Reconciliação histórica


Paulo Sousa,

Há algum tempo que tenho dado um enfoque especial à leitura de romances sobre a Guerra do Ultramar, entretanto rebaptizada como Colonial, e também sobre a maior movimentação populacional da nossa história que se lhe seguiu, e que trouxe ao nosso léxico o substantivo Retornado.

Não foi assim há tanto tempo e ainda é fácil de encontrar muita gente capaz de relatar na primeira pessoa detalhes do que então se passou. Não cultivamos a nossa memória e este período histórico será mais uma das vítimas do desprezo com que tratamos o nosso passado comum e os seus protagonistas.

A leitura dos livros Olhos de Caçador de António Brito e Nó Cego de Carlos Vale Ferraz leva o seu leitor a mergulhar no quotidiano de uma geração arrancada das suas terras e lançada para os confins do império, do qual conheciam apenas os contornos geográficos observados nos mapas suspensos na sala da instrução primária. À imagem da composição social da época muitos destes soldados eram originários de um Portugal profundo, pouco instruído e pouco esclarecido. O serviço militar levou-os a travarem conhecimento com gente de todo o país, a ouvirem os seus sotaques e a conhecerem as suas particularidades. Muitos chegaram à tropa analfabetos e de lá saíram com conhecimentos técnicos que lhes permitiram mais tarde exercer profissões a que não teriam acesso sem a formação que ali receberam. Mas atrás deles ficaram milhares de outros, mortos, estropiados e deformados para o resto das suas vidas. Definitivamente ninguém regressou igual ao que foi, tendo muitos deles nem sequer regressado.

Estes romances transmitem uma vivência muito intensa, seja quando a narração respeita à tropa macaca, os aramistas, os que nunca saíam de dentro do arame farpado dos quartéis, seja quando a acção é perpetrada por tropas especiais, que faziam incursões pelo mato adentro. Ambos os autores levam-nos para o dia-a-dia dos soldados que cumprem ordens emanadas por oficiais superiores formados em tempo de paz e por vezes mal preparados para lidar com uma guerra assimétrica, travada entre tropas regulares e forças dispersas apostadas apenas em flagelar e desaparecer. Além das inúmeras baixas que estas flagelações provocavam, a ansiedade da espera pelo próximo ataque alimentava a dúvida moral assente na pergunta O que é que estamos aqui a fazer?

As opções políticas de então, enquadradas na geopolítica da época, colocou estas dezenas de milhares de portugueses no lado errado da história e isso apenas acentua o drama da condição do soldado que assenta na sujeição e na obediência do que demasiadas vezes parece não fazer sentido.

Tendo de combater com as limitações logísticas resultantes do embargo internacional a que Portugal estava sujeito, estes soldados preencheram com o seu sacrifício tudo o que lhes faltava e que não era apenas armamento. A imensidão dos espaços e a progressão lenta dos reabastecimentos perturbavam profundamente o seu conforto físico, onde o acesso a refeições regulares e a água potável nem sempre estava assegurado. Haverá certamente quem discorde com esta minha descrição, até porque não é baseada em experiência pessoal, mas apenas na leitura destes romances, mas afinal de contas todos podemos exprimir também uma opinião sobre a Implantação da República, e sobre esse acontecimento estamos todos em pé de igualdade.

A acção de ambos os livros desenrola-se no norte de Moçambique, no que chegou a ser conhecido pelo Estado das Minas Gerais, onde as colunas militares chegaram a ter de lidar com mais de sessenta minas num único quilómetro. Esta arma silenciosa e furtiva, e que para desgraça dos povos mantém a letalidade muitos anos depois da guerra, atrasava durante dias deslocações que poderiam ser feitas em poucas horas. A pressão psicológica a que os picadores, que sondavam cada centímetro das picadas, estavam sujeitos era tremenda e sabemos hoje que mais de metade das baixas então sofridas foram causadas por minas.

O esforço de um pequeno país em manter três frentes de combate, tão dispersas e tão longínquas, não tem paralelo na história. Li algures que isso foi apenas repetido pelo Império Britânico e durante muito menos tempo. A variável mais importante que permitiu tal feito foi o esforço, a obediência e o sacrifício dos soldados portugueses. A sua resistência e frugalidade já a traziam da vida difícil que sempre tinham tido no Portugal salazarista. Estou certamente a ser demasiado simplista, mas este é sentimento que sobra após estas duas obras.

Depois de tanto sofrerem, pela imensidão da distância aos seus sítios de origem, aos seus entes queridos e por terem sentido o absurdo da guerra, embora nem todos na mesma medida, esta geração regressou a um Portugal diferente daquele que tinham conhecido e que então se reinventava. Apesar desta reinvenção ter sido desencadeada pela mão das Forças Armadas, a nova narrativa não reservava o espaço de reconhecimento que esta multidão de gente merecia.

Na vida de demasiados destes portugueses, e das suas famílias, a guerra continuou a consumir-lhes os dias e as energias atormentando-os por muitos mais anos. Todos conhecemos quem tenha sofrido, ou ainda sofra, de Stress Pós-traumático, e isso é algo que o país demorou demasiado tempo a dar a devida importância. Se não se fizesse tanto por esquecer tudo isto, aquilo porque estes soldados passaram deveria até entrar nas comparações dos debates actuais sobre a violência de género. O esquecimento é apenas mais uma camada de violência.

Através d’O retorno de Dulce Maria Cardoso e d’O último ano em Luanda de Tiago Rebelo, revive-se o choque de quem teve de abandonar tudo o que tinha, de quem simplesmente fugiu para salvar a vida, sem nada nas mãos, alguns para uma terra que nunca tinham pisado e onde não conheciam ninguém. Nem todos se adaptaram bem ao que encontraram mas não duvido que o Portugal que somos hoje é também um Portugal moldado pelo que os retornados acrescentaram à “metrópole”, com a vivência que trouxeram, com o seu “fazer pela vida” que agora se chama empreendedorismo, e até pelo nível médio de instrução, que era bem superior ao do rectângulo europeu. Este acontecimento, que por si só já seria profundamente marcante, coincidiu com os anos quentes do PREC e com um nível de incerteza que hoje, para quem não viveu esses tempos em idade adulta, será difícil de imaginar.

O país mudou do paradigma imperial para a partilha da identidade europeia sem que se tivesse feito o luto pelo fim do que fomos durante quinhentos anos. Mergulhámos na Europa da CEE, e mais tarde da UE, mais num golpe do desenrascanço que nos caracteriza do que por uma convicção sentida e vivida. Vendo bem, a nossa atitude quase não difere da desse meio milénio. Já não vivemos à custa de outros territórios, mas vivemos à custa dos impostos que outros pagam. Mudou a origem da riqueza, mas o mamar é o mesmo. Talvez por isso, não valha mesmo a pena fazer luto por coisa nenhuma.

Ainda assim, e porque gosto de registos históricos, deveria ser lançada uma campanha que promovesse e premiasse a elaboração de registos das memórias pessoais do que então aconteceu. Poderiam ser elaborados relatos escritos, poder-se-iam reunir e digitalizar fotografias, aerogramas ou simplesmente recorrer a gravações de áudio num normal telefone para registar conversas entre quem viveu esses tempos. Muito há ainda para registar. Como sempre são os pequenos detalhes que acrescentam a dimensão humana aos frios livros de história, onde se incluem os que ainda não foram escritos. O que nunca for dito será como se nunca tivesse acontecido. Mesmo havendo quem prefira enterrar no esquecimento alguns traumas pessoais, o país precisa de se reconciliar com este passado historicamente tão recente. Precisávamos de uma ou duas dúzias de romances passados nesta época assim como mais filmes e series. Talvez assim as gerações mais novas olhassem para os antepassados que por lá andaram e lhes reconhecessem o esforço e o sacrifício que fizeram pelo nosso país.

51 comentários em “Reconciliação histórica”

  1. É muito positivo que este post tenha focado esses soldados que foram para as colónias e aquilo que lá sofreram. É que, muitas pessoas da direita gostam de se focar no drama dos refugiados (de Angola, principalmente) e de não focar adequadamente o drama, a meu ver muito maior, daqueles que se lixaram para defender esses refugiados antes de eles o terem sido.

    1. Meter esquerda e direita neste assunto não ajuda a pacifica-lo. O país passou por um processo difícil em que muita coisa correu mal e alguma correu bem. É difícil separar as emoções dos factos mas com o passar dos anos isso acaba por se tornar mais fácil.
      Obrigado pela nota

      1. Esquerda/ direita faz sentido equacioná-lo antes demais.
        Ignorar que a esquerda quer fazer ver a acção militar no Ultramar como defesa dos que se tornaram retornados, como se constituíssem polos de ocupação em terra estrangeira, é querer tornar vítimas todos os participantes no esforço de toda uma nação.
        Ignorar que eram sociedades organizadas sob administração do Estado Português, em final abandonadas a bandos de incompetentes rapaces, é tudo a que a esquerda se propõe.

        1. Ainda vai demorar algum tempo até que seja possível avaliar o que aconteceu com seriedade. Enquanto se agitarem as paixões e as mágoas dos envolvidos nunca se conseguirá a frieza necessária para isso. Daí que nesta fase histórica importe maximizar o registo dos relatos na primeira pessoa.

    2. Quem ler este comentário isto fica a pensar que os portugueses que viviam nas colónias não faziam o serviço militar – ou que muitos “daqueles que se lixaram para defender esses refugiados antes de eles o terem sido” não acabaram por ficar a viver em África e a vir de charola em 74/75. A sério que julgava que essa cantiga dos “malandros dos colonos” já tinha feito o seu caminho, mas, como dizia o bardo de Argel, “há sempre alguém que resiste”.

  2. Andei por lá e se me é permitido deixo apenas duas notas para não ser exaustivo:
    -Mais do que as dificuldades próprias da situação descrita, deve merecer destaque o posicionamento dos países tidos como nossos aliados, que declaradamente se puseram ao lado das forças independentistas que nos combatiam.
    Tal pode não ter acontecido por razões de grande nobreza, mas mais por calculados interesses na exploração de riquezas naturais dessas paragens, com os novos Estados já na posição das justas independências alcançadas.
    Ao fim e ao cabo apenas pretendiam substituir-nos com uma forma de colonização embrulhada em papel de desinteressada prenda.
    -Assalta-me o pensamento de que o grande mérito do 25 de Abril que a todos conduziu para um espaço de liberdade e cidadania ativa consciente, foi ganhando corpo muito por mérito e ação dos milicianos que enquadraram as tropas mobilizadas, mais conscientes do que possa parecer, ao longo de mais de uma década.

    1. Sobre a primeira nota, é normal que assim tenha sido e isso aplica-se aos dois blocos. Ninguém dá nada a ninguém, e essa regra já tem uns anos.
      Sobre a segunda, é certo que sem a Guerra do Ultramar o regime teria sido muito menos desgastado e nunca saberemos que implicações isso teria tido na nossa história.
      Obrigado pelo comentário

  3. grande parte da África preta era ‘terra nullius’ ou terra de ninguém quando da chegada dos portugueses
    houve outras guerras
    basta ler Carlos Selvagem

    1. ‘grande parte da África preta era ‘terra nullius’ ou terra de ninguém….’
      Depreendo que “preta” será para sul partir da Mauritânia?
      Então era “terra de ninguém” ?
      E o grande Reino Mali de Mansa Musa, o mais rico Reino conhecido da história?
      E o grande Reino Mandinga das costas da Guiné?
      E o grande Reino do Kongo?
      E nunca mais acabávamos com as terras com alguém.
      Os Portugueses descobriram o caminho por mar para chegar a esses Reinos já conhecidos pelos povos beberes e árabes, ficando durante três séculos nas costas marítimas negociando
      com o povos desses reinos principalmente escravos.

  4. Portugal tem uma longa história de injecções de capital. Do comércio das especiarias, do ouro do Brasil, remessas de emigrantes, fundos europeus. Aquilo a que se chama agora de criar riqueza, nunca fez parte da identidade nacional, salvo raras excepções.
    Quanto à História-ciência, continuamos apaixonados, no bom e mau sentido, pelo Portugal Colonial. Pouco se fala da 1ª República, ou da Monarquia pós-Filipes.

    1. Talvez se refira ao fim do Império, porque o Portugal Colonial durou tantos séculos que coincidiu com os outros períodos que refere.
      O fim do Império é o mais recente de todos e como ainda há gente que pode contar as suas memórias, tem um interesse especial.

  5. Obrigado pelo seu post.
    Ainda andamos por cá milhares dos que andaram por lá obrigados.
    Faltou um pormenor, para fazer valer e acrescentar ao ‘o que é que andamos lá a fazer?’, é informar os mais novos, que estavam destinados aos vinte anos a ir prá guerra, em vez de serem utilizados no desenvolvimento do país.

  6. Sou suspeito, mas deixo à consideração: qual é a melhor fruta, a europeia ou a tropical? a maçã ou a manga? qual é a mais vitamínica, mais cheirosa, mais exótica? Falando de leões: leões só em África. E paisagens? O mais parecido em vastidão e horizontes com o planalto angolano o que temos em Portugal é o Alentejo, o resto é uma geografia demasiado humanizada. Bom, toda esta parcialidade para dizer que Portugal tem um contexto único, original em termos mundiais, porque – agora, vou falar de política -, esteve lá e… sonhou! Se perdeu ou venceu dependerá sempre do leitor, haja livros sobre essa época “colonial”, “ultramarina”, ou “pera”-“abacate”.

  7. Andámos por lá a defender Portugal e os portugueses e africanos que lá viviam, goste-se ou não. Hoje andamos pelo Afeganistão Iraque costa marfim congo sierra leoa a brincar à Onu. E a traficar diamantes

    1. ‘……a defender Portugal e os portugueses e africanos que lá viviam., ….’
      Então, os portugueses que lá viviam, viviam de quê? E durante treze anos fomos defender esses portugueses que lá viviam na Diamang, diamantes de Angola, ’tá bem que era extracção e comércio, e nunca houve tráfico?
      Os treze anos de guerra foi por cá geriatricamente entenderem tratar-se de um problema de polícia, quando deveria te sido estudado o assunto descolonização como fizeram os franceses e ingleses sem grandes convulsões sociais.

  8. Parabéns pelo texto que transcreve tufo que “vivi” em Moçambique, 1968/70, completando o serviço militar (obrigatório) qie iniciei em Vendas Novas em Setembro de 1966.
    Os “governantes ” deviam ler porque muitos “desertaram” e hoje aparecem como (heróis) dos últimos 50 anos.
    Parabéns. Laurindo Rodrigues.

    1. Laurindo Rodrigues em Setembro de 1966 em Vendas Novas?
      Aquilo é que foram três meses do caraças, acabando em Dezembro com os dias de chuva que nunca mais parava.
      E devido a essas chuvadas, coitados dos muitos que viviam em bairros de lata e morreram nas cheias, sem sequer haver um Cabrita para imputar responsabilidades.
      Filhos da mãe daqueles tempos, que valiam por temos vinte anos.
      Um abraço, ainda cá andamos.

      1. Rectifico, fiz confusão com o ano de 1966. Embora fosse de 1966 só entrei para a tropa em 1967, por isso estive em Vendas Novas de Setembro a Dezembro de 1967 ano das grandes cheias.

  9. Eu não vivi à custa de outros territórios, quem beneficiava da presença portuguesa no Ultramar seriam alguns colonos e umas poucas companhias monopolistas e não vivo à custa de impostos que outros pagam, pelo contário eu pago os meus. Para os impostos está-se a referir aos impostos que pagam os Europeus? Aos impostos que pagam as poucas companhias portuguesas que ainda existem na Holanda? Ou será aos impostos sobre lucros das companhias europeias a operar/vender em Portugal?

    1. Simplificando, com os riscos que isso acarreta, a nossa economia é financiada por dois tipos de receita. Os fundos europeus, milhares de milhões de euros ao longo das últimas décadas, e as dívidas que os nossos netos terão de pagar. O resto são detalhes.

      1. Ainda há pouco acima você numa resposta a um comentário deste post: “Ninguém dá nada a ninguém, e essa regra já tem uns anos.” E outros dizem “Não há almoços grátis”. Parece qu e na Europa estas regras não se aplicam a Portugal. Pelos nossos lindos olhos ou por razões misteriosas os Europeus enviam-nos gentilmente milhares de milhões sem receber nada em troca. Não acredito. E quanto às despesas para os nossos filhos e netos terão que contribuir com algum trabalho para as infraestruturas que vão herdar e que não caíram do céu.

        1. Em troca dessas transferências de capital fazem de nós compradores daquilo que produzem. De caminho perdemos também alguma soberania e no fim todos ficam sorridentes.

      2. Terá razão nisso que diz, ainda que – como nota – simplificando. O que só torna ainda mais insuportável o infrene saque fiscal a que é por cá sujeito quem não seja desesperançadamente pobre ou não possa lançar mão de estratégias e “engenharias” fiscais mais ou menos legais (o que, perversamente, acabará por atenuar, ainda que não aos olhos da lei – evidentemente -, a eventual culpabilidade, legal ou moral, de quem as adopta).
        Chegados ao ponto a que chegámos, e de que afinal a maior parte de nós reiteradamente gosta, a acreditar no que se vai sabendo, parece mais e mais legítimo invocar o desabafo de que se pagam impostos escandinavos para deles ter o retorno de um estado africano. É simples, é assim e tudo indica que assim continuará a ser: vivendo mal, vivendo de esmola estrangeira e, ainda assim, impenitentemente esmagados pelo fisco. Sem alívio, alívio substantivamente sério, à vista.
        Quanto ao que escreve no seu postal, é interessante lê-lo dias depois de terminar a leitura de “Um político confessa-se” de Franco Nogueira. A visão das coisas poderia ser já ao tempo largamente anacrónica (“os ventos de mudança” eram-no de facto, e de facto de resistência impossível; já quanto ao que esses ventos trouxeram, julgue cada um), mas o que aí se escreve sobre o neo-colonialismo que espreitava a sua oportunidade veio o tempo revelar absolutamente certeiro. E mesmo essa visão anacrónica, insustentável, está aí exposta com uma fundamentação, uma honestidade intelectual de que evidentemente se pode hoje (de que, dir-se-ia, se deve hoje) discordar. Mas que merecia por estes dias uma leitura, um estudo, um debate bem mais sereno e despojado de fanatizadas cegueiras políticas.
        Obras como essa, assim encaradas, bem poderiam contribuir para esse esforço no sentido de levar as gerações mais novas a “olhar para os antepassados que por lá andaram e lhes reconhecessem o esforço e o sacrifício que fizeram pelo nosso país”. Coisa que, sabemo-lo, não interessa para nada.

  10. Boa tarde,
    descendente dos primeiros colonos que saíram da ilha da Madeira para povoarem o planalto da Huíla e de beirões que no fim do século XIX, fui crescendo com histórias de muito trabalho e de muito sofrimento a que eram votados os portugueses que, aí, se instalavam.
    Muitas vezes esquecidos pela Metrópole. Todos amavam aquela terra como se fosse sua e assim o transmitiram às quatro gerações seguintes.
    Aconselho a ler, humildemente:
    Caraculo- Vitor Mendonça Torres
    Baía dos Tigres Pedro Rosa Mendes
    Costa dos esqueletos Rogério Amorim
    Senhores do sol e do vento : histoiras veridicas de portugueses, angolanos e outros africanos de José Bento Duarte
    Obrigada
    Anizabel Pinto

    1. Mas por que esse povoamento não teve a mesma “concretização” como no povoamento da América do Norte? Ou até na América do Sul com grandes surtos emigratórios?

  11. Os Retornados jovens e mais preparados com mais iniciativa para a vida, voaram em grande maioria para Brasil, EUA e Canadá, Austrália etc., por cá foi ficando principalmente quem estava na função pública e gente mais idosa.
    Tudo para fugir ao PREC, sem falar na fuga e prisões de banqueiros que hoje os seus descendentes estão lembrando as patifarias daquele tempo.

  12. Não auguro grande êxito ao seu desiderato. Simplificando (e muito mas a tal me autorizam as simplificações que igualmente faz) dividiria os combatentes do Ultramar em três categorias. Os que tinham ou adquiriram uma consciência social e histórica (simplificando, política), os que nunca a tiveram nem adquiriram e os que não cabem em nenhuma das anteriores. Começando pelos últimos, são os chamados casos particulares e deles não se pode esperar muito. Os segundos poderão contar as suas “estórias” mas seria mais um anedotário do que um repositório. Os primeiros poderiam de facto contribuir com dados para a história mas, nesses (em que me incluo) há mais desejo de esquecer do que de relembrar; sobretudo, a consciência de que houve uma envolvente, de facto muitas envolventes, é inibidora para um qualquer relato apenas factual que se reconhece sempre coxo.
    Finalmente “the last but not the least” salvo casos especiais de talento que permita mascarar datas, locais e nomes sem perda de valor documental, seria muito difícil relatar casos com relevância onde não tivessem também ocorrido comportamentos menos felizes e, para alguém responsável, ainda que tenha a coragem de relatar factos que não lhe beneficiem a imagem, em consciência não poderia fazê-lo em relação a terceiros envolvidos.
    De facto, não creio ser possível fugir ao anedotário, aí com largo universo de possibilidades.

    1. De facto o querer esquecer é um sentimento que também surge com frequência, não nestes romances, mas em conversas com conhecidos que por lá passaram. Entendo isso.
      O que chama de “estórias” ou anedotário, serão os pequenos acontecimentos que acrescentam humanidade aos frios dados que alimentarão a historiografia.
      No aspecto que aponta no final do seu comentário, os relatos, confissões ou denuncias destinados a serem lidos ou ouvidos daqui a muitos anos, e que nunca deverão ser revelados antes do devido tempo, esses são fáceis de assegurar e serão os mais preciosos no futuro.

      1. Não quero entrar em polémica mas há situações para as quais o devido tempo para o relato nunca chegará.
        Vou citar um caso real. Um militar em funções de comando morreu em combate. Na realidade era uma excelente pessoa e um dedicadíssimo chefe de família. Vi-o inúmeras vezes sentado à secretária apenas a olhar a fotografia dos filhos. Provavelmente, se não fossem questões económicas – o curso da academia militar era gratuito – não teria seguido a vida militar. As circunstâncias da sua morte – a única baixa na operação – indicam algum descontrolo de subordinados e, o que foi decisivo, a revelação da função de comando para tentar repor esse controlo. Um inimigo, escondido nos ramos de uma árvore, tendo um alvo valioso arriscou uma rajada e, por manifesto azar, uma bala foi mortal. Claro que foi abatido de seguida mas, naquele tipo de guerra, a morte de um comandante de unidade tinha repercussões no campo da propaganda inimiga e repercussões no moral de toda a unidade (pouco depois teria de ser transferida para um local sem risco até completar a comissão).
        Não sei qual o relato que vingou na família na Metrópole, se o de uma morte heróica em combate se o de uma morte traiçoeira mas sei que nunca seria eu a revelar aos filhos ou, já agora, aos netos, as exactas circunstâncias dessa morte.
        Com a experiência do conhecimento pessoal, posso garantir que grande parte das mortes em África, ocorriam por erro, facilitismo, etc., isto é, seriam evitáveis em teoria. Apenas em teoria, porque a realidade era o cansaço, a natureza do português, a insuficiência da preparação e a falta de oficiais, o que tornava erros e facilitismos inevitáveis de facto. Imagine-se, nas férias e impedimentos do capitão, um alferes miliciano de 24 anos a comandar “grosso modo” 150 homens em campanha e comandar efectivamente cerca de 90 em operações no terreno.
        O pior desastre na Guiné – salvo erro 47 mortos – ocorreu na travessia do rio Corubal na retirada de Madina do Boé. O que acontecia é que, apesar do maior risco de minas, todos queriam seguir na viatura da frente para evitar o desconforto da poeira. O desiquilíbrio terá causado o virar da jangada e a corrente e os jacarés fizeram o resto. Não estava lá e não sei se no comando estava um alferes comandante de pelotão se o capitão comandante da companhia; nem sei se a jangada tinha um patrão designado nem se a viatura estava mal imobilizada e deslocando-se provocou o desastre, mas sei que, com melhor supervisão, este desastre não deveria ter ocorrido.

        1. Não haverão dois casos iguais, mas um conterrâneo meu, e ex-combatente, além de já ter escrito um livro de memórias, publica regularmente crónicas do Ultramar no quinzenário local. Além disso identificou todas as baixas do concelho.
          Num dos casos, depois de ter confirmado a localização do local onde está sepultado um soldado, contactou a respectiva família sobre a possibilidade de o mesmo ser transladado para o cemitério local. A irmã, enquanto pessoa mais próxima, entendeu que apesar da estima que tinha pelo falecido e por considerar que tudo estava já arrumado cicatrizado e não aceitou a sugestão.
          Talvez os descendentes de oficial que refere gostassem se saber o que realmente se passou, mas entendo que nunca sabemos bem como lidar com estas coisas, nem como é que os outros lidam com estes assuntos.

  13. A ideia é boa, mas o grande problema por detrás dessa potencial campanha é o facto de muitas pessoas que passaram por esses eventos raramente quererem falar do que se passou. Já tentámos recolher histórias como essas no passado, devido ao seu óbvio interesse histórico, mas as pessoas ou nos contavam (infindáveis) histórias das chamadas “ex-colónias”, ou referiam quão difícil foi a sua vida quando foram forçados a voltar a Portugal. Tentar que falassem do interregno entre esses dois momentos levou, quase sempre, ou a que se pusessem a chorar, ou que simplesmente dissessem que não querem falar disso.

    1. Sabemos que muitos dos intervenientes, de uma forma ou de outra, ficaram magoados com a forma como as coisas correram. Talvez por isso, o depoimento para memória futura, isto é, que só fosse revelado a partir de uma data estipulada por quem o fizesse, acrescentaria muita informação revelante.

      1. O problema não é a publicação do que eles têm a dizer, mas pura e simplesmente conseguir que o digam. Nunca conseguimos. Se, por exemplo, não têm problemas em nos contar histórias, mitos e lendas de Angola e outros locais – e.g. a da Kianda, https://www.mitologia.pt/a-lenda-de-kianda-324149 – se tentarmos que falem daquele momento intermediário, não o fazem. Ponto. Ainda há dias falámos pensávamos nisto – uma pessoa que viveu em “Nova Lisboa” contou-nos uma história passada num autocarro – perdão, “machimbombo” – mas quando tentámos insistir para ela nos contar como foram os últimos dias por lá, a pessoa automaticamente desviou a conversa.

        Não queremos com isto dizer que nem todos rejeitem partilhar as suas histórias. Talvez alguns até aceitem fazê-lo. Mas na zona de Lisboa, em Bragança, em Alenquer, Évora, etc., não nos conseguimos lembrar de alguém que tenhamos conhecido e que se tenha sentido à vontade para nos contar isso… dizem, por exemplo, N histórias de onde viviam, contam o que se passou quando voltaram a Portugal – sempre, curiosamente, pautado com a referência ao Mário Soares ter recebido muito dinheiro para abandonar as ex-colónias – mas nunca falam do momento intermédio.

        1. Dulce Maria Cardoso, a autora de um dos livros que referi, numa entrevista televisiva (disponível em RTP Play) afirma que a idade de 11 anos que tinha quando veio para a Metrópole lhe permitiu registar tudo com uma frieza impossível para os adultos. É um ponto de vista interessante pois confirma o que temos aqui dito, que o trauma e as mágoas para quem fosse mais velho serão de facto imensas.

  14. substancialmente interessante. Nao só porque recordar é preciso, recordar é tambem viver.
    Destacaria um punhado de afirmaçoes contidas no post, como a classificaçao de “esquecimento”. E a coragem de afirmar que vivemos á conta do estrangeiro.
    Absolutamente defensor de que devem registar-se depoimentos, mesmo se só libertados ao publico, outro publico, que já nao nós.
    Nao assino as duas ultimas linhas, mas o post vale a pena.

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