Regresso de férias


José Meireles Graça,

A trombuda no balcão tinha começado a trabalhar há pouco tempo, vestia bem de cara e do resto e a fila não era grande. Como a companhia era low-cost e recente (creio, nunca tinha ouvido falar da WIZZ) seria de esperar que a moça tivesse melhor catadura. Enfim, era uma maldita diaba teutónica, partilhando o país de nascimento com o monstro Adolfo, há que dar um desconto. Ao ver os cartões de embarque, impressos no hotel, perguntou pelos PLC.

Qu’é essa merda, teria perguntado se estivesse a tratar da logística, tarefa que felizmente competia, no grupo familiar, a pessoa mais competente e aprazível do que eu.

PLC quer dizer passenger locator card e a necessidade de semelhante papeleta constava de um e-mail da companhia de aviação que não foi lido até ao fim. As companhias, quando ganham tiques majestáticos, e ganham quase sempre, julgam que as tretas que ejaculam merecem atenção. É preciso ir a um site e preencher as seguintes informações:

Nome completo

Nº do documento de identificação

Data de nascimento

Género (prevê a hipótese “outro”, que seria o que me conviria, por ser da variedade que não reconhece géneros mas apenas sexos, mas parece que é uma que não está reconhecida entre as 73 oficiais)

Morada completa em Portugal

Número de telemóvel

Endereço de correio electrónico

Morada permanente

O preenchimento tem macetes: para indicar datas tem de se ticar nos calendariozinhos disponibilizados, Deus nos livre de simplesmente escrever; e para indicar o número de telefone tem de se pôr “+” e o indicativo do país, mesmo que o que lá está pré-assumido esteja correcto. Senão, nicles.

Vencido o Gólgota informático, recebe-se no e-mail o tal cartão. Mas, para o abrir, é precisa uma chave, que vem a ser o número do documento de identificação. Deus nos livre porém de pôr espaços onde não há (os cartões de cidadão, ao contrário dos antigos bilhetes de identidade, têm espaços e letrinhas, sabe Deus para quê), ou não os pôr havendo, que o sistema não está para frescuras: não abre e pronto.

Parece que quem não tiver esses telefones que dão acesso à internet, ou não souber navegar nos mares da burocracia internética, recebe um papel para preencher. Em teoria. Na prática, os únicos papéis que vi disponibilizar foram guardanapos, para quem encomendasse bebidas.

Durante o almoço no aeroporto, porque havia tempo, desembrulhou-se a meada e cada uma das pessoas do alegre grupo de três ficou munida do cartão de cidadão, do digital de vacinação, do de embarque e deste PLC. Sem o primeiro não se existe e sem o de embarque não se viaja, e doutra maneira não se vê que possa ser.

Agora, que sem o de vacinação se seja um pária que nem consegue ser servido num restaurante, dormir num hotel ou ver um espectáculo, custa a engolir: quem se quer proteger vacina-se, mas como o vacinado continua a poder infectar e ser infectado (ao contrário de outras vacinas para outras doenças, por exemplo o sarampo) não se vê qual é o bem comum que a obrigatoriedade protege – a menos que seja a autoridade, sem peias, das autoridades, que precisamente não é um bem mas um mal, e dos piores.

De cedência em cedência, estamos lentamente a ficar chineses na irrelevância dos direitos do indivíduo e na prepotência intrusiva dos poderes públicos. E isto seria, se a comunicação social não fosse um corpo de eunucos analfabetos, atentos, veneradores e obrigados aos poderes, fonte de permanente escândalo.

Mas no meu querido Portugal as coisas ganham, às vezes, contornos inesperados. Porque o tal cartão PLC não foi pedido nem na porta de embarque, nem no avião, nem à chegada, nem em lado nenhum. Em suma, não serve para nada.

Portugal é um país, e não deve haver muitos, onde por vezes se encontra o que se diz ser um atributo divino: fazer direito por linhas tortas.

8 comentários em “Regresso de férias”

    1. “Teutónico”, em bom rigor, nem sequer se aplica à totalidade do que é hoje a Alemanha, mas apenas à sua parte central. Mas a palavra usa-se, para quem tiver, como eu tinha, a intenção de empregar um termo com conotações depreciativas, para designar certos aspectos da cultura alemã. E nesse sentido inclui a Áustria, que pertence, em modo muito lato, ao mesmo espaço cultural e linguístico. Não o diria se estivesse a redigir uma monografia de âmbito histórico ou mesmo sociológico. Não estou porém no ramo, sou especialista em ideias gerais

      1. Talvez um alemão, um austríaco, ou qualquer outro europeu, especialista em ideias gerais, utilizasse uma resposta deste género, se alguém lhe chamasse a atenção por não fazer distinção entre portugueses e espanhóis, que pertencem, em modo muito lato, ao mesmo espaço cultural e linguístico. Duvido que, se lhe dissessem que partilha o país de nascimento com Franco ou Torquemada, o colega encarasse o caso com esse “blasé”.

        1. Espanhóis e Portugueses não pertencem, em sentido semelhante ao de Alemães e Austríacos, ao mesmo espaço linguístico, é muito pouco provável que um natural de Portugal chegasse a ditador em Espanha, ou ao contrário, e a afirmação de partilha do país com Torquemada e Franco seria simplesmente inexacta. Mas não é esse verdadeiramente o ponto. O que releva aqui é que não achas bem que exageros retóricos do discurso, na medida em que utilizem estereótipos nacionais para caracterizar pessoas, sejam aceitáveis, por isso poder implicar que os destinatários se sintam ofendidos. Já eu entendo que o direito a sentir-se ofendido por referências do tipo genérico a que recorri é uma modernice dispensável, que simplesmente não se deve levar em conta; que fiscalizar o discurso próprio, por receio de alguém se sentir atingido, é exercício que ocupa, na hierarquia das minhas preocupações, um lugar de inexcedível modéstia; e que achar que os preconceitos são ipso facto errados, jamais contendo um átimo de sabedoria, é… um preconceito.

          1. Teutónico vai muito bem aplicado, na medida em que poderá classificar-se como “Deutscher Orden”, no sentido lato, por ser assumida quer pelas regiões alemãs quer pela região austríaca quer ainda pela população germânica da região dos sudetas.

            Se há característica que define essa componente germânica, esta define-se na realidade de quando entregues a si mesmos têm um comportamento e quando agregados a outros mundos apresentam-se mais maleáveis.
            E sim, é-lhes indiferente que alguém surja para os governar e procurar governar outros desde que saído de uma das regiões acima referidas. Mas também bastante submissos quando sujeitos a uma autoridade externa, como exemplo: URSS e a ordem imposta pelas potências aliadas.

          2. «sentir-se ofendido por referências do tipo genérico a que recorri é uma modernice dispensável»? Uma modernice?! Antigamente, as pessoas não se ofendiam, quando as caracterizavam negativamente através de estereótipos? Acreditas mesmo nisso? Enfim, é problema teu.

            Obrigada pelo elogio final, pois o meu preconceito não deve ser diferente dos teus, ou seja, contém um átimo de sabedoria.

  1. Este texto devolveu-me a esperança no mundo. Venham os PLC´s.
    PS (salvo seja): nem todas as austríacas são malditas.

  2. O que ali refere, de estarmos “lentamente a ficar chineses na irrelevância dos direitos do indivíduo e na prepotência intrusiva dos poderes públicos”, é algo verdadeiramente preocupante mas com que quase ninguém se parece preocupar. Já discutimos isto muitas vezes entre nós, é como viver num mundo em que as nossas várias liberdades estão a ser lentamente retiradas, mas em que as pessoas preferem assobiar para o lado e dizer que não estão a ver nada.

    Pense-se, por exemplo, no facto do Governo dizer que a vacinação é facultativa, não é obrigatória, e depois estar a impor, repetidamente, um conjunto de medidas que dá a subentender o contrário, como um paizinho que nos diz “podes não comer a sopa, estás à vontade para isso, mas assim não comes pudim à sobremesa”. O mesmo se passa com tudo isto do Covid19 e essas tais medidas – somos livres, há liberdade (25 de Abril sempre, Fascismo nunca mais, e outras coisas que tais!), mas o exercício da nossa liberdade está, agora, a ser mais condicionado do que nos tempos de Salazar, com uma espécie de PIDE de fim de semana que anda nos restaurantes a ver se algum pobre coitado, com vacinação ou não (isso até parece ser secundário…), lá se esqueceu do certificado…

    Enfim.

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