Reflexão do dia


Pedro Correia,

«Nunca percebi porque é que havia um acordo ortográfico. A maior língua do mundo, a língua mais falada, que é o inglês, nunca precisou de nenhum acordo ortográfico. Eu acredito na força da língua portuguesa e na sua pluralidade. E a vida real encarregar-se-á de lhe dar o seu próprio caminho. Se quisermos espartilhar a língua num acordo ortográfico, não creio que daí resulte nada de muito positivo. (…) Neste momento não faz sentido manter artificialmente vivo um acordo ortográfico quando três dos países fundamentais ainda não o ratificaram.»

António Vitorino, há pouco, na SIC Notícias

0 comentários em “Reflexão do dia”

  1. Pois, mas na altura (e mesmo com uma petição com mais de 100 mil assinaturas – pelo menos com mais 997 mil do que a petição dos piropos) fechou o bico. Aliás, nenhuma destas criaturas incluindo o actual PR (que encolheu os ombros) se insurgiu na altura certa. Há coisas que não se perdoam. Esta é uma delas: esta gente só se espanta e acha mal quando lhes convém, nunca defendem nada porque é a coisa certa a fazer no momento necessário.
    Excepção feita para este blogue aqui e pouco mais.

    1. Não é verdade, meu caro, que MRS tenha sido indiferente ao assunto. Logo em 1990 foi um dos signatários do manifesto contra o “acordo”, promovido pelo Movimento contra o Acordo Ortográfico e pelo Grémio Literário.

      1. Posso ter interpretado mal, mas lembro-me perfeitamente de que numa das entrevistas dominicais (com Judite de Sousa ou o pivot dessa altura) a jornalista interpelou MRS sobre a aprovação do Acordo —que tinha sido nessa semana ou estava para ser na outra— e que a resposta não foi no sentido da recusa do acordo mas no sentido do que era necessário — ou seja, o seu tacticismo já se manifestava nessa altura através da tese do sacrifício. Não é postura que me agrade em geral e certamente inqualificável para mim neste assunto particular.

        1. A posição de MRS é coerente desde 1990, data em que foi signatário daquele documento, numa altura crucial (e ao qual os decisores políticos, com destaque para o PM Cavaco Silva, fizeram orelhas moucas), até ao recente artigo no Expresso, já como PR, em que fez questão de utilizar a ortografia pré-‘AO’. De resto, pelo menos sete dos dez candidatos presidenciais manifestaram-se claramente contra o ‘AO’. Incluo nesta lista Henrique Neto, Paulo de Morais, Maria de Belém, Marisa Matias, Edgar Silva e Sampaio da Nóvoa.

    1. Decisivos, sim. Falar em “unificação” ortográfica com Angola e Moçambique de fora é puro disparate. Aliás com esses Estados a unificação já existia – antes do “acordo”.

  2. Um socialista que não percebe o socialismo e o desejo da sua ideologia controlar os mais diversos aspectos da vida humana… com a burocracia e “empregos” para a dita a condizer.

    …pois…

  3. Concordo em absoluto com o comentário em que se aponta para a realidade de António Vitorino ter ficado caladinho tempos atrás e vir agora com grandes tiradas. Ele e muitos outros.
    António Cabral

    1. Mas ele ficou “caladinho”? Julgo que não. Nem é isso que interessa. Interessa é o que diz agora. Vários ex-apoiantes do “acordo” passaram a ser críticos do mesmíssimo “acordo”. O que é bom, não é mau.

      1. Ok, melhorou significativamente. Aliás concordo, em absoluto (desde o início) que ele agora parece defender: a Língua não precisa de legisladores.

  4. Independentemente de haver ou não haver acordo ortográfico entre diversos países que utilizam a mesma língua, o facto é que a ortografia da língua, em cada país específico, está sempre padronizada, e que em quase todos os países, o padrão é ocasionalmente modificado – por lei – para se adaptar à modernidade e, geralmente, para simplificar a ortografia.
    Ainda recentemente modificações desse tipo foram feitas à ortografia do francês e do alemão. Não se vê por que motivo não devam também ser feitas (ocasionalmente) mudanças na ortografia do português.

    1. Está tão “padronizada” que ainda na recente campanha eleitoral para a Presidência da República pelo menos sete dos candidatos se exprimiram claramente contra o AO – e recusaram mesmo aplicá-lo nos textos de campanha. O que diz quase tudo sobre o sucesso deste documento que traz as assinaturas de Cavaco e Sócrates, dois reconhecidos linguistas da nossa praça.

      1. Claro que em todas as modificações da ortografia há muita gente que se manifesta contra e que se recusa a utilizar a nova ortografia. Isso também foi verdade nas recentes modificações das ortografias do francês e do alemão. O facto de haver resistências à aplicação do novo padrão não significa que um novo padrão não tenha que ser introduzido. Resistências, havê-las-á sempre.

        1. Esse é o argumento do despotismo iluminado. Contra os utentes da língua – incluindo jornalistas, professores e escritores.
          Já mencionei o exemplo significativo dos recentes candidatos presidenciais. Posso mencionar também a esmagadora maioria dos escritores portugueses, que recusa escrever em acordês. Ficam alguns (e bem significativos) exemplos – de várias tendências e gerações:
          Eduardo Lourenço, Manuel Alegre, José Rentes de Carvalho, Mário de Carvalho, Lídia Jorge, António Lobo Antunes, Inês Pedrosa, Mário Cláudio, Miguel Sousa Tavares, Rita Ferro, Pedro Mexia, Rui Cardoso Martins, Fernando Dacosta, Rui Zink, Baptista-Bastos, João de Melo, José Rodrigues dos Santos, Valter Hugo Mãe, Tiago Rebelo, José Luís Peixoto, Miguel Esteves Cardoso, Maria Velho da Costa, Patrícia Reis, Gonçalo M. Tavares, Maria do Rosário Pedreira, João Miguel Fernandes Jorge, Nuno Camarneiro, Margarida Rebelo Pinto, Ana Teresa Pereira, Manuel Gusmão, Marcello Duarte Mathias, Joel Neto, Afonso Reis Cabral, José Jorge Letria, Nuno Camarneiro, Joaquim Pessoa, Ana Marques Gastão, Afonso Cruz, Ana Margarida Carvalho, João Tordo, Ricardo Adolfo, Frederico Lourenço, Ricardo Araújo Pereira. Pelo menos estes.
          Nenhum deles aplica o “decreto ortográfico” Cavaco/Sócrates.

          1. Os escritores não são representativos. Eles são uma elite que, naturalmente, é pedante e que tem interesse em que a ortogafia seja mais complicada, para que eles possam exibir o seu peculiar domínio dela e, dessa forma, distinguir-se do comum dos mortais. O grosso dos utilizadores da língua é o povo comum que, pelo contrário, tem interesse em que a ortografia da língua seja simples e acessível à compreensão de todos. É uma maioria silenciosa contra uma minoria de pedantes iluminados (estes adjetivos devem ser lidos com a conotação francesa de “pédants” e “illuminés”).

          2. Está muito enganado. Os escritores são representativos. Por serem utentes qualificados do nosso idioma. São muito mais qualificados do que a dupla Cavaco & Sócrates.

          3. É um bocado forçado trazer Cavaco e Sócrates para esta discussão.
            Nenhum deles foi técnico do AO.
            De certeza que assinaram leis respeitantes a medicina sem serem médicos e respeitantes a padarias sem serem padeiros e por aí fora. Se o 1º ministro e o presidente tivessem de saber de tudo não havia ninguém para o cargo.
            Esta chamada dos políticos revela antes de tudo uma discussão pobre em que os detratores do acordo apresentam dois argumentos: têm saudades das consoantes mudas e não quererem que nada mude.
            Ao defender o AO nestes termos estão a declarar que a ortografia pré-acordo era a única possível e não pode ser melhorada, isto apesar das inúmeras alterações da ortografia portuguesa que foram feitas antes.

          4. Não é nada forçado trazer Cavaco e Sócrates a esta discussão.
            Ainda ontem à noite, na SIC N, Santana Lopes explicou a génese do AO. O então PM encarregou-o de levar por diante esta tarefa caso contrário a língua portuguesa “não sobreviveria”(!) por mais de um século.
            Cavaco estava-se nas tintas para o futuro da língua portuguesa. Queria apenas fazer um brilharete na cimeira inaugural da CPLP, espécie de menina dos olhos dele.
            O mesmo sucedeu com Sócrates, em 2008: sem nada de relevante para levar na bagagem para mais uma viagem ao Brasil, lembrou-se de ratificar o “acordo” entretanto adormecido e determinar a sua entrada em vigor. Como se os brasileiros se importassem alguma coisa com isso…
            O “acordo”, concebido por políticos e tendo apenas por fito interesses políticos conjunturais, mereceu e continua a merecer críticas quase unânimes da comunidade científica. Tem tantas aberrações – que ao longo de anos fui pormenorizando aqui – por causa disso mesmo.
            Parafraseando Clémenceau relativamente à guerra, a língua portuguesa é demasiado importante para ser deixada nas mãos dos políticos.

          5. Argumentos como o de Lavoura, acima (suponho que, pudesse ele, também sacaria da pistola quando lhe falassem de cultura), e de Jo , são exemplos da inutilidade da discussão com pessoas como eles. São posições dogmáticas, cegas e surdas à razão e à demonstração do absurdo em que laboram. Definem quem as adopta e as acha bastantes para fundar de boa-fé uma atitude.

            Mudança, pela mudança. “Modernidade”, pela “modernidade”. Indiferentes a contradições gritantes e elementares (como acontece com a alegada simplificação e uniformização, desmentidas exuberantemente pela realidade), defendendo, nem que seja porque sim, uma causa indefensável.

            Falta-lhes a invocação expressa do derradeiro (e muito provavelmente decisivo) argumento: o de que os custos do abandono do disparate ortográfico seriam muito elevados e há já uma geração de estudantes que aprendeu a escrever conforme o AO90 , sendo desumano obrigá-la a alterar essa aprendizagem. Argumentos aliás potencialmente muito sólidos perante um povo particularmente indiferente à educação e cultura.

            Mesmo que por cá (e talvez por isso mesmo) se ache muito bem o esbanjamento de milhões e milhões em inutilidades absurdas e criminosas . Sem qualquer esboço de comoção popular.

            Costa

          6. É curioso: esses tais que argumentam que os custos do abandono do AO90 seriam muito elevados por haver já meia geração de estudantes que aprendeu a escrever conforme as novas regras são os mesmos que se estiveram nas tintas para as gerações de estudantes anteriores que aprenderam o português na grafia pré-acordo e se marimbaram nos custos de toda a ordem gerados por esta mudança.

  5. Uma coisa é certa, o AO nunca harmonizará a forma de escrever entre Portugal e Brasil, logo não pode ser considerado um verdadeiro acordo.
    Exemplificando, li ultimamente uma versão brasileira de “Marcovaldo ou As Estações na Cidade” de Italo Calvino. No Posfácio escreveram que “A cidade (onde se passam as estórias) nunca é nomeada” mas presume-se italiana: “por alguns aspectos poderia ser Milão, por outros (…) pode-se reconhecer Turim, a cidade onde o autor passou grande parte da sua vida”.
    Mas, para mim, pela leitura que fiz da tradução para português do Brasil, a “cidade” só pode ser brasileira porque só lá é que as crianças dizem “papai”, as pessoas dizem “ei, você aí”, só no Brasil podemos encontrar “bondes” em vez de autocarros e escrever “Cingapura”, em vez de Singapura e por aí adiante.
    Em conclusão e a meu ver, o objectivo do AO90 nunca será atingido.

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