Reflexões pós-matrimoniais


Teresa Ribeiro,

 

 

Tenho lido e ouvido repetidamente que o casamento gay não pode ser diferente do casamento hetero. Quando me confrontam com este argumento apetece-me sempre retorquir: Ah não? E daí partir para uma dissertação elementar sobre as leis da natureza que, lamento, não mudam por decreto. Na verdade a pretensa semelhança esgota-se na cerimónia enquanto símbolo romântico de uma união social e legalmente reconhecida.

A impossibilidade de gerar filhos naturais é uma enorme e incontornável diferença que, não servindo de argumento para interditar o acesso à adopção, atesta que as diferenças existem e que negá-lo é enveredar por um discurso politicamente correcto que tem a particularidade de entrar em rota de colisão com a clássica reivindicação gay do "direito à diferença".

Não entendo por que casamentos de natureza diferente não hão-de ter enquadramentos legais diferentes. Já me pronunciei aqui sobre o casamento e a adopção gay, por isso não me vou repetir. Faltou-me, porém, dizer que considero que a adopção não pode nem deve ser considerada uma consequência natural do casamento gay. Porquê? Porque não é.

35 comentários em “Reflexões pós-matrimoniais”

  1. Teresa,

    O casamento gay não é de facto igual ao casamento hetero . Como o casamento entre inférteis é diferente do casamento entre férteis Como o casamento para adquirir nacionalidade é diferente do casamento para constituir família.

    O que importa é perceber se essa diferença, que existe e não é pequena, cabe no conceito legal do casamento civil ou não. Estão duas pessoas do mesmo sexo aptas a cumprir com os deveres inerentes ao contrato de casamento, de fidelidade e co-habitação etc ? Se sim, é preciso então assentar a tónica do contrato, não no seu conteúdo ou nos seus deveres (o que é o casamento), mas na parte subjectiva do mesmo (quem é que pode casar).

    Não estou a dizer que não é legítima essa distinção, uma vez que acho que é e nem me choca. Mas estou a dizer que essa distinção, apesar de tudo, levanta também ela alterações à forma como o casamento civil está actualmente estruturado.
    Quanto à adopção, a questão é diferente. E comento depois de almoço 🙂
    bjs

    1. Caro Alexandre, não vá por aí. Nunca defendi semelhante coisa. Peço-lhe que leia com atenção este post e o que eu linkei. Creio que sou bastante explícita a expôr a minha posição em relação ao casamento gay e à adopção nestes dois textos.

  2. Teresa,
    Acho que acertou na ‘mouche’ e o seu ponto de vista é absolutamente concordante com o que eu penso sobre esta matéria: tratar como igual aquilo que é igual e como diferente aquilo que é diferente. Muitas vezes as pessoas que têm tido a percepção dessa diferença, têm vindo a ser acusadas de retrógadas e de estarem contra uma pretensa modernidade que o alinhar incondicionalmente com este tipo de iniciativas, supostamente lhes traz. Na parte que me toca, nada mais errado: trata-se apenas e tão-só de ver as coisas como elas são. A César o que é de César…

  3. Deixo apenas duas situações práticas para reflexão e cuja resposta desconheço:

    1- Um casal (casado) adopta uma criança. Passado algum tempo, separam-se. Descobrem, mais tarde, que ambos gostam de pessoas do mesmo sexo e juntam-se (casam) com o semelhante. Como fica a questão da adopção da criança?

    2- Um casal (casado) divorcia-se e o Tribunal entrega o poder paternal (de um, dois, três filhos) ao cônjuge marido. Este, passado algum tempo, casa-se com outro homem. Como fica o poder paternal? E se o cônjuge mulher, entretanto, também se casou com uma mulher?

    Estas questões estão em cima da mesa? Estão previstas? Há regulamentação/solução para elas, face à nova lei?

    (dúvidas minhas!!)

    1. Actualmente, num caso ou noutro, a regulação do poder paternal e da custódia teria de ser revista. Tenho uma pena imensa destas vítimas (e sei do que falo).

      1. Pois, Chloé, se não é fácil ser gay, porque a homossexualidade é um estigma, porque será irrelevante ser filho adoptivo de um casal homossexual? O estigma é extensivo à descendência, como se sabe. Não me parece desejável sujeitar, deliberadamente, crianças a isto.

    2. Teresinha,

      Acrescento mais uma:

      Uma solteira (A) adopta uma criança de 2 anos. Passado um ano, envolve-se com uma pessoa do mesmo sexo (B) e casa-se. Vivem juntas durante 7 anos. Até que A morre. O que acontece à criança que viveu durante 6 anos com A e B? Volta para a instituição?

  4. Teresinha e Adolfo: A verdade é que estas situações já aconteciam antes da legalização do casamento gay. Ignoro o que a lei prevê nestes casos, admito que careça de revisão, mas continuo a defender que por princípio (já se sabe que na prática há várias formas de contornar a lei) a adopção não deve ser reconhecida como um direito dos casais homossexuais pelas razões que já anteriormente referi.

    1. Mas Teresa, os casais heterossexuais também não têm propriamente um direito a adoptar: não estão é proibidos de o fazer, o que me parece ligeiramente diferente. Será sempre o superior interesse da criança a decidir (o qual, em Portugal, e como se vê, é entendido pelos serviços sociais de forma bem restritiva – há quase um medo de colocar a assinatura no consentimento da adopção).

      Podemos falar, isso sim, num direito a que a sua candidatura seja considerada.

      O que está por isso em causa é saber se uma norma que considera, à partida e de raiz , que o superior interesse da criança não passará nunca, em qualquer circunstância, pela adopção por um casal do mesmo sexo fará sentido, de tal sorte que a candidatura não merece sequer ser considerada.

      1. Pois, Adolfo, mas o meu ponto é esse: por enquanto, e porque a sociedade estigmatiza a homossexualidade, não acho razoável facilitar o acesso à adopção a casais homossexuais.

        1. Percebo isso Teresa. Nem estou propriamente a discordar. Só me parece que não se facilitaria. Basta ver como a actual lei da adopção não beneficia os casais que pretendem adoptar,
          Coisa diferente é uma exigência de os serviços sociais não atenderem à composição de género do casal – isso sim seria algo intolerável.

  5. Nem mais. Também já defendi sensivelmente o mesmo e nunca tive pachorra para aturar os homessexuais a reivindicar o direito à igualdade às segundas, quartas e sextas e o direito à diferença às terças, quintas e sábados.

  6. Se para um adulto (não todos, claro), mas para muitos como eu, isto mete confusão e dá que pensar, imagino para as pobres cabecinhas das crianças.

    Está-se mesmo a ver: dilema com o aspecto físico? Com os testes? Com o insucesso escolar? etc, etc,
    Nãaaa…

    Como alguém dizia hoje, no forum da TSF, primeiro destróiem a família, depois queixam-se. Haja pachorra!

      1. Teresa, defina diferente, um casamento entre duas pessoas de raças diferentes é diferente ou igual?, e um entre duas pessoas de religião diferentes em que numa religião se aceita a poligamia e na outra não?, e entre uma pessoa normal e outra deficiente?, e entre alguém do Algarve e alguém do Porto?… Para si as pessoas são todas iguais mas há uma mais diferentes que outras?

        O seu problema é com todas as pessoas diferentes ou só com os homossexuais?

        Eu conheço mais que um casal de homossexuais que já adoptou, imagino que se irão casar, o que sugere, que se retirem as crianças?.. e nãos era do seu superior interesse que permaneçam com a família que já conhecem e que os ama?

        Felizmente sou muito diferente de si, terei eu ou não direito aos meus filhos adoptados? e à minha filha biológica?

        Jorge Soares

        1. Jorge, convido-o a ler atentamente os meus dois textos. Este post e o linkado. Assim creio que ficará esclarecido em relação às minhas reservas relativamente à adopção por homossexuais. A “diferença”, como é óbvio, é de modelo familiar, que levanta problemas quanto à parentalidade, mais concretamente de segregação relativamente aos filhos.

          1. Teresa, eu li os dois textos, mas se não a consegui convencer da outra vez que este argumento não faz o mínimo sentido nem com o exemplo do meu filho…. não a vou convencer nunca.

            Sabe Teresa, para perceber o que é uma adopção, o que significa para os pais e para a criança é necessário passar por isso… usar como argumento a segregação quando falamos de vidas de crianças…

            Jorge Soares

  7. Eu, ao contrário do Joaquim, sou a favor de ambas as coisas: casamento e adopção pelos homossexuais. Mas atenção: estou a falar de princípios, ou, se quiserem, de direitos abstractos. Na prática, penso que a adopção deve esquecer os direitos dos adultos para se concentrar nos direitos e interesses da criança em questão. Ou seja, defendo que nesta matéria cada caso é um caso e por isso deve ser analisado individualmente, pensando sobretudo na criança. O que acho é que deve haver uma lei que “não proíba” por princípio. Enfim, se não interpretei mal o que li, nesta matéria a minha posição é semelhante à do Adolfo.

    1. Leste bem, Ana 🙂
      Penso mesmo que com a dificuldade de adopção que há em Portugal, que a abolição na norma que proibe a adopção por casais homossexuais significasse o que quer que fosse no sentido do incentivo à mesma.

      1. Ñão será o acesso dos casais homossexuais à adopção que contribuirá significativamente para a diminuição do número de crianças institucionalizadas. Essa, a meu ver, é uma falsa questão.
        Aliás, parece-me óbvio que nesta luta pelo acesso à adopção o interesse das crianças é claramente relegado para segundo plano.

        1. mas eu não acho isso Teresa. o problema de não haver mais adopções em Portugal não está na lei. está na nossa tradição e na falta de coragem dos nossos serviços sociais. veja-se a responsabilidade que é o despacho final de “ok, autorizo a adopção”. infelizmente, muitos esquecem-se que enquanto esse despacho não sai, outro há que diariamente é assinado e que diz “ok, fique na instituição”.

          1. Pois eu concordo com os que defendem que o direito à adopção decorre necessariamente do direito a contrair casamento civil (para mim o qualificativo final faz sentido:).
            Porque se o instituto do casamento é alargado aos L&G na sua plenitude, a solução contrária é que seria, tecnicamente, uma aberração jurídica.
            Logo, do ponto de vista meramente pragmático, este parece-me um debate condenado à inutilidade, porque a adopção não entrou pela porta mas entrará fatalmente pela janela.
            Por estas e por outras é que Sócrates calou os seus deputados com a disciplina de voto, sabendo que a adopção estava no papo. E sabendo ainda que, não havendo referendo, não haveria debate e que grande parte dos portugueses iria ser posto, convenientemente, ‘ao lume’ brando da historieta cor-de-rosa e do manso chorinho-folk dos escravos, aqui as vítimas das convenções sociais. E sabendo, por fim, que esses portugueses não teriam, numa primeira reacção, quaisquer condições para avaliar o alcance real de uma medida falsamente isolada da sua inevitável e longa série de consequências

            O que me leva ao princípio de tudo: por estas e outras (que ainda nos cairão ao colo) é que, na minha óptica, a legalização do casamento gay é de facto um perfeito nonsense cultural e civilizacional.
            (Sendo que nada tenho contra os amigamentos e à promoção dos requisitos necessários à simples tolerância social da diferença).

          2. Penso o mesmo, Adolfo. E a par dessa morosidade dos processos de adopção ainda temos uma esmagadora maioria de adoptantes interessados só em bebés, saudáveis, brancos e de preferência do sexo feminino. É sobretudo por isso que há muitas crianças que nunca chegam a sair das instituições.

          3. Chloé, percebo essa lógica de raciocínio, partilhada penso que pela maioria que não concorda com os casamentos gays, mas continuo a pensar que é possível separar as águas. Na lei há muitas situações de excepção, a inibição da adopção por casais gays seria mais uma.

          4. Teresa, parece-me que fala com conhecimento de causa quando fala das muitas crianças que estão para adoptar e nunca saem das instituições porque não há candidatos para elas….será que a mim, como candidato à adopção me pode dizer onde estão essas crianças?, quantas são?, com que idades?… sabe mesmo ou só repete o que escuta por aí?

            Sou presidente de uma associação que pretende defender as crianças institucionalizadas, há anos que andamos atrás desses números e nunca os conseguimos, de tal forma que achamos que são um mito da segurança social, será que nos pode esclarecer melhor?

            Desde já em meu nome e dessas crianças, o meu obrigado.

            Jorge Soares

          5. Com certteza, Jorge. Digo-lhe já onde obtive essas informações. Foi no exercício da minha profissão, numa reportagem que fiz sobre adopção. Foi publicada faz tempo, não voltei a esse assunto nos meus trabalhos, mas de então para cá foram várias as reportagens que li na Imprensa sobre o tema. Concluí pelo que fui lendo que não avançámos muito nessa matéria.
            Nota de rodapé: a reportagem que eu fiz foi uma das que mais me marcou. Visitei um desses “depósitos” de crianças e saí de lá de rastos.

          6. Teresa, cada vez que há uma reportagem sobre adopção são repetidos os mesmos números e as mesmas ideias, ainda a semana passada voltou a acontecer. Mas a verdade é que quando tentamos concretizar, saber quantas crianças são, como são, quais são, e eu já fiz esta pergunta mais que uma vez a responsáveis da segurança social, a verdade é que nunca ninguém concretiza. Eu não duvido que tenha feito o seu melhor no seu trabalho, mas para além dos números, viu alguma destas crianças que supostamente ninguém quer?

            Sabe quantos desses depósitos de crianças é que existem no país?, são mais de 400, se quiser mando-lhe a lista de todos.

            E sabe quantas crianças estão nesses depósitos? eu digo-lhe, são mais de 11000, mas imagino que também terá ouvido isso numa reportagem qualquer.

            E sabe o que lhe digo, era muito mais útil que todos nos preocupássemos em saber porque é que essas crianças lá estão e de quem é a culpa, do que passarmos horas e horas, dias, semanas a discutir quem pode ou não adoptar.. até porque 99% delas nunca irão para adopção.. e isso não tem nada a ver com candidatos.

            Jorge Soares

          7. Jorge, segundo apurei, as culpas estão divididas entre as restrições que já enumerei, impostas pela maioria dos adoptantes e a complexidade e morosidade do processo (que ainda assim já foi agilizado há uns anos, mas não o bastante).
            E sim, vi algumas das crianças que ninguém quer. Foi há anos, mas não consegui esquecê-las.

  8. “Não entendo por que casamentos de natureza diferente não hão-de ter enquadramentos legais diferentes.”

    São diferentes? Assim de repente não estou a ver. Ou será que está a confundir casamento com matrimónio?

    “Porque não é.” E Porquê?

    1. Daniel, já respondi sobre isto ao Jorge Soares, um pouco mais acima. Concordo com a legalização do casamento gay, mas defendo a situação de excepção que existe quanto ao direito à adopção. Entendo que neste caso antes dos interesses dos homossexuais se deve considerar o interesse das crianças. Duvido que uma criança institucionalizada e portanto já fragilizada, beneficie com a estigmatização que vai sofrer por ser filha de dois pais ou de duas mães.

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