Reflexão do dia


Pedro Correia,

«As palavras de [Isabel] Jonet não são relevantes pela história acéfala que se seguiu, promovida pela grupeta (maioritariamente à esquerda) da indignação fácil e do ódio à ‘caridade’. Aqui basta olhar para o que Isabel Jonet tem feito nos últimos 20 anos no Banco Alimentar e compará-lo com as conquistas de sofá dos campeões do amor aos pobres, que agora clamam pela sua demissão (mostrando o monopólio que dizem ter do amor à ‘liberdade de expressão’). As palavras de Jonet são importantes por outra razão – porque representam a forma simplista de pensar de uma boa parte da direita portuguesa sobre as razões que trouxeram Portugal a este beco. É uma narrativa que toca num ponto certo – a responsabilidade individual das pessoas – mas que omite todas as restantes responsabilidades. É uma narrativa perigosa porque é tão simples, tão sedutoramente parecida com aquilo que os nossos pais e avós nos ensinaram (e bem).»

Bruno Faria Lopes, no i

3 comentários em “Reflexão do dia”

  1. Caro Pedro Correia,

    Sobre este tema, partilho convosco, o que escrevi na página Facebook do Antologia de Ideias:

    “O povo é sereno… até o mandarem trabalhar! Esta ambição de enriquecer trabalhando, não merece confiança, não venham cá com histórias. Pode até dizer-se que é como aquele mal que não vem só. Como se já não bastasse trabalhar, arriscamos a tornamo-nos num daqueles que mais adoramos odiar: um rico. Lá o viver ricamente, vá que não vá, e até somos bons na coisa. Agora ser rico, jamais!

    Mas não fica por aqui. Existem outras tiradas que fazem levantar da cadeira o mais sereno dos populares. Os mais afoitos que experimentem! Digam lá no café, ou na copa do escritório, que temos andado a viver “acima das nossas posses”. Ha! Sereno até ali, é vê-lo levantar-se e tirar as mãos dos bolsos, queixo levantado, em jeito de “ora diz lá isso outra vez!…”. Portanto, cuidado.

    Cuidado que, Isabel Jonet, presidente do BACF, não teve, coitada. Não apenas ousou dizer que desenvolvemos uma mentalidade despesista – na qual, sem pejo, inclui os próprios filhos – como veio sugerir que não existe miséria em Portugal. Estivesse ela no café teria levado na tromba, e era logo!

    Curiosamente, Jonet não insulta tanto os visados, quanto indigna aqueles que, ainda que vivendo mais apertados, falam de uma miséria que não é sua. Aqueles para quem a miséria – seja a acrescida, seja a de sempre – existe e não pode ser negada, nem mesmo relativizada. Não fora perder-se assim uma causa nobre pela qual se insurgir, agora que, “à rasca”, já percebemos que estamos todos. Mais um não-tema.”

    O Autor
    Blog: http://antologiadeideias.wordpress.com
    Facebook: https://www.facebook.com/antologiadeideias.wordpress
    E-mail: antologia.wordpress@gmail.com

  2. Nasci em berço remediado e não me posso queixar muito. Licenciei-me queimando as pestanas num tempo e num lugar onde não havia grandes baldas (o IST).

    Isto para dizer (por exemplo) que, nos locais de trabalho por onde fui passando, sempre me fez espécie encontrar pessoas de habilitações e remuneração inferiores (ou bastante inferiores) às minhas e que para lá se deslocavam sempre de automóvel, mesmo sem necessidade, o trocavam volta e meia, iam almoçar e tomar fora ene bicas durante o “horário de expediente”, vestiam roupa de marca, conheciam os restaurantes da moda, passavam férias em lugares mais ou menos longínquos ou exóticos, etc., etc., tudo coisas que sempre tenho praticado com moderação.

    Por outras palavras, levadas pelo crédito fácil e pelo que apelidarei de vaidade, viviam de facto muito acima do que podiam e meteram-se onde qualquer um com dois dedos de testa não poria mais que a biqueira do sapato.

    Se calhar, o defeito é meu e aprendi demasiado à letra o que os meus pais me ensinaram…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *