Se há coisa de que sempre gostei foi de consultar jornais antigos. Sou capaz de estar horas esquecidas numa biblioteca ou numa hemeroteca, aprendendo em cada notícia sobre o passado – e, através dele, conseguindo perceber também um pouco melhor o presente.
Sucedeu-me na tarde de quinta-feira, numa consulta à colecção do Jornal do Fundão, em cuja redacção fui muito bem recebido. Pretendia ler, fotocopiar e guardar notícias especificamente relacionadas com a minha família. Houve épocas em que os jornais – particularmente os jornais sedeados em cidades ou vilas da província – eram repositório de acontecimentos que constituíam marcos na vida privada de muitos dos seus assinantes e leitores, tornando-os notícia.
A partir de muitos desses textos é possível reconstituir hoje grande parte do quotidiano das décadas precedentes.
Recolhi várias notícias que de algum modo me diziam respeito. Incluindo a notícia do meu próprio nascimento, que não possuía em nenhum arquivo familiar. Seis linhas apenas, numa coluna do jornal que tinha imensa leitura, sob a epígrafe “notícias pessoais”. Uma coluna que registava nascimentos e casamentos, naturalmente. Mas também internamentos hospitalares. Ou alterações de estatuto profissional (“Foi nomeado tesoureiro da Agência Geral de Depósitos em Oliveira de Azeméis o nosso amigo sr. X a quem cumprimentamos e desejamos os melhores êxitos”), ou simples visitas em gozo de licença ou de férias (“cumprimentámos o sr. Y, natural do Alcaide, oficial da Força Aérea em Lunda, que no continente se encontra em visita de alguns dias à família”).
E há pormenores deliciosos, que nos remetem para um imaginário nada condizente com os nossos dias e nos falam de um Portugal que há muito deixou de existir.
Uma das rubricas fixas destas “notícias pessoais” era a dos pedidos de casamento. Lá vêm dois, registados para os devidos efeitos, na edição da semana em que nasci.
Não resisto a transcrever uma destas notícias (omitindo apelidos):
“Pela srª D. Otelinda… e sr. Aníbal…, solicitador e residente em Anadia, foi pedida em casamento para seu filho sr. dr. Serafim…, Delegado do Procurador da República em Lagos, a srª D. Maria…, gentil filha da srª D. Regina… e do sr. Francisco…, falecido.”
Outros hábitos, outros costumes, outra imprensa, até outra linguagem. Outro País.
Imagem: avenida principal do Fundão, nos anos 50 (do blogue Postais do Fundão)


Outro polimento civilizacional.
Cumpts.
Muito do passado (do melhor passado) tenho eu aprendido também com o seu blogue. O meu caro presta um verdadeiro serviço público.
Ora essa! Obrigado sou eu.
Abraço.
Abraço, meu caro. E que nunca falte tinta nessa Bic.
Meu caro Pedro,
fez bem esta referência que aqui postou. Sobre o passado, convém que fixemos nele o tempo estritamente necessário para exemplificar, e de imediato deixá-lo.
Conheço o Fundão, outros locais serranos tão bem e outros tantos também.
Não digo o contrário. Mas deixá-lo não é ignorá-lo. Ou seja: devemos reter e aprender do passado aquilo que nos possa ser útil para construirmos um futuro melhor do que o presente. Sem saudosismos, mas percebendo também que ninguém está imune ao apelo das raízes. Sinto mais isso à medida que o tempo passa e julgo que é algo fundamental para um certo apaziguamento interior em cada um de nós.
Obrigado pelo seu comentário, lúcido e pertinente.
Uma beleza, Pedro. Desapareceu por completo essa adjectivação de “gentil” aplicada às filhas casadoiras. Um jornalismo ingénuo e enternecedor, coisa de nostalgias.
Enternecedor, Ivone. Sem dúvida. Fixo-me precisamente nesse vocábulo: gentil. É uma palavra bonita mas totalmente em desuso – até porque se refere a algo que quase deixou também de existir. Interrogo-me por vezes se uma certa expressão de cortesia – não postiça mas sincera – que se foi perdendo entre todos nós, desde o mais elementar trato social até às colunas da imprensa, não deveria ser retomada para benefício de todos. Certamente que se pouparia alguma coisa em ansiolíticos.
Também me dá prazer ler notícias antigas, sobretudo em jornais da província. Se bem me lembro, antes do 25 de Abril, fui leitor do Jornal do Fundão, em papel cor de rosa e que, algumas vezes, por motivos políticos era apreendido pela PIDE/DGS. Estou certo ou errado?
Está certo: o ‘Jornal do Fundão’ foi, particularmente na década anterior ao 25 de Abril, um dos jornais mais fustigados pela censura. Com milhares de textos censurados que hoje formam uma imensa e valosíssima pasta, testemunha de um tempo que ninguém quer ver repetido. Em 1965 chegou a ser suspenso durante várias semanas. Outros jornais de âmbito regional mas de difusão nacional que também se distinguiram como vozes da oposição nesses anos crepusculares da ditadura foram o ‘Notícias da Amadora’ e o ‘Comércio do Funchal’ (este sim, impresso em papel cor-de-rosa).
Tem razão. Era o Comercio do Funchal, este sim, em papel cor de rosa. Do alto dos meus quase 80, já alguns pormenores me vão escapando.
Um abraço
Tomara muita gente, com bastante menos idade, ter a sua memória. Abraço retribuído. E aceite o convite para continuar a aparecer por cá.
E havia outra deferência para com os leitores, Pedro! Em vez do “compra”, “experimenta”, “usa”, ps anúncios eram preciosidades a que tinha de fugir para me concentrar no motivo da pesquisa. “V. Ex.ª, minha senhora, já experimentou os benefícios do creme Banamor para a sua cútis?” Não nos tratavam por tu, coisa que acho bonita, já que não trato toda a gente por tu.
Devo explicar que, por razões de trabalho, tive de ler todos os jornais diários do fim do século XIX e também os do século XX (secção de desporto, então minúscula, notícias diminutas, toda a Ilustração Portuguesa, toda a Bola desde a fundação até à época, etc.
Aprendemos muito com a leitura de jornais antigos, Teresa. Quando cheguei ao Diário de Notícias, durante os primeiros anos, aproveitei muitas pausas no trabalho e até dias de folga para mergulhar no arquivo do jornal e ler as edições das décadas precedentes. Li todos os jornais que se publicaram desde o 25 de Abril e muitos das quatro décadas anteriores, guardados na caixa-forte. Aquele arquivo era – e é – um verdadeiro tesouro para os historiadores ou para qualquer de nós. Foi uma experiência inesquecível.
Pedro
Esta foto foi tirada, seguramente, na década de 1950.
Abraço
Vou emendar, meu caro. Obrigado pelo reparo. Avaliei (mal) pelo tamanho das tílias, plantadas em meados da década de 50. Prepara-te: falo em ti num dos próximos textos desta série.
Vou “roubar” para colocar no FB
À vontade, caríssimo. E não me canso de gabar a tua fabulosa colecção de postais. Grande abraço.
tambem tive a sorte de ser colaborador do Jornal do Fundão , escrevilhando umas noticias mal paradas sobre o Basquetebol da região. senti-me um previligiado ao escrever num jornal com tanta historia. para lá deste toque pessoal , subcrevo inteiramente a mensagem do Pedro que está subjacente no post do papel dos jornais na comunidade e em contar as estórias das localidades do nosso ( apesar de tudo ) querido Portugal.
Um abraço Pedro
A minha intenção é precisamente essa, meu caro João: recordar a uns e revelar a outros a importância de um certo jornalismo de proximidade, cultivado sobretudo na imprensa local e regional, que valorizava os pequenos acontecimentos da vida quotidiana conferindo-lhes valor noticioso. E com isso, sem saber, fornecia uma poderosa ferramenta de trabalho aos historiadores das gerações futuras.
O ‘Jornal do Fundão’, com uma história riquíssima, é importante também neste aspecto, que nem sempre é mencionado. Presto-lhe a minha sincera homenagem também por isto.
Um abraço amigo.
Boa tarde,
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Atenciosamente,
Catarina Osório
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Obrigado, Catarina. Uma vez mais.