«Estou a ficar velho por causa do acordo ortográfico. Aos 37 anos, sou um daqueles velhinhos que teimam em escrever ‘pharmácia’ porque no tempo deles era assim. Bem sei que é cedo demais para estas teimosias, mas resisti até onde pude. Eu tentei não ser reaccionário. Não tentei com muita força, mas tentei. Continuei a escrever como sempre, mas os revisores da Visão tinham depois o trabalho de corrigir o texto de acordo com a nova ortografia. Vou pedir-lhes que deixem de o fazer. Eu sou do tempo em que se escrevia recepção. Não adianta fingir que sou do tempo em que se escreve receção para nos aproximarmos dos brasileiros — que, curiosamente, vão continuar a escrever recepção.»
Ricardo Araújo Pereira, na Visão

Errado.
Nós escrevemos “receção”, não “para nos aproximarmos dos brasileiros”, como Ricardo A.P. erradamente afirma, mas tão-somente porque é assim que pronunciamos a palavra.
Os brasileiros, por outro lado, têm uma pronúncia diferente da nossa. Eles dizem “recepção” e, naturalmente, escrevem a palavra tal como a pronunciam.
A regra não é “devemos escrever como os brasileiros”. A regra é “cada povo deve escrever como se pronuncia no seu país”.
Cada vez percebo menos. Então o “acordo” não se destinava a unificar a ortografia?
Não. Destinava-se a unificar as regras da ortografia.
Ah. Coisa substancialmente diferente então.
Ou nunca leu o «acordo» ou mente.
Escreve-se no texto do acordo: «conclui-se que o Acordo de 1986 conseguia a unificação ortográfica em cerca de 99,5%»
Trata-se da unificação de palavras – como se vê pela indicação de uma percentagem – e não de normas.
O que o comentador Lavoura diz, não faria aliás, qualquer sentido: um norma que mandasse atender aos costumes locais unificaria normativamente e produziria resultados muitos diferentes na sua aplicaçao prática.
Este “acordo” não unifica coisa nenhuma. E, como bem observa o RAP, ‘desunifica’ bastante. Tal como ele, jamais escreverei “receção”, palavra cujo significado desconheço por completo.
E por não cada pobo escreber como se pronuncia na sua regioum?
Isso já há muito quem faça, sim, sobretudo lisboetas que escrevem de acordo com a sua pronúncia caraterística, sobretudo trocando ii por ee.
Que aconteceu ao C de caraCterística, Luís? O gato comeu? Ou também se tornou ‘consoante muda’ porque muito bem lhe apetece?
“”cada povo deve escrever como se pronuncia no seu país”.
O sr. Lavoura, pelos vistos, pronuncia os h com que se iniciam certas palavras: hoje, haver, etc… Bom proveito!
Eu não pronuncio o U de Lavoura. Digo Lavôra. Que tal abolirmos esse U, Luís?
A regra é “cada povo deve escrever como os locutores de televisão de Lisboa pronunciam mal as palavras no seu país”
Se a regra é escrever como pronunciam, passamos já a escrever LUCUtores. E TEFOnes. É MÊmo bom.
Olhe que não Luís, olhe que não. Esta história da fonética, mesmo esquecendo a questão de princípio, não é um argumento honesto. Quando aparece a palavra “receção”, nenhum português educado a lê da mesma maneira que “recepção”. A grafia de “receção” implica uma fonética exactamente igual à de “recessão” (a da crise); enquanto que a grafia “recepção” implica uma fonética semelhante à de “direcção”. Ou seja, o valor fonético que instintivamente atribuímos a uma vogal é modelado pela existência ou não de uma consoante muda subsequente. Daí que estas consoantes de mudas só têm o nome. As consoantes mudas têm implicação na fonética de uma palavra, por mais paradoxal que isto soe. Há excepções, claro, ou não estivéssemos a falar da Língua Portuguesa. No entanto, qualquer português lê espetador e pensa em espetos e não em pessoas que assistem a um espectáculo.
Argumento bem espetado, Hugo.
“Nós escrevemos “receção”, não “para nos aproximarmos dos brasileiros”, como Ricardo A.P. erradamente afirma, mas tão-somente porque é assim que pronunciamos a palavra”
Eu pronuncio recÉção porque o P tem a função diacrítica de acentuar a vogal anterior e não está lá apenas para chatear, ao retirarem essa consoante retiram a função de acentuação do ce, visto esta não ter nenhum acento e não é silaba tónica por isso, irei fechar e ler “receção” da mesma forma que se lê recessão. tal em vários outros exemplos de palavras “acordizadas” como o espetador, ativo, ator, coletivo, interativo entre outras. Essa regra de “imaginar que existe um acento naquela silaba” não me seduz
“A regra não é “devemos escrever como os brasileiros”. A regra é “cada povo deve escrever como se pronuncia no seu país”.”
Neste caso, como pronuncio o P de Egipto irei continuar a escrever Egipto com P =D vou ter que começar a pronunciar as palavras mudas só mesmo para por à vista o ridículo deste aborto ortográfico que não simplifica e não unifica o que quer que seja.
A “regra” — que nem “regra” é — é uma perfeita idiotice só concebível pela cáfila de ignorantes egocêntricos que cozinhou o dito “acordo”. O texto irónico toca no ponto fulcral do dito “acordo”: os seus objectivos enunciados! Cancelei as assinaturas da Visão e da Visão Júnior quando essas revistas passaram a ser publicadas numa língua estranha, de difícil leitura e, francamente, ofensiva. Só lamento ter de perder (as tantas vezes excelentes) crónicas do Ricardo Araújo Pereira…
O sr. Ricardo Araújo acha lá na sua que esbanja humor por todos os poros… Afinal de contas, o que neste seu texto se percebe é que ele, lá por causa dos revisores da Visão, ou seja lá por que for, baixou os braços na luta pela ortografia (de gente) portuguesa.
Não gostava de contrariá-lo, mas é precisamente ao contrário.
Não! Ricardo Araújo Pereira acaba de declarar que não adere ao chamado acordo ortográfico.
E pode escrever phamárcia. Com ph se escreve hoje nos países que até produzem medicamentos. E também naqueles onde há philosophia (philosophy- UK, USA, etc); Alemanha – philosophia; França – philosophie).
Phois. Quero dizer: pois.
Considero o novo acordo ortográfico (abreviadamente designado por: dito cujo) uma aberração por vários motivos… Por isso mesmo, sempre que puder (aqui, no meu blogue, etc.), escrevo e escreverei sem respeitar esse dito cujo. Recentemente, elaborei um manual e diapositivos de apoio a um curso sobre “Investimentos imobiliários” à luz (estou a ser irónico, claro) desse dito cujo porque a entidade/cliente assim obrigou-me: manda quem paga. Confesso, foi um pouco penoso… Enfim, como temos uma sociedade num estado penoso, esse dito cujo apenas reflecte, na escrita, a degradação acelerada dos últimos anos. Fado d’um ladrão!
O «acordo» não é uma aberração: é um acto inimaginável em qualquer país democrático.
A alteração de 4% do léxico – a que pertencem vocábulos que ocorrem com grande frequência na língua – é inimaginável até como estratégia hostil de inculturação infligida por uma qualquer potência ocupante.
O «acordo» deve apenas servir para meditarmos na persistência e primarimos brutal do autoritarismo português e falta de instâncias de manifestação da vontade popular.
Em si, a ideia é idiota e, por exemplo, o inglês em que se escreve hoje é o mesmíssimo em que escrevia Dickens. idem para o francês de Balzac. Parece que apenas no Brasil a ortografia sofre grande «incremento». Será dos 75% de analfabetos?
O pior é ver alguns dos nossos escritores – incluindo certos literatos que escrevem na revista ‘Ler’ – apressarem-se para chegar em primeiro lugar à escrita em ‘acordês’, esquecendo as responsabilidades que têm na defesa da norma ortográfica clássica, baseada na etimologia, como sucede na generalidade das línguas cultas.
Que contraste entre este conformismo e a oposição tenaz que alguns dos nossos maiores escritores do século XX, como Torga, Sophia e Vergílio Ferreira, moveram ao famigerado ‘acordo’ de 1990… Na sequência da oposição levantada por Pessoa e outros membros da geração ‘Orpheu’ à reforma ortográfica de 1911.
Que diferença em relação ao desassombro daqueles mestres da literatura portuguesa e o conformismo actual, com quase todos de orelha murcha e joelho no chão…
Sou estudante Mestrado de Teatro (Artes Performativas Teatro Música) e também dou aulas de várias disciplinas ligadas à Arte Dramática…. Sou completamente CONTRA o acordo ortográfico, mas tenho que o assimilar, pois que o vou ter de usar em ambas as situações de emprego….
E de repente voltar a usar o português normal, depois de ter investido dinheiro em 2 gramáticas com acordo, 1 manual do que vai mudar e ler os programas de português do 2º, 3º ciclos e Ensino Secundário???
LOLOL
Essa das artes «performativas» deve também ser das duas gramáticas com acordo. É pena porque para a Arte Dramática esta bom de ver que o português normal chega.
Cumpts.
Aqui deixo uma instância de recurso contra a aberração. Basta ter nº de eleitor e um pingo de discernimento sobre a m… que é o dito cujo.
Fora isto só há o «fado dum ladrão!»
Cumpts.
“Recepção/receção” é apenas 1 das 2 200 novas duplas grafias inventadas pelo AO90, de um total de 69 300 previstas na “maravilhosa língua unificada”: http://ilcao.cedilha.net/?p=2558
Cumprimentos.