Reflexão do dia


Pedro Correia,

«Estou a ficar velho por causa do acordo ortográfico. Aos 37 anos, sou um daqueles velhinhos que teimam em escrever ‘pharmácia’ porque no tempo deles era assim. Bem sei que é cedo demais para estas teimosias, mas resisti até onde pude. Eu tentei não ser reaccionário. Não tentei com muita força, mas tentei. Continuei a escrever como sempre, mas os revisores da Visão tinham depois o trabalho de corrigir o texto de acordo com a nova ortografia. Vou pedir-lhes que deixem de o fazer. Eu sou do tempo em que se escrevia recepção. Não adianta fingir que sou do tempo em que se escreve receção para nos aproximarmos dos brasileiros — que, curiosamente, vão continuar a escrever recepção.»

Ricardo Araújo Pereira, na Visão

28 comentários em “Reflexão do dia”

  1. Errado.

    Nós escrevemos “receção”, não “para nos aproximarmos dos brasileiros”, como Ricardo A.P. erradamente afirma, mas tão-somente porque é assim que pronunciamos a palavra.

    Os brasileiros, por outro lado, têm uma pronúncia diferente da nossa. Eles dizem “recepção” e, naturalmente, escrevem a palavra tal como a pronunciam.

    A regra não é “devemos escrever como os brasileiros”. A regra é “cada povo deve escrever como se pronuncia no seu país”.

        1. Ou nunca leu o «acordo» ou mente.
          Escreve-se no texto do acordo: «conclui-se que o Acordo de 1986 conseguia a unificação ortográfica em cerca de 99,5%»
          Trata-se da unificação de palavras – como se vê pela indicação de uma percentagem – e não de normas.
          O que o comentador Lavoura diz, não faria aliás, qualquer sentido: um norma que mandasse atender aos costumes locais unificaria normativamente e produziria resultados muitos diferentes na sua aplicaçao prática.

          1. Este “acordo” não unifica coisa nenhuma. E, como bem observa o RAP, ‘desunifica’ bastante. Tal como ele, jamais escreverei “receção”, palavra cujo significado desconheço por completo.

    1. “”cada povo deve escrever como se pronuncia no seu país”.

      O sr. Lavoura, pelos vistos, pronuncia os h com que se iniciam certas palavras: hoje, haver, etc… Bom proveito!

    2. A regra é “cada povo deve escrever como os locutores de televisão de Lisboa pronunciam mal as palavras no seu país”

    3. Olhe que não Luís, olhe que não. Esta história da fonética, mesmo esquecendo a questão de princípio, não é um argumento honesto. Quando aparece a palavra “receção”, nenhum português educado a lê da mesma maneira que “recepção”. A grafia de “receção” implica uma fonética exactamente igual à de “recessão” (a da crise); enquanto que a grafia “recepção” implica uma fonética semelhante à de “direcção”. Ou seja, o valor fonético que instintivamente atribuímos a uma vogal é modelado pela existência ou não de uma consoante muda subsequente. Daí que estas consoantes de mudas só têm o nome. As consoantes mudas têm implicação na fonética de uma palavra, por mais paradoxal que isto soe. Há excepções, claro, ou não estivéssemos a falar da Língua Portuguesa. No entanto, qualquer português lê espetador e pensa em espetos e não em pessoas que assistem a um espectáculo.

    4. “Nós escrevemos “receção”, não “para nos aproximarmos dos brasileiros”, como Ricardo A.P. erradamente afirma, mas tão-somente porque é assim que pronunciamos a palavra”

      Eu pronuncio recÉção porque o P tem a função diacrítica de acentuar a vogal anterior e não está lá apenas para chatear, ao retirarem essa consoante retiram a função de acentuação do ce, visto esta não ter nenhum acento e não é silaba tónica por isso, irei fechar e ler “receção” da mesma forma que se lê recessão. tal em vários outros exemplos de palavras “acordizadas” como o espetador, ativo, ator, coletivo, interativo entre outras. Essa regra de “imaginar que existe um acento naquela silaba” não me seduz

      “A regra não é “devemos escrever como os brasileiros”. A regra é “cada povo deve escrever como se pronuncia no seu país”.”

      Neste caso, como pronuncio o P de Egipto irei continuar a escrever Egipto com P =D vou ter que começar a pronunciar as palavras mudas só mesmo para por à vista o ridículo deste aborto ortográfico que não simplifica e não unifica o que quer que seja.

    5. A “regra” — que nem “regra” é — é uma perfeita idiotice só concebível pela cáfila de ignorantes egocêntricos que cozinhou o dito “acordo”. O texto irónico toca no ponto fulcral do dito “acordo”: os seus objectivos enunciados! Cancelei as assinaturas da Visão e da Visão Júnior quando essas revistas passaram a ser publicadas numa língua estranha, de difícil leitura e, francamente, ofensiva. Só lamento ter de perder (as tantas vezes excelentes) crónicas do Ricardo Araújo Pereira…

  2. O sr. Ricardo Araújo acha lá na sua que esbanja humor por todos os poros… Afinal de contas, o que neste seu texto se percebe é que ele, lá por causa dos revisores da Visão, ou seja lá por que for, baixou os braços na luta pela ortografia (de gente) portuguesa.

    1. Não! Ricardo Araújo Pereira acaba de declarar que não adere ao chamado acordo ortográfico.

      E pode escrever phamárcia. Com ph se escreve hoje nos países que até produzem medicamentos. E também naqueles onde há philosophia (philosophy- UK, USA, etc); Alemanha – philosophia; França – philosophie).

  3. Considero o novo acordo ortográfico (abreviadamente designado por: dito cujo) uma aberração por vários motivos… Por isso mesmo, sempre que puder (aqui, no meu blogue, etc.), escrevo e escreverei sem respeitar esse dito cujo. Recentemente, elaborei um manual e diapositivos de apoio a um curso sobre “Investimentos imobiliários” à luz (estou a ser irónico, claro) desse dito cujo porque a entidade/cliente assim obrigou-me: manda quem paga. Confesso, foi um pouco penoso… Enfim, como temos uma sociedade num estado penoso, esse dito cujo apenas reflecte, na escrita, a degradação acelerada dos últimos anos. Fado d’um ladrão!

    1. O «acordo» não é uma aberração: é um acto inimaginável em qualquer país democrático.
      A alteração de 4% do léxico – a que pertencem vocábulos que ocorrem com grande frequência na língua – é inimaginável até como estratégia hostil de inculturação infligida por uma qualquer potência ocupante.
      O «acordo» deve apenas servir para meditarmos na persistência e primarimos brutal do autoritarismo português e falta de instâncias de manifestação da vontade popular.
      Em si, a ideia é idiota e, por exemplo, o inglês em que se escreve hoje é o mesmíssimo em que escrevia Dickens. idem para o francês de Balzac. Parece que apenas no Brasil a ortografia sofre grande «incremento». Será dos 75% de analfabetos?

      1. O pior é ver alguns dos nossos escritores – incluindo certos literatos que escrevem na revista ‘Ler’ – apressarem-se para chegar em primeiro lugar à escrita em ‘acordês’, esquecendo as responsabilidades que têm na defesa da norma ortográfica clássica, baseada na etimologia, como sucede na generalidade das línguas cultas.
        Que contraste entre este conformismo e a oposição tenaz que alguns dos nossos maiores escritores do século XX, como Torga, Sophia e Vergílio Ferreira, moveram ao famigerado ‘acordo’ de 1990… Na sequência da oposição levantada por Pessoa e outros membros da geração ‘Orpheu’ à reforma ortográfica de 1911.
        Que diferença em relação ao desassombro daqueles mestres da literatura portuguesa e o conformismo actual, com quase todos de orelha murcha e joelho no chão…

        1. Sou estudante Mestrado de Teatro (Artes Performativas Teatro Música) e também dou aulas de várias disciplinas ligadas à Arte Dramática…. Sou completamente CONTRA o acordo ortográfico, mas tenho que o assimilar, pois que o vou ter de usar em ambas as situações de emprego….
          E de repente voltar a usar o português normal, depois de ter investido dinheiro em 2 gramáticas com acordo, 1 manual do que vai mudar e ler os programas de português do 2º, 3º ciclos e Ensino Secundário???
          LOLOL

          1. Essa das artes «performativas» deve também ser das duas gramáticas com acordo. É pena porque para a Arte Dramática esta bom de ver que o português normal chega.
            Cumpts.

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