Reflexão do dia


Pedro Correia,

«A aplicação do Acordo Ortográfico [AO] entrou numa dinâmica perversa. Mal informados, desorientados, os utentes refugiam-se no excesso de zelo, cortando consoantes a torto e a direito, em patéticas violações do Acordo em nome do próprio Acordo. De dezenas de casos documentáveis, citem-se atidão, cócix, helicótero, núcias, oção, óvio, rétil, sução, tenológico. Nem faltam as soluções invencivelmente criativas como “os fatos consumados”, “em idade proveta”, “travagem abruta”, “pato com o diabo” (em reedição de Saramago), “catação de investimento”,  “o entusiasmo elipsou-se”, “a mulher latente”. 

E que fazem os procriadores do Acordo? Encolhem os ombros, sorriem distantes, não é com eles. Há-de passar. Hipercorrecções sempre as houve e haverá. Tirando isso o Acordo é um sucesso. Não lhes ouvimos um público e curial “Não foi isto o que quisemos!”, como se até isso os humilhasse.

Ao fim de anos e anos de queixas, denúncias, ataques, implorações, os inventores do AO continuam, pois, a festejá-lo. Nunca, porém, a protegê-lo. A sério: jamais se viu defenderem materialmente o seu produto.»

Fernando Venâncio, no Público

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