Reflexão do dia


Pedro Correia,

«Lendo o texto de Jorge Miranda (escrito segundo o AO90 [Acordo Ortográfico]), reparo que, relativamente às constituições americana e brasileira e para indicar os artigos correspondentes, utiliza o advérbio de modo “respetivamente”, sem C. Partindo do princípio de que o Diário da República a partir de 1.1.2012 utilizará esta grafia, convido Jorge Miranda a ler atentamente o Diário Oficial da União (o homólogo brasileiro do DR) e a verificar que “respectivamente”, com C, é a forma usada. A partir de 1.1.2012, teremos “respetivamente” no DR e “respectivamente” no DOU. Actualmente, temos “respectivamente” em ambos. A divergência entre grafias é criada pelo instrumento que Jorge Miranda imagina como a concretização de “ortografia com um mínimo de diferenças”.

Espero que Jorge Miranda se tenha dado conta da simultaneidade da discrepância criada pelo AO90. Seria desnecessário repetir, mas por vezes é necessário: esta discrepância não existia antes do AO90. Além de “respectivamente” e “respetivamente”, temos também “receção” em Portugal e “recepção” no Brasil, “aspeto” em Portugal e “aspecto” no Brasil, “conceção” em Portugal e “concepção” no Brasil. Reparará que, actualmente e em ambas as costas atlânticas, se escreve “recepção”, “concepção”, “respectivamente” e “aspecto”. Estas divergências gráficas são criadas pelo AO90.»

Francisco Miguel Valada, no Público

15 comentários em “Reflexão do dia”

  1. Continuam obcecados com o Brasil e os brasileiros, os adversários do Acordo Ortográfico. É coisa que não lhes sai da cabeça, persegue-lhes os pesadelos.
    Seria bom se, em vez de pensarem tanto no Brasil e nos brasileiros, pensassem na melhor forma de escrever a nossa língua. Que é, evidentemente, a forma que está de acordo com a sua fonética.

    1. O que este artigo desmonta, tal como outros na senda deste, é a falácia sobre a “unificação” da ortografia. E com argumentos substanciais, não à base de conversa de café.

  2. Tem razão Pedro, com este acordo, qual qualquer um para para pensar (não, a falta do acento no verbo não é uma gralha).

      1. Sim Pedro mas, correndo o risco de me parafrasear, vejamos a segunda pessoa do singular em modo imperativo: ó, tu, para para pensar!

        Abraço

  3. Ave, Maria, que drama! Dupla grafia é dupla grafia: ambas as formas são válidas em todos os lugares, não há erro ao se grafar de um modo ou de outro (que existia nas ortografias separadas anteriores). A forma respetivamente é mais apropriada no P.E. por ser mais conforme à pronúncia, mas ambas são aceitáveis no futuro, tanto no P.E. quanto no P.B., pois a ortografia é unificada. Haja teimosia.

    1. Pois. Dupla grafia: é isso mesmo que eu defendo. E muita gente defende também. Aliás, é isso que existe agora. E assim devia continuar. Porque o acordo que prometia ‘unificar’ a ortografia afinal é uma mentira: não unifica nada.

      1. “Dupla grafia: é isso mesmo que eu defendo”

        É absolutamente essencial que a grafia seja dupla, para que nós, portugueses, um povo antigo e culto, não nos confundamos com os brasileiros, esse povo do Novo Mundo. Nem que tenhamos que escrever “mãi”, “pharmacia” e “bibliotheca” (é preciso defender a etimologia”!), dê lá por onde der, a grafia tem que ser dupla.

        1. O ‘acordo’ prometeu unificar a ortografia, o que – como está amplamente demonstrado por linguistas e lexicógrafos – não será alcançado. As ‘facultatividades’ irão instalar o caos ortográfico. O artigo que transcrevo ilustra bem como o legislador português, na desesperada tentativa de ‘abrasileirar’ a nossa ortografia, afasta-a afinal em casos significativos. Como nos casos apontados. A questão é esta e não outra.

    1. E quando analisamos as ‘facultatividades’, em função dos ‘parâmetros de oralidade’, que justificam a nova ‘norma ortográfica’, tudo se torna ainda mais complexo e mais obscuro. O que devia simplificar, complica. Bem à portuguesa, pelo menos nisto.

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