«Se em Portugal escrevermos ‘conjetura’ o que nos levará a pronunciar ‘conjétura’ (conjectura)? Só o esforço, não a regra. Tal como ‘receção’, para soar ‘recéção’ (recepção). Mas para quê queixarmo-nos se vamos ter, finalmente, uma grafia unificada? Não é fantástico? Ora imaginemos um exemplo em acordês, perdão, em português de grafia unificada:
“No momento atual, é cada vez mais polémico/polêmico o facto/fato de os casos de corrupção/corrução acabarem quase sempre em amnistia/anistia, sem que quem os pratica tenha de indemnizar/indenizar os lesados. É grande a deceção/decepção dos que leem notícias onde se regista/registra tal fenómeno/fenômeno, a que não escapam sequer os meios académicos/acadêmicos. Basta o simples facto/fato de contactar/contatar alguém que tenha conseguido intercetar/interceptar uma chamada telefónica/telefônica, mesmo subtil/sutil, entre quem planeia/planeja tais crimes, para percecionar/percepcionar o seu alcance. Uma sondagem/enquete recente mostra que tais casos se propagam mais do que o cancro/câncer ou a sida/aids, e que o facto/fato de cidades como Teerão/Teerã ou Moscovo/Moscou terem deixado crescer superestruturas/superstruturas oficiais que facilitam a projeção de crimes com essas características/caraterísticas, é perturbador para todos. Pena é que as medidas de coação a aplicar não sejam assumptíveis/assuntíveis em todos os sectores/setores da Justiça.”
Como se vê, as duplas grafias são pouquíssimas (neste texto inventado as primeiras palavras são as da dita ‘norma lusoafricana’ e as segundas da norma brasileira) e não se vai notar nada, perceberam?»
Nuno Pacheco, no Público

O que nos leva a usar consoantes mudas é que do Latim e das acentuações germânicas que ainda sobrevivem herdámos a necessidade de ter um marcador que abra a vogal antes da consoante – muitas vezes, inclusivamente, fazendo a acentuação exdrúxula ou grave da palavra. Um exemplo que demonstra muito bem esse efeito (necessidade): corretor e corrector.
Correcto.
Quando será que a Optimus adere ao acordo?
Passará a ser Otimus ou Ôtimus?
Se pretender optimizar o idioma, mantém tudo como está.
O texto de Nuno Pacheco é enganador, na medida em que altera a grafia de palavras que não serão alteradas. Por exemplo, “facto”, “corrupção” e “telefónica” continuam a escrever-se desta forma em português de Portugal.
Por outro lado, é facílimo apresentar-se contra-exemplos de palavras em que as vogais são abertas apesar de não terem consoantes duplas. Por exemplo, “pato” (a ave), “chato” ou “lato” não precisam de c antes do t, logo “ato” também não precisa. Da mesma forma “lata” e “nata”, logo “ata”. (Aliás, se “ata”, do verbo atar se escreve sem c, “ata” substantivo também se deve escrever sem c.) Portanto, não há qualquer regra em português que diga que uma vogal precisa de dupla consoante para ser aberta.
Não existe? Se calhar existe… e tem a ver com o tipo de consoante que precede a vogal.
O Luís Lavoura nunca deve ter ouvido falar em etimologia. Pato e pacto, para ele, tanto faz. O texto do Nuno Pacheco é exemplar precisamente por demonstrar que o pretenso ‘acordo ortográfico’ destinado a ‘unificar’ a ortografia portuguesa com base na oralidade não unifica nada. Pelo contrário, as ‘facultatividades’ são tantas que só servem para ‘desunificar’ ainda mais a grafia.
(numa coisa estamos de acordo: chato não necessita de consoante ‘muda’ para ter um A aberto)
A etimologia é algo que progressivamente é, e deve ser, abandonado na ortografia. Não se pode eternamente escrever uma palavra de forma arcaica, da forma como ela era originalmente.
Há muitíssimas palavras que têm significados diferentes com a mesma grafia. “Pacto” e “pato” não serão casos únicos.
Toda a gente concorda que o acordo ortográfico não unificará a ortografia. Apenas eliminará algumas diferenças inúteis, porque sem correspondência na língua falada.
«A etimologia é algo que progressivamente é, e deve ser, abandonado na ortografia. Não se pode eternamente escrever uma palavra de forma arcaica, da forma como ela era originalmente.»
1 – Gostaria de saber a razão por que acha que devia ser assim.
É que, nas grandes linguas cultas, isso, simplesmente, não aconteceu.
Philosophy em inglês, Philosophie em alemão. Será que o termo do português do filosofia se modificou («evoluiu») devido à intensa actividade filosófica de Portugal e Brasil?
2 – E como se pode saber se é uma evolução?
No português do Brasil escreve-se e pronuncia-se anistia e indenização, ortografia e pronúncia que não ocorrem em qualquer outra língua. É uma evolução a que o resto do mundo não teve direito, ou o resultado de uma medida decidida por um comité, há 80 anos, e que me parece, a mim que não sou linguísta, um disparate de pedantes?
3 – O que são diferenças inúteis e com as distingue das úteis?
Recepção no Brasil e «receção» em Portugal seria uma diferença nova, introduzida pelo «acordo». É útil ou inútil?
A mudança dos nomes dos meses de maiúscula, como se pode observar no New York Times ou no Público para minuscula, como se lê no Poconews, jornal de Poconé, Mato Grosso, é uma mudança útil ou inútil? É uma evolução, ou, como penso, uma imposição desabelada que lembrou a alguém, num momento de tédio? Qual a razão que subjaz?
No ‘acordo’, as chamadas “facultatividades” (termo quase obsceno) permitem a dupla grafia em centenas de casos. Ou seja: o único objectivo desta medida, que seria unificar a grafia de língua portuguesa, não é concretizável. Há certamente pessoas a lucrar com isto. O nosso idioma não ganha nada.
“A etimologia é algo que progressivamente é, e deve ser, abandonado na ortografia. Não se pode eternamente escrever uma palavra de forma arcaica, da forma como ela era originalmente.” Esta afirmação é de uma arrogância extrema, para não dizer absolutamente incorrecta. Desde quando é que a etimologia é abandonada numa língua? E mais, quem é você para dizer o que na Língua deve ser abandonado, é útil ou é inútil?
Curiosamente, na última reforma ortográfica foram abolidos uns acentos que eram muito úteis mas de cuja utilidade hoje ninguém se lembra. Por exemplo, em “sòzinho” e “estùpidamente” havia uns acentos que serviam, precisamente, para abrir uma certas vogais. Desde 1973 que esses acentos desapareceram e toda a gente continua a pronunciar as vogais abertas sem necessidade deles. De onde se conclui que os acentos eram desnecessários – tal como o são as consoantes duplas.
Esses acentos graves nos advérbios de modo abolidos na mini-reforma ortográfica de 1973 não se destinavam a abrir vogais, Luís Lavoura. Destinavam-se apenas a ‘desfazer’ o acento agudo dos adjectivos que davam origem aos advérbios. Isso nada tem a ver com a polémica actual. Nada de nada.
Sejamos claros: aquilo que leva muita gente a opôr-se à nova ortografia não é qualquer razão racional, é apenas e tão-somente o facto de ela ter sido acordada com o Brasil e o facto de ela ir tornar semelhantes as grafias portuguesa e brasileira de algumas palavras. É esse facto que é insuportável para muita gente, e mais nada. Trata-se basicamente de xenofobia ou, mais especialmente, de horror aos, e desprezo pelos, brasileiros.
Também se poderia dizer que a única motivação para os que não se opõem é a inversa. De facto, nada disto tem a ver com a língua, e é aí que está o problema.
Tem a ver com a língua – é conveniente, sobretudo para o ensino da língua nos PALOPs, que haja uma grafia o menos diversa possível. Isso é também conveniente para que a língua possa ser utilizada internacionalmente.
É também conveniente, para o ensino da língua em geral, que a sua grafia seja o mais simples possível, e isso implica a eliminação de letras mudas.
OS PALOP e Portugal têm a mesma ortografia! E não podem aprender por livros brasilerios, porque a sintaxe e o léxico do Brasil são diferentes.
Conviria que não houvesse desculpas destas.
Por outro lado, a «grafia simples» nada tem a ver com a aprendizagem, já que a percepção da palavra é global, como há muito se suspeitava e hoje está provado. Essa desculpa, que talvez pudesse ser honesta há 130 anos, quando houve a moda da “ortografia científica”, é hoje em dia um triste sinal de desconhecimento das descobertas científicas dos últimos 30 anos.
O problema do ensino da língua nos PALOP é um problema deles – devem ensinar português como bem entendem e não como Portugal ou o Brasil entendem que deve ser. Para ser mais fácil ensinar a língua, por outro lado, deve estar-se o mais próximo possível da etimologia. A razão de aprender qualquer coisa é exercitar o miolo e não fazer-lhe festas.
Quanto ao uso internacional da língua… não me venha com essa, omem.
A nova grafia terá este efeito perverso adicional: vai afastar ainda mais a pronúncia brasileira-padrão da portuguesa-padrão. A abolição das pretensas consoantes mudas levar-nos-á, deste lado do Atlântico, a fechar ainda mais as vogais do que já as fazemos, designadamente no português corrente na zona de Lisboa.
A questão da xenofobia nada tem a ver com esta polémica: é puro disparate trazer esse argumento aqui. Como alguém já sublinhou nesta caixa de comentários, e muito bem, a recém-falecida professora Maria Lúcia Lepecki, brasileira de gema, era uma firme opositora do ‘acordo ortográfico’.
Xenofobia o tanas. Isso é conversa do bloco para criar “culpa” e deturpar a questão, como é costume. A verdade verdadinha é que o AO é MAU. E as línguas não têm que ser uniformizadas – têm que ser livres. Só por uma pinha infectada com Lukács é que passa uma coisa destas.
A língua não é uniformizada, apenas a sua grafia o é, e mesmo essa, só até certo ponto (há palavras que continuarão a escrever-se de forma diferente nas diferentes versões do português).
A língua falada continua a ser livre de evoluir.
As diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil ocorrem sobretudo ao nível do vocabulário e da sintaxe. Nada disto é ‘uniformizável’. Aliás, ainda bem que assim é. Uma língua só enriquece com as suas diversas cambiantes. ‘Unificá-la’ por decreto, contra o parecer de grande parte dos lexicógrafos, dos escritores e dos editores, é um delito de lesa-cultura. Aliás, nada se unifica: a dupla opção gráfica, como o Nuno Pacheco bem sublinhou, só servirá para baralhar ainda mais os espíritos. E fará algum sentido abolir o P de Egipto quando se mantém em egípcios?
Este é apenas um dos inúmeros disparates contidos no ‘acordo ortográfico’. A que prefiro chamar aborto ortográfico.
Eu ia meter a colher nesta sopa, mas já disseste tudo o que eu poderia dizer, Pedro, e melhor ainda do que eu o diria. Acrescento apenas que é por estas e por outras que o velho Latim faz muita falta nas escolas.
Mas o que o texto de Nuno Pacheco ilustra é que não há unificação alguma da ortografia! Um documento que um português, um angolano, um moçambiquino, um guineense, ou timorense, por um lado, e um brasileiro, pelo outro, tenham de subscrever usa «fato» ou facto? Não quer dizer que em Portugal se escreva «fato», mas que essa não é a única grafia – e as duplas grafias não só não acabam como aumentariam para dezenas de milhares, onde hoje não existem! Algo como 62 000!
Por outro lado, o «apenas a sua grafia». Parece que a ortografia seria um aspecto menor, uma mera capa. Não é assim! Ao contrário do que se pensa, «é a aprendizagem da escrita que faz emergir a consciência fonológica e não o contrário» (Prof. António Emiliano, in «O Fim da Ortografia».
Ainda a “evolução”: as obras científicas ou literárias mais contemporâneas escritas em qualquer país anglo-saxónico, são escritas na ortografia que era usada há 200 anos… A evolução da língua não passa pela ortografia, que quanto mais bem conhecida, menos muda. Eça mudou a língua portuguesa sem precisar modificar uma única regra de ortografia.
Muito bem, VSC. Eça é que é essa.
Sejamos claros: embora o nacionalismo brasileiro seja extremamente agressivo e com evidente expressão na ortografia (http://www.filologia.org.br/revista/art igo/5(15)58-67.html), quanto a mim recuso o «acordo» simplesmente por não ser necessário, como bem dizia a agora desaparecida Profª. Maria Lúcia Lepecki (conhecida xenófoba…).
O «acordo» não é, de facto, necessário (nem contribuírá para tornar reais as demenciais e imperiais manias das grandezas deste e do outro lado do oceano).
É por ser um acto irracional e fútil, típico de «élites» de países pouco desenvolvidos e dados a ditaturas que nunca houve nada de igual ou sequer vagamente parecido no inglês, no francês ou no castelhano.
O que é necessário, ao invés deste entremez de mau gosto? Necessário é, em todos os países lusófonos (a começar por Portugal e Brasil), acabar com o analfabetismo e a iliteracia. Mas isso não se faz por decreto, nem por acordo, nem em cimeiras, nem mutilando palavras em sessões solenes. São necessárias somente coisas maçadoras e baças: trabalho árduo e anónimo e perseverança de professores e alunos.
Claro que não é necessário, é apenas conveniente e racional.
É conveniente porque simplifica a escrita e a aproxima da forma como as palavras são pronunciadas – o que é a norma na língua portuguesa, onde em geral as palavras se escrevem como se pronunciam.
É conveniente porque facilita a aprendizagem do português e evita erros. Por exemplo, evita o erro de escrever “contracto” em vez de “contrato”, como eu tenho repetidamente visto escrever.
«a norma na língua portuguesa, onde em geral as palavras se escrevem como se pronunciam»
Como ensina o Prof. António Emiliano, se bem o interpretei, isso nunca aconteceu, a não ser, muito parcialmente, nos primórdios, há muitos séculos…
De acordo. Contra o ‘acordo’.
No caso do texto em questão há variadíssimos exemplos que só são explicáveis pela imaginação do autor e não por uma qualquer disposição do Acordo Ortográfico.
Como exemplos: “facto/fato” em que não há qualquer mudança ou “Moscovo/Moscou” que tampouco sofre alterações…
Não percebo se a intenção será a de apoiar a continuação da edição em versões PT e BR ou algo assim.
Lamento que não tenha percebido a intenção do autor do (excelente) texto, que me parece óbvia: o ‘acordo’ que se destina a ‘unificar’ a grafia afinal não unifica nada. Topou, cara?
Não, não “topo” como é que é possível basear essa tal intenção do autor num conjunto de exemplos que simplesmente não o são.
O AO unifica onde tal é exequível sem provocar grandes distorções; e não o força nos casos em que manifestamente a conjugação das duas grafias seria excessivamente onerosa.
Acho alguma piada, aliás, que a par da oposição ao AO e até às suas intenções, se venha defender a importância de uma política de língua e de projecção internacional do português…
O ‘acordo’ não unifica. Ponto final.
Felizmente, durante um tempo teremos direito de ‘optar’. Olha só se era ‘otar’?! Mas até que é coisa de otários, este acordo.
Otar foi quase verbo, Laura. Quando o ‘novo aeroporto de Lisboa’ – maravilha imparável do anterior governo – esteve para ser na Ota. Depois, alcochetou-se. Mas tudo isso afocinhou na crise. Agora a tróica não dá abébias: o Aeroporto Mário Lino jamais passará do papel.
Excelente. Como se retirar as consoantes mudas uniformizasse alguma coisa. Dentro desta linha de raciocínio, há dois anos escrevi isto a propósito de um livro da Joyce Carol Oates: tml
http://escafandro.blogs.sapo.pt/47844.h
Ora aí está, José António. As principais diferenças entre Portugal e o Brasil, ao nível do idioma, registam-se no vocabulário – e aí não há ‘acordo’ possível. E é bom que não haja (aja?). Porque as diferenças enriquecem, não empobrecem.
Caro Pedro Correia: 8/02/29/linguista_portugues_denuncia_fal ta_de_vontade_politica_sobre_acordo_orto grafico-426023869.asp )
É o malaca – para esse faço questão em usar de liberdades ortográficas – quem afirma que o «acordo» é político e não linguístico (“Este não é um assunto de lingüística, é um tema político, algo muito importante do ponto de vista da língua no âmbito da lusofonia” – http://oglobo.globo.com/educacao/mat/200
Creio ser um pretexto, mas é por aqui que apanham os pobres políticos portugueses. Viu o Paulo Portas de olho brilhante a falar da língua no CPLP?
Pois é… Claro que tudo é desmontável, mas dá trabalho e apenas agora se começa a perceber o desastre que é o «acordo», celebrado apesar dos pareceres negativos da quase totalidade dos organismos oficais portugueses e que para tal alertavam.
Caro VSC: é sintomático que os programas eleitorais de todos os partidos políticos concorrentes às legislativas de 5 de Junho tenham sido escritos de acordo com a norma em vigor em Portugal e não em ‘acordês’. Incluindo os partidos que, por unanimidade, aprovaram o ‘acordo’ na Assembleia da República.
Isto diz tudo sobre a profunda rejeição do referido documento malaquês na sociedade portuguesa.
Pois, Pedro, mas a política não é exactamente um meio erudito. Fosse o AO favorito, e lá vinham os programas escritos segundo a nova norma (uma aposta?). Já muito comprometedor é que a actividade ‘legiferante’ das universidades, por exemplo, adopte o AO sem pejo, numa demonstração de modernidade formal tantas vezes incongruente com o seu estado criativo, inerte ou inexistente.
Nesta questão, para mim, o grande calcanhar de aquiles são mesmo as facultividades (será que somos todos ‘licenciosos’?): as tais divergências ortográficas permitidas em nome de uma política assente no paradigma oposto: o da unificação. Nonsense total, essa não engulo mesmo.