«Não existe uma nova ortografia. Existe, sim, um acordo que destrói a noção mais básica de ortografia, a que vem descrita, com clareza e secura, no relatório académico que antecedeu o acordo de 1945: “não se consentem grafias duplas ou facultativas. Cada palavra da língua portuguesa terá uma grafia única. Não se consideram grafias de uma mesma palavra” (por exemplo: ouro, oiro; louça, loiça; touro, toiro, etc.). Pois a tal “nova ortografia” não só consente como multiplica à exaustão grafias duplas e facultativas. Antes dela, o Brasil tinha uma ortografia. Portugal também. Agora, têm um supermercado de palavras, muitas delas caricatamente deformadas, para usar ao gosto do freguês – o “escrevente”.
Ora Marcelo respeitou a ortografia (em vigor, já que nenhuma lei explicitamente a revogou) aprovada em 1945 com bases científicas. O que por aí anda é outra coisa. Chamem-lhe poligrafia, multigrafia, plurigrafia, arbitriografia, o que quiserem. Ortografia é que não. Por isso, se o senhor Presidente quiser poligrafar, poligrafe. Se não quiser, ponha algum tento nisto.»
Nuno Pacheco, no Público

já se escrevia em bom português antes de se estabelecerem regras fixas em 1911
há jornais do séc xix com 3 grafias diferentes no mesmo nº
A história repete-se, mas como farsa.
O Decreto 35.228, de 8 de Dezembro de 1945 define como escrever Português. Foi alterado pelo Decreto-Lei n.º 32/73
Como uma decisão da AR não se pode sobrepor a Decretos nem a Decretos-Lei, tal decisão é nula.
Um texto excelente, este. E que alguém chame à razão o Sr. Malaca. Pode ele defender até ao fim esta iniquidade que co-inventou. Mas não pode – porque MENTE (se é que isso por estes dias vale alguma coisa) – afirmar que é a lei. Não é, legalmente não vigora, como qualquer aluno de primeiro ano de Direito tem obrigação de saber.
Aliás seria interessante, ainda que meramente ocioso, é certo, conhecer a razão pela qual aqueles que nos querem impor isto não se deram ao trabalho de o fazer através do devido processo, dando-lhe ao menos uma máscara de legalidade formal: mera negligência (e a ser assim, cega e surda); desprezo pela legalidade (o que até explicaria essa cegueira e surdez)?
Medo não creio. Líderes políticos e assembleia da república (as minúsculas são deliberadas ), o mais que fazem é dizer, quando dizem, que a título pessoal não adoptam o AO90 e fugir afanosamente a uma posição séria sobre o assunto. O povo, largamente pouco mais do que analfabeto funcional e muito satisfeito com essa condição, faz na matéria o que lhe disserem para fazer, é-lhe na melhor hipótese indiferente a questão da ortografia, e achará sempre muito bem o que lhe apresentem como moderno ou lhe pareça influenciado pelo Brasil (que o Brasil se afaste do AO90 , mesmo que com o inenarrável fundamento de que se deverá ir ainda mais longe, é coisa demasiado complexa para os interesses populares).
Tudo vai correndo no sentido “sabiamente” determinado: o momento chegará em que se dirá (e já se diz) que afastar o AO9O seria causar uma confusão inaceitável nos “conhecimentos” entretanto adquiridos por uma geração de alunos e que por isso a coisa é irreversível. Tem que ser, independentemente mesmo do seu real (inexistente) mérito.
E a mediocridade vencerá pelo cansaço. É uma sua prática comum. E entre nós em regra muito bem sucedida.
Costa (Rui)
Sim, um texto excelente. Mais um do Nuno Pacheco, que continua a prestar serviço público.
O relatório académico que antecedeu o acordo de 1945 bem podia dizer que “Cada palavra da língua portuguesa terá uma grafia única”, mas o facto era que, segundo Vital Moreira, hoje mesmo no seu blogue, “antes do AO já existiam numerosas duplas grafias das mesmas palavras, não apenas quando havia duas pronúncias (loura / loira, louça / loiça, bêbedo /bêbado, organograma /organigrama, síndroma /síndrome, fêvera /febra, etc), mas também mesmo quando não havia (como, por exemplo, ruptura / rotura, carrossel /carrocel, urtiga /ortiga, etc.)”.
Repare-se aliás como a frase do relatório académico traduz uma visão ditatorial e centralista da língua, coisa que boa parte dos opositores ao AO diz rejeitar.
E as duplas grafias que aponta conviviam sem repugnância com a norma, tranquilamente. Fosse, pela sua valia como regionalismo, fosse pela sua relevância como tradição, fosse pela sua sedimentação ainda que arcaísmo e assim credor de respeito, fosse pela sua distinção cultural (como o Rio Doiro de Torga).
Conviviam pacificamente com essa referência, para si ditatorial, para o autor do texto (e muito bem) “aprovada em 1945 com bases científicas” (se bem que se possa mesmo discutir que vantagens – para lá de uma simplificação: e isso não pode fundamentar tudo – verdadeiramente resultaram da larga amputação das marcas greco-latinas da nossa grafia). Uma norma que não hostilizava nem reduzia ao ridículo as grafias anteriores. Antes estabilizava uma referência, gradual e cientificamente fundamentada.
Referência que tinha – tem (porque é aquela que legalmente vigora) – por bases fundamentos científicos, enquanto o AO90 tem-nos confessadamente políticos e, neles se escorando, manda a ciência – e a simples e elementar lógica e coerência) às urtigas. Ou pior. E como se vê, desde logo pelas posições de M. Casteleiro, nem na mera legalidade formal se escora. Dir-se-ia mesmo que a legalidade lhe é irrelevante, desprezando ainda, arrogantemente e como anacronismos sem a menor valia, donde varrendo-os, tudo aquilo que o antecedeu.
A visão “ditatorial e centralista” que o Lavoura invoca resulta da evolução natural, gradual, ao longo de gerações e contida por balizas científicas, do português europeu, convivendo em pé de igualdade com o português sul-americano e com o que viesse eventualmente a decorrer da evolução ortográfica das variantes africanas (e não só) do português.
Aquilo que o Lavoura fervorosamente adora, sabe-se o que é: uma coisa cientificamente sem nexo e que potencia o que afirma pretender evitar, uma genuflexão submissa e humilhante perante o absurdo critério da demografia (seria interessante saber se ingleses, espanhóis ou franceses aceitariam tal coisa; mas presumo que sejam povos grosseiramente incultos, culturalmente irrelevantes) e que, afinal, aqueles que por esse mesmo critério imperam pura e simplesmente desprezam.
Genuflexão submissa, humilhante e além disso estúpida e inoperante face aos objectivos invocados – exibam os seus mentores as credenciais académicas que quiserem -, pois se uma ortografia única até pode no limite ser imposta, literalmente à força se necessário (e vê-se como duas meras “resoluções” puseram quase toda a imprensa e muitos autores e editoras de joelhos; o que estará por trás disso…), não vejo como o mesmo se possa fazer quanto à sintaxe e ao vocabulário.
Talvez de facto com uma ditadura, Lavoura, com Comissários da Verdadeira Língua em cada esquina, cada café, cada escritório, cada sala e quarto, cada local onde estejam duas pessoas ou mais, com acesso aos escritos mais pessoais, mais íntimos de cada um. De certa forma a hipótese já foi teorizada: chamou-se-lhe “newspeak” (novilíngua, por cá).
O Lavoura leu?
Costa (Rui)