Republinárquico ou monarquicano


Pedro Correia,

A propósito da efeméride de ontem, quando me perguntam se sou republicano ou monárquico, costumo responder: sou republinárquico, por vezes monarquicano.

Por outras palavras: a questão da forma do Estado não se colocou às pessoas da minha geração. Colocou-se, isso sim, a questão do sistema político. E tanto há democracia em regimes monárquicos como em regimes republicanos. Mas não esqueçamos que quase todos os sistemas totalitários do século XX foram republicanos. Talvez não seja politicamente correcto sublinhar isto, mas é verdade.

46 comentários em “Republinárquico ou monarquicano”

  1. Há sempre aquela teoria de que monarquias são regimes próprios de países e sociedades atrasadas.
    Como aqueles nórdicos ou holandeses que volta e meia elegemos como modelo de estrutura social a seguir.

    1. Como ainda há dias lembrava Felipe González, «das 20 democracias mais bem qualificadas do mundo 12 são monarquias parlamentares e constitucionais».

      https://www.cambio16.com/felipe-gonzalez-prefiero-una-monarquia-a-una-republiqueta-pluracional/

      Algo que justifica reflexão. Não para fazer proselitismo monárquico, mas para concluirmos que a democracia convive bem com diversas formas de Estado. E o essencial é precisamente a democracia. Haja rei, haja presidente eleito por colégio eleitoral (como em Itália ou na Alemanha), haja presidente eleito por sufrágio universal.

  2. “Mas não esqueçamos que quase todos os sistemas totalitários do século XX foram republicanos.”

    É verdade. Mesma agora, parece que estamos a viver num.

    1. Não sei a que se refere. Sei, sim, que a Alemanha de Hitler, a Rússia de Estaline, a China de Mao, o Camboja de Pol Pot, a Albânia de Enver Hoxha, as Filipinas de Marcos, a Coreia da família Kim, o Uganda de Idi Amin, o Zimbábue de Mugabe, a África do Sul do ‘apartheid’ e o Chile de Pinochet, entre muitos outros regimes tirânicos e totalitários do século XX, eram repúblicas.

  3. “Mas não esqueçamos que quase todos os sistemas totalitários do século XX foram republicanos. Talvez não seja politicamente correcto sublinhar isto, mas é verdade.”

    A Arábia Saudita, Marrocos, o Irão do Xá, a Tailândia, se contarmos com repúblicas em que a sucessão foi hereditária, como a Coreia do Norte e a Síria, os monárquicos também não ficam lá muito bem na fotografia.

    Se olharmos bem só temos democracia monárquica onde o monarca não tem qualquer ação sobre a governação, sendo mais ou menos um adorno do país e um assunto para a imprensa cor de rosa . Ou seja a monarquia só é democrática se o chefe do estado for uma espécie de ornamento muito caro e inútil.

    1. Se 12 dos 20 países com mais saudáveis práticas democráticas do mundo são monarquias constitucionais, isso parece invalidar a sua tese de que o monarca é mero “adorno”.
      A menos que tudo não passe de uma extraordinária coincidência. Há quem tenha uma fé inabalável nas coincidências. Não é o meu caso.

      1. Não sei a que monarquias se refere. Não pode haver democracia onde os decisores não são escolhidos democraticamente, parece evidente.

        Se o rei não é escolhido democraticamente então não é um governante. Se não é um governante é um adorno, não é um rei. Claro que se pode sempre dizer que a Austrália, por ex., é democrática porque é uma monarquia mas a afirmação raia o ridículo.

        De qualquer modo onde o adorno não existe presentemente fica a questão de quem escolher para o lugar e como. No nosso caso sugiro eleições para monarca a cada cinco anos. Ou então encomendamos um a Espanha, parece que mandaram um fora ainda em estado razoável, e um empreendedor que juntou muito dinheiro.

        1. Eureka. Acaba de “descobrir” que Holanda, Suécia, Dinamarca, Espanha, Noruega, Bélgica, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e Canadá não são democracias.
          Registe a patente sem mais demoras.

          1. Não haja a menor dúvida que Nova Zelândia, Austrália e Canadá são monarquias, uma vez que o seu chefe de estado é a Rainha de Inglaterra. Mas isto deixa-me sempre curioso: como se pode ser um país independente e ter como chefe de estado alguém que não é do mesmo? Não vou pelo lado do “adorno” do comentador acima, mas nestes países não creio que haja a menor dúvida que o chefe de estado é apenas um adorno.

            Quanto à Bélgica, tenho dificuldades em ver este país como exemplo de democracia. É de uma disfuncionalidade gritante, embora em abono da verdade isso não seja culpa exclusiva (ou especialmente) da monarquia.

            Em relação aos outros países, estou de acordo que o essencial é uma democracia saudável. Há demasiada gente que pensa que a democracia se esgota no voto (um argumento ridículo na história da “independência” catalã). Continua a ser-me difícil crer que esses países seriam piores seja de que forma for se virassem repúblicas. Vai contra todos os meus instintos a ideia que o chefe de estado seja simplesmente o fruto mais velho de um encontro nos lençóis.

          2. Uns estão mais preocupados com a existência de monarquias democráticas.

            Eu estou muito mais preocupado com a existência de ditaduras. Quase todas em regimes republicanos.

          3. Sabe ler mas treslê muito.
            Não disse que esses países não são democracias, disse que neles o monarca não conta e é por isso que são democracias.

            Não vejo o interesse de ter uma instituição que só presta se for a fingir.

          4. Pergunte aos suecos, aos noruegueses, aos ingleses, aos holandeses, aos belgas e aos dinamarqueses, por exemplo.
            Talvez assim consiga “ver”.

        2. O rei é escolhido democráticamente sim senhor.
          É escolhido o mais velho dos filhos varões. Quer melhor prova de democracia familiar?

      2. Este ponte de vista ‘…no mundo’ é afinal na Europa.
        Quanto à Europa, os vários monarcas são todos ‘adornos’ por não terem nenhuma importância com a forma de governação do seu país, também acontece o mesmo em alguns dos países republicanos quando os presidentes são nomeados e até nos dos eleitos, p.ex. cá tivemos Mário Soares e Cavaco.
        Normalmente nos países republicanos presidencialistas, os governos, ou seja a governação, é da linha política do Presidente.
        Evidentemente que o regime monárquico já não é o que era dantes, com todas aquelas guerras durante séculos quanto à sucessão ou secessão. E chegou!!

    2. Não me parece correcto citar regimes fora de contexto.

      A Tailândia deverá ser comparada com Mianmar, Laos e Camboja. É hoje governada por militares desde o golpe de 2014, contudo o seu desenvolvimento iniciou-se bem antes e, segundo a Wikipedia:
      “Entre os dez países membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), a Tailândia ocupa o segundo lugar em qualidade de vida e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país é classificado como elevado.”

      Marrocos, tem problemas internos devido à difícil ligação entre árabes e berberes, tendo também duas línguas e alguns dialectos. É uma monarquia constitucional onde o Rei tem poderes especialmente sobre os militares, a política externa e os assuntos religiosos.
      Comparando com os vizinhos mediterrânicos, Tunísia e Argélia, fica melhor no retrato e, ao contrários dessas duas, nunca teve de anular eleições por terem ganho radicais. E foi exactamente a instituição real que permitiu a Marrocos passar sem grandes sobressaltos pela crise geral das primaveras árabes, pois o rei, ocupando o topo da pirâmide, evita que as divisões religiosas e militares resultem em facções separadas e antagónicas.

      O Irão, na chefia do Estado, até terá mais semelhanças com a Coreia do Norte do que com uma monarquia tradicional. De facto o pai do Xá Reza Pahlevi foi um general que de primeiro-ministro, acabou por substituir a dinastia anterior. Mas Reza Pahlevi até era, no contexto de época e país, uma pessoa decente e por isso perdeu o poder.

      A Arábia Saudita é o caso mais complexo e, de facto, talvez o que menos favoreça a ideia monárquica. Para já não é uma monarquia tradicional pois o príncipe-herdeiro não é necessariamente o mais velho (tal como na Coreia do Norte não foi) nem sequer necessariamente filho do rei anterior. O fundamento do poder é religioso, e a família real – hoje com mais de 120 príncipes – tem a missão de assegurar a liberdade de peregrinação a Meca e defender a Kaaba o que implica que os objectivos e a organização do Estado, tendo uma finalidade particular, dificilmente possam ser comparados com países sem essa condição.
      Mas, apenas por exercício mental, imaginemos a tarefa de assegurar a peregrinação anual a Meca em sistema republicano por eleição de todos os países islâmicos cada 4 ou 5 anos.

      Parece que não houve interesse em referir o Japão mas a conclusão que se tira é que, no mesmo contexto, as monarquias resultaram melhor.

      P.S. – O resto do comentário não é melhor, antes pelo contrário mas para já, não quero alongar-me.

    3. Para discutir monarquia, seria conveniente saber do que se fala.

      Se estamos a falar de governos, ensinaram-nos os gregos há mais de 25 séculos que só existem três tipos: monarquia, aristocracia e democracia. E isto ainda é verdade hoje em dia porque ou manda um, ou mandam alguns ou mandam todos.
      Claro que, na realidade, não existem governos tipologicamente puros pois todos terão algumas características de tipos diferentes.

      Neste sentido, monarquias não serão possíveis hoje em dia – antigamente o rei, o juiz e o sacerdote eram um único – e o que ainda é possível e existe são tiranias, que são a forma degradada da monarquia e vemos na Coreia do Norte ou na Síria.

      Democracias também não, porque os números envolvidos impedem a decisão que na Grécia antiga se obtinha na praça pública depois de discutido o assunto pelos tribunos. Quando os tribunos, em vez de esclarecer os cidadãos, os enganavam com falsas retóricas, a democracia em degradava-se em demagogia.

      Hoje, diz-se que o sistema tem um momento democrático, a eleição, sendo assim uma democracia representativa; e subentende-se que nessa eleição são escolhidos os melhores. Ou seja, exactamente uma aristocracia, que significa o governo dos melhores. Quando não são escolhidos os melhores estamos perante uma degradação da aristocracia que os gregos chamaram oligarquia, significando governo de grupos.

      Isto é o básico dos básicos e não tem a ver com dicotomias liberdade-opressão nem com a forma como o Estado está organizado. .
      Sendo certo que qualquer organização tem de ter uma hierarquia, logo tem de ter um topo, esse topo do Estado, pode ser um representante sem qualquer poder real, pode ter alguns poderes ou no limite pode ter todos, sendo então o governo exercido por sua delegação ou pelo próprio, sendo então como se viu, um governo que necessariamente será tirânico.

      E pouco ou nada interessam os rótulos porque o que é real são os conteúdos e as prácticas.

      Já em interpretação pessoal, em Portugal temos hoje a governar uma oligarquia, na realidade um conluio ou aliança, entre uma tecnocracia e uma plutocracia. A tecnocracia é essencialmente constituída pelos principais partidos mas também por todos os elementos da máquina administrativa e ainda dos meios de comunicação social que convergem na prosperidade e defesa do grupo; a plutocracia inclui alguns tradicionais muito ricos que se colaram, maxime o núcleo duro do Grupo Espírito Santo, os recém enriquecidos que o conseguiram traficando influências para obter contratos públicos, maxime alguns grupos de construção civil, mas também os que, tendo ascendido às administrações de empresas quer públicas quer privadas, também as direccionaram ao interesse de grupo.

      E seja Portugal o que quer que seja, quando António Costa lançou a recandidatura de Marcelo na Autoeuropa sem qualquer consulta aos orgãos do seu partido nem do seu governo, agiu de facto como um monarca ou, se quiserem, como um autocrata, um detentor exclusivo do poder.

      Reforçando que rótulos de nada servem – basta ver a profusão de Repúblicas Democráticas Populares – além de alguns estados islâmicos, a Grã-Bretanha é hoje o único estado confessional do Ocidente. De facto, além do título de Defensor da Fé, o rei de Inglaterra é o chefe da Igreja Anglicana e, por isso, nenhum católico – vários milhões incluindo o País de Gales e a Irlanda do Norte – pode ser soberano.
      Talvez nem todos os saibam mas a oposição ao casamento de Carlos com Camilla deve-se muito menos a ela ser divorciada do que a ser católica e isso igualmente contribuíu para ela não ser designada princesa de Gales apesar de em Inglaterra, a mulher seguir sempre o “style” (+-tratamento social) do marido.
      No entanto, a monarquia confessional e desigual inglesa tem os maiores índices de aprovação e o recente discurso da Raínha (sobre a pandemia) teve uma aceitação mundial que só vejo igualada em algumas intervenções papais.

      Por isso, observar não monárquicos a discutir com monárquicos, é na grande maioria dos casos, ver pessoas que não sabem distinguir o governo da representação do Estado e outras que não explicam quais os poderes reais do chefe de Estado hereditário que preconizam.

    4. “Ou seja a monarquia só é democrática se o chefe do estado for uma espécie de ornamento muito caro e inútil.”

      Mais duas bacoradas.
      O custo de uma monarquia só pode ser comparado com o de uma república em que ambos os chefes de Estado tenham os mesmos poderes, deveres e obrigações. Só quem ignore as vantagens internas e externas da representação monárquica e quem ignore os custos de eleições de 5 em 5 anos, pode imaginar a república mais barata.

      A “inutilidade” do rei, é apenas a demonstração de que as coisas não vão muito mal pois, quando vão mal, será raríssimo (não me ocorre nenhum) PR que as possa resolver.
      Pessoalmente não afianço mas até acredito que Portugal poderia ter descolonizado em monarquia mas estou certo de que nunca o poderia fazer em república. Bastará lembrar que a 1ª República foi mais defensora das colónias do que a segunda e foi com esse argumento que entrou desastrosamente na 1ª guerra na Europa. E a 2ª República, proclamada por militares que eram o garante do regime, ocupava sempre a presidência por um oficial-general, naturalmente comprometido com os generais da guerra colonial.
      Abro parêntesis para lembrar que não havia república nem democrática nem eleita quando se operou a descolonização, que foi um triplo crime sobre os colonizados, sobre os colonos e sobre a imagem histórica de Portugal.

      Das poucas experiências de descolonização em república, ressalta a Argélia por De Gaulle mas De Gaulle foi uma excepção em república. Nunca fôra comprometido com forças políticas (característica dos reis) só foi aceite pelos militares por pensarem que ele ia ganhar a guerra mas obteve legitimidade democrática por sucessivos referendos, melhor plebiscitos (democracia directa hoje odiada e vilipendiada pela oligarquia dominante) e, a primeira vez que perdeu, resignou, tal rei que abdica. Não é por acaso que muitos o chamaram de presidente-rei.

      Da utilidade real em caso de crise, relato um exemplo de 1963 que será, por isso mesmo, pouco conhecido hoje em dia.
      A Inglaterra era governada pelo partido conservador, chefiado por McMillan que era por isso primeiro-ministro mas inesperadamente foi-lhe diagnosticado cancro na próstata e não podia continuar em funções. O partido estava muito mal nas sondagens que davam vantagem aos trabalhistas e internamente, estava agudamente dividido em três facções: Lord Hume, ministro dos Estrangeiros, Lord Hailsham, ministro da Ciência e Enoch Powell, ministro da Saúde, um nacionalista com laivos de xenofobia mas com prestígio adquirido na 2ª guerra e então no máximo da popularidade.
      McMillan não tinha poder para designar sucessor nem tinha interesse em convocar uma convenção (Conference) que iria expor as divisões a um ano de eleições e assim dividir o eleitorado arriscando-se a alienar os simpatizantes das facções excluídas. Por isso, apelou para a Rainha, que o ouviu, falou com os três putativos sucessores,e ainda visitou Churchill, já doente mas ainda vivo e lúcido.
      Nada me interessa saber se a escolha da Rainha (Lord Home) foi ou não a mais acertada mas sim que a Inglaterra teve novo primeiro-ministro em menos de 48 horas e sem sobressaltos politicos nem custos sociais associados. Isto não seria possível em república pois um presidente, se não fosse afecto ao partido, não teria a confiança deste para a escolha, e se fosse, seria conotado com uma das facções e não poderia fazer uma escolha pacífica.

      É esta a mais-valia inestimável das monarquias: uma representação política independente de grupos e assim capaz de arbitrar uma crise que não se resolva pelos meios políticos normais.
      É uma qualidade e uma garantia a que nem Marcelo pode aspirar mesmo na muito improvável hipótese de angariar os mais de 70% de Soares a que aspira fortemente. (Note-se que considerando as abstenções, Soares teve apenas a aprovação de cerca de 43,7 % dos eleitores inscritos e este foi de longe, o melhor resultado do regime).

  4. Entretanto próprio de um regime Socialista a caminhar para o Totalitarismo, temos uma lei para facilitar as expropriações.

    “Regime especial aplicável à expropriação e à constituição de servidões administrativas, no âmbito do Programa de Estabilização Económica e Social, foi aprovado pela esquerda na sexta-feira apesar de um parecer da Ordem dos Advogados apontar para a sua inconstitucionalidade.”

    Aprovado na sexta-feira, com votos favoráveis do PS, Bloco de Esquerda, PCP e PEV,

    https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/veto-presidencial-ou-envio-para-tribunal-constitucional-e-esperanca-da-oposicao-no-regime-especial-de-expropriacoes-638947

    Isto já não é primeira página no jornal Publico.ao contrário de Trump.

    Lucklucky

        1. Eu trouxe aqui o tema da monarquia ‘versus’ república a propósito do 5 de Outubro.
          Lembrando que o regime republicano demorou 66 anos a trazer democracia a Portugal.

  5. Pode até ter razão, Pedro. Mas o poder hereditário e só porque sim, parece-me coisa descabida. Houve reis que não queriam ser reis, e príncipes que o não foram, mas deveriam. Para não falar dos que nunca por nunca ser, deviam ter usado coroa, tal a sua insensatez. Mas usaram-na e foram maus reis. Portanto, e sabendo que não existe regime político perfeito, prefiro a república e as suas eleições. Até se as últimas não forem completamente democráticas.

    1. Pergunte aos dinamarqueses ou aos suecos se estão satisfeitos com a monarquia, Bea.
      E pergunte aos sírios ou aos coreanos se estão satisfeitos com a república que lhes coube.

      Bem, a estes não pode perguntar. Mas em qualquer destas repúblicas o poder é hereditário.

      A Síria republicana é gerida desde 1970, com mão de ferro, pela família Assad. O poder já passou de pai para filho. Há meio século que estão lá.
      A Coreia do Norte, também republicana, é gerida desde 1945, com tacão de aço, pela família Kim. O poder já passou de pai para filho e para neto. Há 75 anos que estão lá.

      1. Seriam desejáveis os regimes democráticos, então; republicanos ou não. Uma república em que o poder passe de pais para filhos foge à própria concepção, é abusiva. Penso.

    2. “prefiro a república e as suas eleições. Até se as últimas não forem completamente democráticas.”

      Se fossem não seriam Republicas.
      Uma Republica é sempre um limite ao poder democrático que pode ir dos 100% como nos caso apontados da Síria e outros.

      A nossa Constituição existe também para limitar a Democraticidade.
      Por exemplo para a mudar precisa de 2/3 dos votos da Assembleia.
      E são os representantes que votam não o povo. Neste caso o objectivo é também criar entropia para evitar mudanças de Constituição a cada eleição.

      E é uma norma conservadora.

      Note-se ainda a nossa Constituição não ter sido legitimada em referendo o que é uma nódoa no regime.

      lucklucky

      1. Não conheço bem a nossa constituição, como alguém me acusou, sou mais de pássaros e flores e tenho fraca apetência e gosto por assuntos de direito. Mas também penso que mudá-la pode ser perigoso e que não é documento para reviravoltas constantes. Desconfio sempre de gente que quer à viva força mudar a constituição. Sabe, não sei se ela limita acções democráticas, parece-me antes ser travão ao seu inverso. E soa-me lindamente que, para que haja alteração, seja necessária essa maioria de 2/3. Também não julgo que seja o povo, directamente, o mais capaz para a alterar, são necessários especialistas do terreno, os chamados constitucionalistas.

  6. Margarida Palma disse

    Pois…eis uma questão que dá lugar a grandes conversas e a muitas interrogações.

    Serão alguns países mais avançados por terem monarquias, ou será porque, estando em melhores condições económicas e sociais, puderam manter pacificamente esse regime, sem culparem a família real por atrasos e autoritarismos? Será que havia Lenine, sem ter havido os Romanov? Haveria
    Hitler sem ter havido o Kaiser?

    O papel do Rei alterou-se com o tempo. Hoje espera-se que não seja a garantia da manutenção de privilégios hereditários, mas garante da democracia, da coesão dos povos, paradigma de valores básicos nas sociedades que representam. E em muitos casos o que se vê deixa tudo a desejar. Temos exemplos de corrupção, de oportunismo, de desonestidade moral, de mentira, de limitação intelectual, de ignorância…

    Entretanto, que grande rei teria sido D. Pedro V, que pena foi o regicídio, que crime!

    E hoje, God Save The Queen !

    Tudo isto é muito complexo, não há aqui” retratos a preto e branco”.
    Melhores cumprimentos.

    1. Precisamente por não haver retratos a branco e preto é que me declarei, nesta matéria, republinárquico. Por vezes até monarquicano.

      Cumprimentos para si também, Margarida Palma.

    2. Cara Margarida Palma, permita-me discordar da formulação das suas perguntas.

      A primeira deveria ser “Será que havia Rússia, sem ter havido os Romanov?”
      A segunda deveria ser “Haveria Hitler sem ter havido Bismarck?”

      Não comento a primeira para evitar uma necessariamente longa história da formação do império russo.
      A segunda foi a grande tragédia da Europa. A unificação alemã criou um Estado demasiadamente grande que impediu para sempre uma Europa de nações unidas com alguma equidade.

      À união conseguida por Bismarck, faltavam a Alsácia, de raiz alemã mas anexada militarmente pela França, extensas zonas da Polónia e parte dos países bálticos. Isso no contexto da época implicaria sempre guerra, fosse qual fosse a organização política do estado alemão.

      Hoje o contexto é muito mais económico do que militar e o que vemos? Um tratado que obriga os países a não ultrapassar um défice de 3% mas que apenas recomenda um superhavit máximo de 6% que a UE com o FMI consideram não sustentável a prazo e a Alemanha a manter valores próximos de 8% em três anos consecutivos.
      Para os que não sabem, o superhavit de uns implica sempre o deficit de outros porque o comércio internacional é de soma zero. Ou, dito de forma “popularista”, se Portugal em vez de Mercedes, Wolkswagens e Audis, tivesse apenas importado Fiats, Renaults e Seats, grande parte da divida externa não existiria.
      Perguntar-se-ia então como foi possível os países do Sul endividarem-se dessa maneira e a resposta básica é que foi a política de juros baixos. Mas o que a maioria das pessoas não sabe é que a Alemanha chegou a ser o estado mais endividado da Europa devido aos custos sociais da reunificação e, porque podia, manteve os juros baixos, que era do seu duplo interesse interno e externo. Por isso alguns dizem que se publica em Bruxelas o que foi ordenado em Bona mas decidido em Frankfurt (o centro financeiro e bancário alemão).

      E em política externa estamos na mesma, pela negativa e pela positiva. A Europa falhou miseravelmente na questão dos imigrantes e agora na pandemia em que, para citar o mais evidente, Itália e Espanha foram deixadas à sua sorte e só a França teve apoio alemão (recebeu doentes franceses quando os hospitais estavam saturados).
      Por outro lado foi a Alemanha que, contra todas as opiniões incluindo a portuguesa, reconheceu unilateralmente a Croácia dando assim início à guerra na ex-Jugoslávia mas depois nada fez porque a sua Constituição não permitia o envio de tropas para o exterior. Depois de barbaridades que teriam envergonhado uma Europa medieval e depois de muitos meses de pressões diplomáticas sem resultado, foram os americanos que novamente atravessaram o Atlântico para pôr fim aquilo. Assunto que deveria ser ponderado por todos aqueles que criticam sem perceber a actual política de Trump em relação à Europa.
      Há outros exemplos, como a oposição à entrada da Turquia na UE com consequências que ainda se verão mas já se adivinham na Líbia e no Nagorno-Karabakh mas o que parece claro é que a Europa nunca será o que os alemães não quiserem, nunca se unirá naquilo em que os alemães não se empenharem e, com o decorrer do tempo, tenderá a tornar-se em tudo o que os alemães desejarem.
      Não é nem foi o Kaiser.

  7. Talvez, digo, talvez, por causa da grande rainha Victória inglesa, bastante ligada ao nosso D.Carlos e D. Manuel, a nossa monarquia levou um empurrão para os quintos…

    Aquele Mapa-cor-de-rosa!

    Com amigos destes, a nossa monarquia não precisava de inimigos.

      1. O problema foi sempre ser a Casa de Bragança, que tinham tanto de arrogância como cobardia, e a corja imunda que girava em redor deles — tal como é hoje por ser a Casa do Benfica e a gente imunda que gira em redor deles.

        É a degenerescência podre e corrupta das dinastias de gente pequena com a mania das grandezas que justifica o nosso atraso e isso começa a desenhar-se em 1600.

          1. Era só a demonstração de como tudo tem estado sempre nas mãos de uma casinha manhosa qualquer — nunca do povo exercendo a sua liberdade económica.

  8. As monarquia absolutista não é um sistema político sem erros.
    Nem a monarquia constitucional, uma república sem eleições presidenciais.
    A república não corrige todos o erros, nem re-adquire as vantagens -que as há- de um monarquia.
    Por fim: democracias há muitas, nem todas democráticas.

  9. Monarquia :ex-rei espanhol a apanhar sol nas arábias depois dos escândalos financeiros, sexuais, caças aos elefantes etc, e Rei belga expressa profundo remorso por passado colonial no Congo e Filha ilegítim do rei da Bélgica ganha o direito de ser reconhecida como princesa.

  10. Estou de acordo com a comentadora que disse: Que grande rei teria sido D. Pedro V.
    E acho que há muitos presidentes que se comportam como se fossem reis.
    Adorno por adorno, com a monarquia sempre pouparíamos nas eleições… e na maçada de termos que escolher entre candidatos desinteressantes.
    Obviamente elegeríamos sempre o governo, que é quem realmente nos governa, ou na maioria dos casos nos desgoverna, mas isso já é outra história…

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