Reflexão do dia


Pedro Correia,

«O miúdo que poupa uma moeda para beber um pirolito paga o novo imposto. Já o alcoólico milionário que abre, logo de manhã, a terceira garrafa de tintol da Herdade das Servas Colheita Seleccionada Balthazar 2011 (a 395,50 euros cada uma) não paga imposto nenhum. Isto é, só paga caso se lembre de misturar o vinho com uma gasosa.»

Miguel Esteves Cardoso, no Público

15 comentários em “Reflexão do dia”

  1. Já não há pirolitos. Eu não sei o que é o que o MEC pensa, mas faz-me muita impressão quando vejo miúdos pela rua fora “lanchando” uma garrafa de coca-cola de 1.5 litros. Também não sei onde é que o MEC ouviu dizer que uma garrafa de vinho não paga imposto.

    1. O vinho paga IVA à taxa reduzida de 13%. É o único imposto que paga, e mesmo esse paga-o a uma taxa reduzida. Ao contrário da cerveja, dos licores e das aguardentes, o vinho está isento do imposto especial sobre as bebidas alcoólicas.

      1. O vinho não está isento. Acontece que por razões conhecidas de todos, a taxa do imposto sobre o alcool aplicada ao vinho é 0%; todos os anos essa taxa tem de ficar expressa no OGE.
        Nunca como hoje a frase (mal) atribuída ao Salazar “beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses” é tão verdadeira.

        1. Entre estar isento de imposto e sofrer uma taxa de imposto de 0%, não vejo qual seja a diferença prática.
          De resto, não sei quais sejam as “razões conhecidas de todos” que justificam essa taxa de 0%. Se é o facto de Portugal ser um país produtor de vinho, pois bem, também é um país produtor de aguardente. Se é o facto de ser possível contrabandear vinho, pois bem, também é possível contrbandear aguardente. Se é o facto de algumas pessoas produzirem o vinho que elas próprias bebem, pois bem, isso também acontece com as aguardentes. se é o facto de ser possível falsificar vinho, pois também se pode falsificar aguardente.
          Pelo que, trata-se de razões que a razão desconhece.

          1. É a diferença entre estar isento e estar sujeito a uma taxa, no caso de de 0%. Se não percebe a diferença, também não sou eu que lhe vou explicar.
            As falsificações não têm nada a ver com o assunto.

  2. Miguel Esteves Cardoso tem toda a razão. É iníquo que o vinho, além de pagar IVA reduzido, ainda por cima não pague o imposto especial sobre as bebidas alcoólicas.

  3. Enquanto as elites tomam parte na vanguarda dos acontecimentos, o povo toma na retaguarda. ( Georges Najjar Jr – desaforismos )

    1. Segundo um deputado da União Nacional uma vez disse, está cientificamente provado que uma dieta à base de broa e caldo verde satisfaz plenamente as necessidades do ser humano.
      As sopas de cavalo cansado não fazem parte da dieta.

  4. Triste, tristíssimo é verificar como comentários deste tipo revelam que as vítimas do saque fiscal já estão tão bem amestradas. Tão bem amestradas, tão mansas, que a principal crítica a novo saque seja a acusação de que há injustiça em que o saque não seja mais geral ainda. O mal não é a colheita especial não pagar; o mal é pagar o refrigerante. Devia ser evidente, mas a vontade de servidão tem destas coisas

    1. Toda a fiscalidade é um saque. A questão é apenas a de saber qual é o saque menos mau.
      Sendo que, como Salazar muito bem mandava, devemos “produzir e poupar”, a fiscalidade sobre o consumo é certamente menos má do que a fiscalidade sobre o trabalho (IRS) e sobre o lucro (IRC).
      Sendo que certos consumos (de álcool, açúcar) são prejudiciais para a nossa saúde e, portanto, para a nossa capacidade de produzir (como Salazar queria que nós fizéssemos), então a fiscalidade sobre esses consumos é menos má do que a fiscalidade sobre outros consumos.
      (A referência a Salazar é, obviamente, meramente jocosa.)

      1. Jocosa, mas por alguma razão é feita. Na verdade é absolutamente deplorável que os factos presentes – reiterada e despudoradamente presentes – legitimem saudosismos e simplistas visões messiânicas. Mas é esse o caminho que por cá se entendeu seguir e são esses “efeitos secundários” os naturais e óbvios.

        Têm sorte, os que sobre nós fazem coisas formalmente tidas como de governação: têm um povo embrutecido, desproporcionadamente na dependência da esmola estatal (ou que, chico-esperto, a exige sem vergonha e toma como objectivo pessoal e profissional) e cego pela ilusão dos direitos adquiridos. De modo que esses saudosismos e messianismos são, por agora, inócuos.

        É simples.

        Costa

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