Há pessoas que partem cedo de mais. Aconteceu há um mês, com José Medeiros Ferreira. Neste Domingo de Páscoa apetece-me recordar a excelente entrevista que concedeu em Novembro ao jornal i, muito bem conduzida pelos jornalistas Rita Tavares e Luís Claro.
Nem entrevistado nem entrevistadores imaginavam, mas esta conversa acabaria por ter o valor de um testamento. Por ser a última entrevista do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, uma das vozes mais estimulantes das últimas quatro décadas da política portuguesa.
É um documento impressionante. Tenho-o arquivado na pasta dedicada às melhores entrevistas que já li. E hei-de citá-la com frequência nos tempos que hão-de vir. Porque Medeiros Ferreira, com a inteligência e a elevação intelectual que o caracterizavam, sabia falar para um tempo que já não seria o seu.
Deixo aqui alguns excertos. Todos de uma lucidez arrepiante:
«Em 1992 Portugal teve a primeira presidência da União Europeia e, por essa razão e não por qualquer raciocínio económico ou financeiro, resolveu aderir ao sistema monetário europeu, cujas negociações a Grã-Bretanha tinha declinado. Portugal avançou, mesmo aceitando uma taxa de câmbio que sobrevalorizava o escudo.»
«A primeira grande talhada na competitividade internacional da economia portuguesa foi dada pelos nossos negociadores financeiros: o ministro das Finanças e o governador do Banco de Portugal, no dia 4 de Abril de 1992.»
«O governo de Guterres até fez uma missa em Madrid e disse que sobre a pedra do euro – a literatura evangélica é muito poderosa, tal como a pedra onde Pedro assentou a Igreja – era aquela sobre a qual ia assentar a União Europeia. O euro foi uma âncora continental para a Alemanha, depois da unificação, ficar amarrada à União Europeia.»
«Tenho esperança na racionalidade do comportamento internacional dos Estados. Não tenho nenhuma esperança na capacidade de previsão programática ou na capacidade ideológica de uma social-democracia em frangalhos, desde que se tornou numa espécie de colónia do liberalismo. Quando os filhos dos sindicalistas passaram a ingressar nas boas universidades ocidentais perderam a liberdade de espírito.»
ADENDA: não celebro o título do Benfica, mas gostaria muito que José Medeiros Ferreira, benfiquista do coração, cá estivesse para celebrar a conquista do campeonato nacional de futebol.


Atente-se ao seu derradeiro escrito no córtex frontal.
Brilhante pensador até ao fim.
Também ele campeão!!!!!!!!!!!!!!!!!!!.
Vibrou com o futebol – isto é, com a vida – até ao limite das suas forças, como o blogue bem confirma. Demonstrando assim ter fibra de campeão.
Do pior que vi escrito por Medeiros Ferreira.
Onde a contradição do raciocínio se mistura com o elogio da aristocracia da classes sociais e da sua perenidade por alguém que teoricamente está contra a sua existência.
E a a completa ignorância – propositada ou não – de como o Estado é cada vez mais socialista reclamando no Séc.XXI mais e mais vastos poderes sobre a sociedade e as suas pessoas.
Fica como socialista registado ainda a sua preferência pelo direito do Estado à especulação financeira. Mas tal não é surpresa.
Sobre a liberdade de uma pessoa nada.
Aliás deve contar-se pelos dedos de uma mão as vezes que um político português se referiu alguma vez à liberdade uma pessoa apenas.
“Fica como socialista registado ainda a sua preferência pelo direito do Estado à especulação financeira.”
Fica registada a inteligência dele. Qualquer pessoa com meio cérebro percebe que foi o mercado desregulado e a liberdade especulativa que meteram o mundo na actual crise económica. Até Alan Greenspan , defensor dos mercados livros e Randiano puro e duro, teve de admitir que o desregulamento foi terrível para a economia:
http:/ http://www.nytimes.com /2008/10/24 business economy /24panel.html?_r=0
O Greenspan também é socialista?
“E a a completa ignorância – propositada ou não – de como o Estado é cada vez mais socialista reclamando no Séc.XXI mais e mais vastos poderes sobre a sociedade e as suas pessoas.”
Essa veia totalitária, que tão bem identifica, não é porém a essência do socialismo, pois ninguém pode afirmar com seriedade que esses poderes estão a ser reclamados para benfícios das pessoas, que são quem o socialismo deveria servir. O problema é que as instituições foram tomdas de assalto, num golpe invisível, por pessoas sem escrúpulos que entraram para elas sob a capa de serventes do estado mas com o intuito de as subverterem por dentro para os seus próprios fins. E esses fins, entre outros, são destruir o estado de forma a permitir que esses vastos poderes que tanto teme passem para as mãos de empresas e corporações, que apenas gostam de democracias no sentido em que elas lhes são úteis e não teriam quaisquer pejos em continuar a trabalhar em estados totalitários ou policiais, ou em regressar mesmo às condições sociais e laborias do século XIX, desde que isso não lhes afectasse os lucros.
“O Greenspan também é socialista?”
Certamente que sim. Greenspan foi um socialista monetário. Caso não saiba, descubra se os juros artificialmente baixos feitos pelo FED, BoE, BCE a que devemos adicionar os benefícios fiscais para o imobiliário é o quê?
Caso ainda não tenha notado a bolha especulativa foi e são os Estados.
Quer-se que eles façam tudo e isso é Socialismo.
“Essa veia totalitária, que tão bem identifica, não é porém a essência do socialismo”
O Socialismo quer igualdade quando não somos iguais, resultados iguais quando há resultados desiguais.
Pelos métodos e pela ideologia, por definição o Socialismo é necessariamente Totalitário e anti-Liberdade.
O Socialismo só respeitaria a Liberdade se aceitasse que quem não é socialista não fizesse parte. Não aceita. Obriga pela força do Estado a cada vez mais e mais.
Deve ser a única pessoa no mundo que considera o Greenspan socialista, então. Vá enviando postais desse canto escuro do universo…
O ano passado li Não Há Mapa Cor-de-Rosa, obra que achei bastante instrutiva. Já o tinha visto a comentar na televisão antes, mas apenas com aquele livro é que ele adquiriu, digamos, uma existência corpórea e intelectual para mim. Descobri-o tarde, evidentemente, mas tenho a certeza que continuarei a ler os livros que ele nos legou.
Esse livro funcionou como um testamento do pensamento de Medeiros Ferreira. Tenho pena, de qualquer modo, que ele não nos tenha deixado um livro de memórias. As pessoas que, como ele, vivem vidas intensas, variadas, interessantes, cheias de peripécias que se cruzam com acontecimentos históricos, em momentos irrepetíveis, deviam assumir a escrita de livros de memórias como obrigação cívica face às gerações posteriores.
Talvez a liberdade de uma só pessoa, diga apenas respeito ao seu intimo. Liberdade para matar é crime, porque atenta contra a espécie/sociedade, mas liberdade para matar outras espécies é necessidade de alimento, logo não ter liberdade para matar é equivalente a ter liberdade para o fazer, uma é tão necessária como a outra, pois ambas culminam em sobrevivência. Socialmente, o humano deixa de ser humano a partir do momento em que deixa de respeitar o próximo, porque a liberdade não é mais do que partilhar. As fronteiras variam, mas há limites impostos, e alguns são pela decência. Um deles é o de respeitar os mortos, pois afinal de contas estamos todos de passagem.
E em vez de apontar os defeitos, mudemos de perspectiva e aprendamos a aprender com quem morreu mas percorreu em vez de querer viver sem nada fazer.
Gostei muito deste seu comentário, Manuel. Apetece-me destacá-lo. E também gostei de visitar o seu blogue.
Obrigado pelo gosto, assim também pela visita. Esteja à vontade, o comentário é nosso.