. Mas, como essas coisas da obediência devem começar em casa, conviria que não desrespeitasse a Lei em vigor, o Decreto n.º 35228 de 8 de Dezembro de 1945.
(Não podendo ser a obediência à lei, segundo as suas concepções, uma questão de escolha pessoal, o que diz em baixo “E considero que a ortografia imposta pelo Estado em 1990 é melhor do que a de 1945. E, por isso, utilizo-a” é totalmente inconsistente com o que afirma antes.
Um pequena nota final: o “acordo” ortográfico é usado e incensado pelos sectores mais conservadores da sociedade portuguesa (basta ver o portal da Ordem de Malta). E tem os grandes nomes da cultura portuguesa -e da esquerda – contra. A oposição ao “acordês” é de todos os estratos da sociedade portuguesa, de todas as ideologias e de todas as idades.
Há um lapso evidente na 1ª frase. Queria-se dizer que Quem se opõe ao “acordo” é, acima de tudo, partidário da estabilidade ortográfica.
“Um liberal concorda que tem que haver um governo, e que esse governo tem que impôr algumas normas e leis.”
Um liberal concorda que um governo deve ser pequeno e cingir-se ao básico: cobrar impostos (os mínimos possíveis), manter os tribunais a funcionar, proteger a propriedade privada, assegurar as liberdades dos cidadãos, defender as fronteiras… e pouco mais. Um liberal concorda que o governo não tem nada que meter o bedelho em questões como a religião, o sexo, moralidade, e língua.
“Eu acho que tem que haver uma ortografia oficial da língua portuguesa. A ortografia oficial é aquela que se ensina nas escolas e aquela na qual os textos oficiais são escritos. E acho que essa ortografia oficial tem que, necessariamente, ser imposta pelo Estado.”
Não há país mais liberal do que os EUA, mas o inglês lá nem tem estatuto de língua oficial. A ortografia oficial do RU nem sequer foi inventada pelo estado, foi um privado chamado Samuel Johnson que a inventou; a sua ortografia apenas pegou moda, espontaneamente. Quando Webster alterou a ortografia, o governo americano apenas a adoptou décadas depois, e apenas porque a população já a usava e o governo não queria parecer antiquado. Isto é um triunfo liberal, cidadãos a dizerem ao estado o que fazer, não o oposto. O oposto é mero despotismo.
“que se debate é qual de duas ortografias impostas pelo Estado é preferível.”
Não, o que se debate é a inutilidade de fazer MAIS reformas ortográficas. Elas deviam ter parado em 1911. Todas as outras foram inúteis porque não melhorarm o que a primeira atingiu: fixar a ortografia e combater o analfabetismo. Um novo acordo não vai fixar melhor a ortografia porque ela já está estável; pelo contrário, ela só muda exactamente quando a reformam. E não é a queda de umas consoantes que vai melhorar a aprendizagem da língua, isso é demagogia de pacotilha para tolos.
“Ora, eu sou um liberal progressista – no que me distingo dos liberais conservadores que por aí pululam.”
Então não é progressista? O epítome do Liberalismo em Portugal, Alexandre Herculano, pegou em armas para lutar contra as forcas de D. Miguel, honrando a memória dos pais do Liberalismo como John Locke e Voltaire. O Lavoura apoia a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, apesar de ser regida por um déspota como Obiang. Se por progressismo quer dizer, afastar-se meteoricamente dos conceitos basilares do Liberalismo, então tem toda a razão, é progressista. Temo, porém, que esteja a progredir para crenças repugnantes. Mas cada um se justifica a si próprio perante a sua consciência.
1 – A “reforma” ditatorial de 1911 não fixou ortografia nenhuma. A ortografia portuguesa estava fixada e a proclamada “anarquia” é mais uma mentirosa. no séc. XIX. Eça e Camilo escreviam na mesma ortografia. A Universidade de Coimbra, então a única no país, contribuía para a uniformização e havia manuais escolares usados em todo o país pelos professores e professoras do ensino primário.
2 – A “reforma” de 1911 não contribuiu em nada para a baixa do analfabetismo, porque amputar letras não é o meio adequado para isso. . A apreensão das palavras é feita globalmente. Uma criança aprende com a mesma facilidade a escrever philosophia ou filosofia. Aliás, o ph mantém-se nos países mais cultos.
Se o amputação das palavras contribuísse para diminuir o analfabetismo os brasileiros não teriam 75% de analfabetos.
Miguel, talvez se seguir o avental perceba melhor o fenómeno da imposição do acordês:
Não sei se o ex-ministro da Cultura ou o comentador Lavoura pertencem a essa venerável organização, mas o ideário está aqui, nomeadamente a questão do estado mundial ideia que enformou, aliás, a criação da SDN por Wilson, um membro daquela organização, e da sua sucessora, o ONU (que tem aparecido, como não podia deixar de ser, neste processo).
«O entendimento entre todos os falantes da língua portuguesa e a sua divulgação constituem o instrumento indispensável na resolução de problemas de coesão social, desenvolvimento, democracia e segurança. Só assim poderemos participar, e a nossa participação é essencial na criação de um estado mundial de ordem baseada no direito e de progresso. (…) Por isso Portugal ratificou o acordo ortográfico da língua portuguesa e criou um fundo para o aprofundamento da língua nas regiões do mundo que contam com comunidades de portugueses e nos países da CPLP.»
J. A. Pinto Ribeiro | Ministro da Cultura
[ citado por Marco Antinossi | Agência Lusa | S. Paulo | 10-06-2008 | 16:01:33
Achou estranho? O Malaca também diz que é uma questão política. Mas aqui em baixo a franqueza impera:
“Então, podemos perceber que a escrita não depende da língua em uso, mas de decisões tomadas por alguns estudiosos da língua, segundo interesses sócio-políticos de uma nação.” – MARCIA MEURER SANDRI Mestre em Língua Portuguesa UERJ ntinua-aqui/ortografia-nao-e-gramatica/)
(http://www.revistanossoestilo.com.br/co
Se se lembrar que o presidente brasileiro Sarney – verdadeiro impulsionador deste “acordo” é, político, académico e maçon perceberá ainda melhor. Se vir quem em Portugal, por acção ou omissão protege a coisa, verá que tudo começa a bater certo.
Totalmente de acordo.
E a miopia do LL mantém-se esplêndida…
Desculpe, caro Pedro Correia, vir aqui meter o bedelho… Mas gostaria de comprender as razões dos “progressismos” que defendem para a Língua Portuguesa o Formulário Ortográfico brasileiro, de 1943, do “democrata” e “progressista” Getúlio Vargas, em substituição da Reforma Ortográfica “salazarista” de 1945 (acordada com o Brasil e nunca aplicada ali). Porque é disso que se trata: o AO90 vem abrasileirar o Português, deixar o 1945 português e “evoluir” para o 1943 brasileiro.
Mas o que realmente é importante, a meu ver, é que resistamos ao aborto ortográfico, e esse exemplo foi-nos dado, desde a primeira hora, por Vasco Graça Moura. Sejamos dignos continuadores da sua luta.
Sim, o mais importante é isso. Quanto ao AO, os brasileiros estão-se nas tintas. Tal como os angolanos e os moçambicanos. E quase todos os portugueses, excepto algum Portugal oficial que venera a grande “reforma ortográfica” parida pela dupla Cavaco Silva/José Sócrates.