A voz rouca do motor bicilíndrico quase que gritou quando enrolei o punho do acelerador. Em poucos metros já rolava velozmente numa sequência de curvas pela Estrada da Beira a fora. O sol estava esplendoroso, incidia de viés, sem perturbar a visibilidade, afinando quase ao máximo a intensidade das cores. O efeito pendular invertido da chamada força centrífuga, mudando de direção em cada curva, combinado com a velocidade e contrariado pela resistência aerodinâmica, era inebriante. Seria difícil melhorar aqueles instantes.
De repente tive a sensação que estava a conduzir na Capadócia, onde nunca estive.
Na primeira paragem, quando me apercebi, alguém tinha levado a mota. Como é que era possível? Adiei anos a aquisição daquela máquina. O acordo comigo próprio era que só o faria depois de ter os filhos criados. Pelo mesmo valor poderia adquirir um todo-terreno usado, talvez até um daqueles ingleses com uma personalidade vincada, e quando conseguisse inventar meia dúzia de horas livres, punha a malta toda lá dentro, subiríamos montes e atravessaríamos vaus com água até as rodas desaparecerem. Esse era o plano.
Como é que, depois de a ter, eu tinha deixado que alguém me levasse a mota?
Alguns instantes depois tomei consciência que estava apenas a sonhar.
Fonix! Ainda não foi desta que comprei a bike!
Que desespero! Que desapontamento!
E agora quem é que me compensa deste prejuízo?
Guardo esta frase de uma reportagem televisiva feita num inverno em que o repórter informava o país que em Dezembro estava frio. Serviço público, portanto.
Ao entrevistar uma senhora que se tinha espetado contra uma árvore depois de ter travado no alcatrão gelado, ela, indignadíssima, quase gritou aquela frase: “E agora quem é que me compensa deste prejuízo?” Aquilo soou-me como sendo um apelo a um subsídio qualquer, na senda do que é habitual ouvirmos após cada cheia ou vendaval.
Se achamos que cabe ao estado compensar-nos destes infortúnios, é porque frequentemente “eles” acabam por garantir que sim, que nos irão compensar. Se de facto o prometem e o fazem ou não, isso agora não interessa, mas na lógica aceite criou-se uma espécie de jurisprudência que obriga o estado a compensar-nos por azelhices, infortúnios e outras desgraças.
Na mesma lógica, quem é que me compensaria pela mota que me tinham roubado durante o meu sonho? É que não fazem ideia do meu desespero! Ficar apeado depois daquelas maravilhosas curvas era coisa para me fazer lembrar o Hulk quando começa a ficar verde, a dar murros no chão e a rasgar as vestes.
Isto é tudo um bocado ridículo. Os sonhos obedecem a regras que não entendemos. Relatar sonhos é enfadonho e por isso espero que me desculpem o abuso.
Antes de voltar a adormecer, dei por mim a reparar que o Estado já assume, e há muito, o dever de compensação pelos sonhos destruídos. O que é o Rendimento Social de Inserção senão uma compensação pela incapacidade do país em criar condições para que as pessoas se possam realizar, serem autónomas e felizes? Se a escola de quem pode pagar por um bom colégio é bem melhor que aquela destinada às classes médias e baixas, se a chamada escola pública não permite que os filhos dos pobres possam aspirar a coisa diferente, se a nossa titânica carga fiscal e o armagedão de regulamentos afasta os investidores internacionais para outras paragens, o que sobra para os pobres é viverem dependentes do RSI.
E o Estado, talvez sem dar por isso, o que faz mesmo é compensar esses cidadãos pela desilusão e esvaziamento que, com tanta regra, impediu que fossem evitados.

“E o Estado, talvez sem dar por isso, o que faz mesmo é compensar esses cidadãos pela desilusão e esvasiamento que, com tanta regra, impediu que fossem evitados.”
O que faz mesmo é torná-los subsídio-dependentes e capturar o seu voto.
É um ciclo que se auto-alimenta.
Paulo, na minha opinião há na sua muita razão. Porém, Paulo, não acredito na eficiência do Mercado,pelo menos neste actual, em assuntos de “justiça social”. Quantas rendas o Estado dá às empresas nos ditos benefícios fiscais? Já para não falar nos camiões de dinheiro vertidos sobre os bancos. A mão invisível, como todas as entidades potentes e sobrenaturais, é coisa que não me assiste (como dizia o Guedes).
Paulo quantas empresas mudam de nome de 10 em 10 anos só para continuarem a ter direito aos fundos europeus? Criam-se assim autênticas potestades
Os apoios que se exigem e considero adequados serão poucos mais do que não complicar tanto. Os apoios aos bancos deviam estar na mesma linha do apoio à TAP e deveriam ser nenhuns. O (não) apoio aos bancos à beira da falência na depressão americana, foi decidido pelo presidente de então com uma frase exemplar, deixem as folhas secas cair. É interessante como quem defende a intervenção no mercado acaba por o desvirtuar e perante o efeito perverso que causou, acaba sempre por culpar o mercado por essa perversão.
O BPN, BES etc deveriam ter sido deixados cair. Os sócios seriam lesados, mas apenas por terem escolhido ser sócios. Assim ficamos todos.
Sonhar com a Estrada da Beira… Informo que está tudo queimado de Coimbra até Celorico. Por culpa da Protecção Civil e do aparelho socialista.
E do indiano dos relatórios de Coimbra, que sugeriu tirar os bombeiros da linha do fogo. Agora andam a correr atrás deles feitos palhaços, se é que lá andam.
No meu sonho não tinha havido incêndio… era um sonho