Reciprocidades inconvenientes


Sérgio de Almeida Correia,

WSJ.jpg(WSJ, 05/01/2023)

Há dias, no noticiário da TDM-Rádio, ouvi que a “Liga dos Chineses em Portugal não vê razões para testes de COVID obrigatórios” para quem chega a Portugal. O seu presidente, o simpático e sempre solícito Y Ping Chow, veio logo dizer “que se trata de uma medida política, em muito má hora, nas vésperas das celebrações do Ano Novo Lunar“. 

Como estava meio-ensonado àquela hora fiquei na dúvida se o sujeito estava a falar a sério ou a fazer humor.

Confesso que não percebo a sua indignação, tanto mais que não me recordo, ao longo de quase três anos, a ele em Portugal e a muitos outros patriotas, “patriotas” e mercenários acomodados, em Macau, de o ouvir, ainda que ao de leve, criticar as políticas do Governo da RAEM e do Governo Central em matéria de controlo da pandemia. Além do mais, depois de eu próprio ter ficado seriamente limitado na minha liberdade e nos meus direitos ao longo de mais de dois anos e meio.

Perante a situação catastrófica que se vive na China [“Hundreds of millions of people have been infected in the space of just a few weeks, and many experts now expect the death toll to exceed one million. Chinese social media are being flooded with harrowing accounts of personal loss and images of overwhelmed hospitals. While the exact infection and mortality figures are unclear, the big picture is undeniable: the Chinese people are fighting to survive.“], com milhões de infectados, com aviões a chegarem à Europa com doentes de Covid e com eventuais variantes que se desconhecem no ar, aquela eminência da comunidade chinesa em Portugal veio a correr dizer que “se trata de uma medida política”, quando é certo que a Organização Mundial de Saúde já se queixou da falta de informação das autoridades chinesas, cujos dados, como aliás se tem visto em inúmeras reportagens, não têm correspondência com a realidade.

Também em Macau, de acordo com os relatos da imprensa com base em informações prestadas pela Câmara de Comércio dos Negociantes Funerários de Macau (a morte e a doença sempre foram bons negócios para alguns), o número de mortos é 10 vezes superior ao normal. Curiosamente, com tantos mortos, o número dos que morrem de Covid é ridículo na China continental e em Macau, o que me leva a pensar que se um indivíduo tiver o azar de ir parar a um hospital com uma unha encravada, lá contrair a infecção e depois falecer, as estatísticas dirão que morreu por causa da unha.

No entanto, os países europeus, os Estados Unidos, o Japão, a Coreia do Sul e outros, estão, em geral, apenas a pedir a apresentação de testes negativos e a realizar testes, aleatoriamente, aos passageiros que chegam. Não me parece que isto seja uma medida política e discriminatória em função da nacionalidade ou da etnia. Bem ao contrário do que aconteceu anteriormente, em que os estrangeiros foram simplesmente banidos de entrar na China e em Macau, e os que entravam por aí serem residentes eram obrigados a longas e dispendiosas quarentenas, pagando séries de testes e alojamento em hotéis, durante dezenas de dias, ainda que vacinados e testando sempre negativo à doença, antes, durante e depois de saírem das quarentenas.

Ao longo de todos estes anos, não obstante as medidas draconianas das autoridades de Macau e da China, nunca o senhor Y Ping Chow se manifestou contra as políticas discriminatórias do Governo central e das autoridades da RAEM, podendo até tê-lo feito em Portugal, esquecendo-se que as que agora estão a ser impostas só se devem à falta de transparência e/ou à ausência de informação que é prestada pelas autoridades chinesas.

Podia, igualmente, ter-se questionado sobre as razões – de saúde pública ou políticas – para que seja rejeitada a oferta de vacinas da Europa e dos EUA, quando se sabe que são bem mais eficazes do que as produzidas na sua pátria.

Já se percebeu, e é pena, que nestas alturas falte a algumas pessoas o discernimento – noutras alturas faltar-lhes-á a liberdade e a coragem, sobrando-lhes em hipocrisia, oportunismo e “patriotismo” – para dizerem aquilo que é correcto e justo, rapidamente esquecendo as verdadeiras razões (científicas) e os exemplos recentes, optando antes por se tornarem em megafones da propaganda oficial (que de um momento para outro descobriu que o vírus afinal já não era letal), em vez de adoptar idênticas regras, como a obrigatoriedade da realização de testes PCR antes da chegada ao destino, prefere retaliar suspendendo a emissão de vistos para quem se queira deslocar em turismo ou negócios, medida esta sim claramente desproprocional.

Talvez que se a Europa tivesse anteriormente usado da mesma bitola, ou imposto medidas retaliatórias, o senhor Y Ping Chow agora já não estranhasse a exigência de testes.

10 comentários em “Reciprocidades inconvenientes”

  1. Y Ping Chow reside em Portugal e nada tem que se pronunciar sobre as medidas que o governo chinês ou o governo macaense tomam. Ele tem que se pronunciar sobre as medidas que o govrno português – o governo do país onde ele reside – toma.
    A queixa do Sérgio parece-me, pois, despropositada.

  2. Em resumo é assim que os comunistas resolvem os problemas.

    Castigam os seus povos a privações desnecessárias, ao mesmo tempo negam os problemas até serem impossíveis de esconder e depois fazem-se de vítimas.

    É assim há 100 anos mas ve-se que esta forma de agir ainda consegue atrair muita gente. Foram várias as vozes que enalteceram as medidas que o governo chinês foi impondo, cujos resultados divulgados eram muito enaltecidos. Vai-se a ver e afinal era mais uma farsa comunista, mais uma a juntar a tantas outras…

    1. O governo de António Costa, por esta bitola, é comunista. Também ele castigou o povo português a privações desneessárias.
      Em vez de deixar a cada um o cuidado de se proteger, ou deixar de se proteger, do vírus – como deveria ter feito – adotou uma política comunista, de forçar toda gente a proteger toda a gente, impondo privações desnecessárias à maior parte das pessoas, dado que a maior parte das pessoas nada sofre com a infeção.

      1. Não é bem como diz. Meu filho e minha cunhada, ambos adultos saudáveis, estiveram à beira da morte. Trata-se duma infecção pulmonar severa.

        1. Eu escrevi “a maior parte das pessoas nada sofre com a infeção”. Isto é absolutamente verdade. O seu filho e a sua cunhada são exceções.

          É verdade que a covid-19 ataca, por vezes de forma muito grave, algumas pessoas jovens e saudáveis. Mas a imensa maior parte das pessoas não muito idosas e sem outras condições não se ressente minimamente de covid-19.

  3. a eminência da comunidade chinesa em Portugal veio dizer que “se trata de uma medida política”

    E trata-se mesmo. Os portugueses estão vacinados e nada têm a temer dos vírus que vêem da China. Os chineses podem vir para cá e infetar-nos a todos, porque nós estamos imunizados e portanto nenhum mal nos faz sermos infetados.
    Trata-se de uma medida clara de “China bashing”.

  4. En biología, un virus (del latín virus, en griego ἰός «toxina» o «veneno») es un agente infeccioso microscópico acelular que solo puede replicarse dentro de las células de otros organismos.n. 1​ Los virus están constituidos por genes que contienen ácidos nucleicos que forman moléculas largas de ADN o ARN, rodeadas de proteínas. Al infectar una célula, estos genes “obligan” a la célula anfitriona a sintetizar los ácidos nucleicos y proteínas del virus para formar nuevos virus

  5. “A China adiantou este sábado, 14 de janeiro, que registrou quase 60.000 mortes relacionadas com covid-19 em pouco mais de um mês, o primeiro grande número de mortes publicado pelo governo desde que flexibilizou as rígidas medidas sanitárias, em dezembro.”
    Parabéns ao Delito de Opinião por ter defendido medidas que resultaram em 60000 mortes. Um dia destes irão defender o que está certo. Hoje não é esse dia.

    1. Se o anonimato e a ignorância dessem dinheiro seria certamente milionário.

      Terão sido muito mais de 60.000, visto que falseiam as estatísticas, mas uma das principais razões será a ausência de vacinação e o uso de vacinas ineficazes.
      Por isso, assim que lhes deram oportunidade de sair correram para o exterior para se vacinarem com vacinas mRna produzidas fora da China.
      Não aprenderam nada com os outros em quase três anos de confinamentos e com a política de tolerância zero. E nem uma vacina mRna eficaz conseguiram produzir. Se tivessem permitido a sua população vacinar-se, importando vacinas como muitos outros fizeram, certamente que agora teriam sido muito menos.

      https://www.scmp.com/news/china/politics/article/3203625/coronavirus-cases-surge-mainland-chinese-head-macau-get-mrna-vaccine-unavailable-home?module=inline&pgtype=article

      https://pontofinal-macau.com/2023/01/09/turistas-chineses-escolhem-macau-para-vacina-mais-eficaz/

      https://macaudailytimes.com.mo/chinese-flock-to-macau-hong-kong-for-private-covid-booster-shots.html

      https://www.scmp.com/news/china/science/article/3202906/china-eases-zero-covid-fears-grow-human-toll-will-remind-hong-kongs-deadly-fifth-wave?module=inline&pgtype=article

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