Reaccionarismo automóvel


Paulo Sousa,

Vivemos num mundo em que a luta pelo controle das emissões de gases contendo carbono nas suas variadas formas se tornou banal ao ponto de se abdicar de energia barata, para a substituir por energia obtida de forma cientificamente mais elaborada e economicamente mais onerosa.

O mundo avança assim. Avança quando se procuram formas de obter o que não se tinha ou que se procura melhorar o que já existe. A evolução da tecnologia que está por de trás da capacidade que permite que os automóveis nos desloquem é um bom exemplo do esforço que se faz para reduzir a emissão dos referidos gases carbónicos.

Nas redes sociais é difícil evitar tropeçar em tantas das teorias que por lá rebolam pelo chão. Por força dos estudos de tendência de mercado realizados pelos marqueteiros, nenhum fabricante, por mais dúvidas ou certezas que tenha, pode sequer verbalizar a hipótese de que o rei possa estar a desfilar em pelota. Os tempos são de cancelamento e os lunáticos, quando revelados, precisam de ter sorte para que a respectiva punição não vá além de um par de fracturas expostas.

Eu, que me vergo às maravilhas que o capitalismo acrescentou à humanidade, mas que já cá ando há tempo suficiente para concordar que a sua fúria criativa deve ser monitorizada, acho que retirar um automóvel de circulação para o reciclar e substituir por outro por motivos ambientais, só será razoável quando os benefícios carbónicos dos novos carros forem muito superiores ao que existem nesse momento. Desde logo, pelo desaproveitamento que seria dar por perdido todo o esforço carbónico já feito no passado para que esse mesmo veículo exista. Quantas toneladas de carbono foram emitidas nos idos anos 70, 80 ou 90 para fundir o bloco do motor de um carro e de toda restante imensidão de peças? E quantas mais toneladas serão agora necessárias para o desmontar, peça a peça, de maneira a poder levar novamente alguns desses componentes às forjas e assim alimentar a tão idílico-poética economia circular? Considerando a informação relativa ao elevado custo carbónico da produção de baterias, e que tenho como válida, se um carro já “antigo” mantém a capacidade de cumprir as funções para que foi imaginado, a poluição marginal causada pelo seu uso é imensamente menor do que a necessária para o substituir.

Certamente que o que hoje se vai desenvolvendo e descobrindo, no futuro abrirá as portas a algo muito melhor do que agora existe e isso só será viável se as marcas automóveis continuarem a ganhar dinheiro. Apenas por esse ângulo de observação, pode fazer sentido encolher os ombros com indiferença, perante os torquemadas que gostam de encharcar este debate com fortes doses de moralidade e de fim do mundo.

Para além da questão carbónica, irrita-me a parafernália de funções e sensores que os carros modernos têm e que assentam na presunção da incapacidade do condutor em conseguir conduzir. Pelo contrário, não consigo deixar de apreciar os carros que me reconhecem certas capacidades. Poderei eu decidir se posso conduzir um par de quilómetros sem cinto de segurança? E, quando é preciso transportar um móvel de dimensões superiores às do veículo, terei capacidade de decisão sobre a possibilidade de poder circular com uma porta aberta? Os atestados de menoridade emitidos ad nauseam pelo “cérebro” dos veículos modernos servem pelo menos para desenferrujar o largo espectro do vernáculo da nossa maravilhosa língua.

O fecho centralizado de portas mais eficaz que conheço, funciona quando alguém, no centro do carro – e daí o “centralizado” – consegue trancar e destrancar todas as portas. Uma vez, com uma pedra, inventei um muito fiável sistema de cruise control e recordo-me com saudade dos muitos quilómetros feitos nas traseiras de uma velha Bedford CF sentado num banco de campismo, ou aos pés do lugar do morto, e de no Verão, quando aos domingos íamos à Nazaré, o meu pai ser incapaz de não dar boleia a todos quantos lhe esticavam o polegar. Numa dessas vezes éramos dezassete à chegada à praia.

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A nossa era quase igual, embora não tivesse vidros atrás.

É certo que eram tempos diferentes, em que não existia electrodoméstico avariado que não verificasse melhoras com duas fortes palmadas numa qualquer das suas superfícies. Duas ou quatro. Ou mais, desde que fossem em número par.

Disse-me um amigo que agora quando leva um saco de compras no banco do passageiro, lugar que por incompetência foi despromovido da patente de “lugar do morto”, tem de proteger as compras com o cinto de segurança, não para resguardar os vegetais, mas para tentar poupar o remanescente da sua parca sanidade mental, de tantos avisos desencadeados por um qualquer infernal sensor no assento.

Os fabricantes dos carros aspiram a que estes possam substituir as pessoas que nos querem bem e se preocupam connosco, o que é um tremendo abuso de confiança. Vai com juízo, põe o cinto, vai devagar para chegares depressa, veste um casaco mais quentinho que esse é uma pelinha de batata, tem cuidado com as correntes de ar, não vás para a rua em mangas de camisa a cortar a aragem, não fumes, se conduzires não bebas, se beberes não conduzas, se te der o sono pára para dormir e tem cuidado com as más companhias. Um dia todos estes mimos serão emitidos ao louvor de um qualquer dispositivo electrónico.

Por motivos que aqui não importam, não há muito tempo tive de comprar um carro. Desde o início do processo procurei um que não se quisesse armar em mais esperto que o dono. Após várias conversas e diversos testemunhos, arrisquei por um que pudesse transformar em bi-fuel, gasolina e GPL. É de origem japonesa, o que lhe augura muitos anos a circular, e na compra, fui sensível a uma chamada de atenção do vendedor relativa à caixa de velocidades, “é justinha e sem folgas, parece uma rapariga nova.” Tenho de confessar que estou muito satisfeito com o seu desempenho e baixo custo de utilização, assim como com o facto de ter custado seis ou sete vezes menos do que um desses sabichões salvadores do planeta e destruidores da paciência, que estão na moda.

18 comentários em “Reaccionarismo automóvel”

  1. aos 40 já ouvi e vi demasiado. espero ser substituído por um robô para ter momentos de ócio e uma bela reforma.
    o meu chaço é como o Mondego e grande parte dos tugas ‘baixos níveis de combustível’. já nem dá para ir a ‘enchara’ visitar o Bispo que deve a estar a ser ouvido pela Comissão

  2. Post muito longo, mas muito escasso em exemplos concretos daquilo contra que o autor se queixa. Muita parra, pouca uva.

  3. Não é por nada que existe a diferença entre carros e automóveis, os carros, a maioria deles, dos anos 70 80 e 90 continuam a rodar, sem tecnologias e etc.
    Mas esses também os querem extinguir e substituir por automóveis que se conduzem sozinhos.
    Há uns tempos disseram-me que os actuais electrodomésticos trazem um chip que ao fim de x horas de utilização vai à vida e o aparelho deixa de trabalhar, a reparação torna-se cara e o consumidor tem é mais que comprar outro

    1. disseram-me que os actuais electrodomésticos trazem um chip que ao fim de x horas de utilização vai à vida e o aparelho deixa de trabalhar

      Isso tem todo o aspeto de fake news, ou lenda urbana como lhe quiserem chamar.

      1. Não sei quanto a frigoríficos, aquecedores e batedeiras eléctricas. Impressoras, posso garantir com conhecimento directo que sim. A Epson e a Canon programaram alguns dos seus equipamentos com um número máximo de impressões a partir do qual se recusavam liminarmente a imprimir: a justificação dada era um consumível (o colector de restos de tinta) ter “chegado ao fim de vida útil” e a qualidade de impressão “se degradar”. Vi isto com uma Canon de um cliente e com uma Epson que foi do meu pai. Em ambos os casos, a solução foi procurar na internet um minúsculo programa que, gratuitamente, reprogramava o contador para mais 20% de impressões – pagando, seria possível fazer-lhe o reset. Três anos e múltiplas resmas de impressões depois, posso afirmar que ainda estou para ver qualquer degradação na qualidade de impressão da (agora) minha Epson.

  4. aos pés do lugar do morto

    Ainda há poucos dias vi, do alto da minha varanda, uma criança a instalar-se no carro assim, aos pés da mãe no lugar do morto.

    É impressionante a irresponsabilidade de pais que aceitam transportar os seus filhos assim, como se gado foram.

  5. Agora a União Europeia, sempre desejosa de exibir virtude ambiental, quer proibir a venda de quaisquer automóveis com motores de combustão interna a partir de 2035.
    Pergunto onde é que as pessoas a partir dessa data carregarão os seus automóveis elétricos. Pessoas que não tenham uma garagem com ligação à corrente elétrica e que tenham que estacionar o seu carro numa rua da cidade onde moram, onde carregarão esse carro? Será que até 2035 todas as ruas de todas as cidades estarão munidas de tomadas elétricas que permitam carregar os carros lá estacionados?

    1. É no que dá dar-se tanto palco e poder de decisão aos lunáticos neo-marxistas, globalistas e ultra-ambientalistas. Tenho para mim que a única coisa que vão conseguir é arruinar economicamente e socialmente o dito ocidente que se deixou capturar por este bando de ignorantes que se acha dono da verdade e rei e sr da moral. Aliás já está em curso com a estagnação europeia (pouco melhor nos EUA) e a ascenção não só da China mas também de outros como a Índia, países onde não há transições energéticas à força a dilacerar a competitividade das empresas com custos absurdos de energia. Estamos a cometer suicídio económico e as nossa elites completamente corrompidas por estas ideologias ainda aplaudem de pé.

      1. Realmente, não fora os neo-marxistas teríamos o fumo, tão simpático, das chaminés das nossas queridas fábricas e andaríamos todos contentes de escafandro. E as nossas queridas praiínhas com aquelas águas com vitaminas e balões brancos para as criancinhas encher.
        Malandros dos neo-marxistas que deram cabo de tudo, só querem modernices.

        1. E, não fora os não marxistas e teríamos as polícias tão simpáticas do regime sempre prontas a relembrar aos cidadãos os seus deveres e os insondáveis caminhos das 1001 virtudes do comunismo, alguns (muitos até), teriam direito a estâncias de férias em campos de reeducação. Não fora os não marxistas e teríamos a alegria imensa de ouvir a internacional todos os dias, de ceder todos os direitos enquanto cidadãos comuns ao todo poderoso estado sempre tão empenhado no bem de todos. Quiçá se não poderíamos viver todos numa espécie de Coreia do Norte?? Tão bom que seria ter-mos um querido líder para idolatrar!
          Enfim, calado eras um poeta, vires aqui com tretices sobre uma das correntes políticas e ideológicas que mais barbaridades cometeu na história recente da humanidade e que se pautou pela tragédia social, abusos de todo o tipo e miséria generalizada por todo o lado onde passou desde os miseráveis estados do leste europeu no pós-URSS, passando pela ultra miserável Coreia do Norte quando comparada com a do Sul e acabando no assassínio em massa perpetrado pelos khmers vermelhos no Cambodja com a morte de mais de 20% da própria população. O comunismo, por mais que o queiram negar, sempre levou à brutalidade e morte de muita gente nos países onde foi instalado e o resto são estórias da carochinha, por isso, que o mantenham bem longe!

      2. “Aliás já está em curso com a estagnação europeia”
        Já vem desde o início do século, por isso tivemos juros a 0% , impressão de moeda por crédito a rodos para construção porque é o mais fácil de fazer, não tem riscos tecnológicos que veio dar o crash de 2008. Agora fez-se uma bolha ainda maior…

    2. Vendo bem a questão, também não havia uma bomba de gasolina em cada casa.
      Não faltarão “tomadas” por todo o lado, para ligar os carros.
      A durabilidade dos objectos é medida em conformidade de como é ou com do que é produzida.
      Mal estaria a “gente dos negócios” se eu comprasse um fato pelo Natal, não só por razões económicas mas também por o fato estar feito com um tecido mais resistente, como antigamente.
      O fato foi um exemplo, tudo o que hoje se produz é para ser substituído mal seja apresentado.

      1. Não faltarão “tomadas” por todo o lado, para ligar os carros.

        Você não está a ver bem a questão. A bateria demora uma dúzia de horas a carregar totalmente. Não é como com a gasolina, em que você atesta o depósito em 5 ou 10 minutos. Um carro gasta 20 kW.hora para fazer 100 quilómetros. Se você quer fazer uma viagem Lisboa-Porto, gasta 60 KW.hora. Numa tomada que debite 2 kW, isso corresponde a 30 horas a carregar a bateria! Uma pessoa que more no centro de Lisboa dificilmente poderá levar o seu carro para um estacionamento algures na cidade onde haja uma tomada e deixar lá o carro durante um dia inteiro a carregar. Isto numa cidade onde os estacionamentos já são, de si, escassos. Você agora terá que criar umas dezenas de milhares de espaços de estacionamento novos com uma dezenas de milhares de conexões elétricas potentes.

        Veja: a EMEL em Lisboa tem cerca de 100 mil lugares de estacionamento marcados nas ruas. Suponhamos que um décimo (isto já é favor! somente um décimo!) dos automobilistas deseja carregar o seu automóvel durante a noite, e não tem eletricidade nos lugares de estacionamento da sua rua. Que fazem esses 10 mil automobilistas? Onde vão eles deixar o seu carro a carregar durante a noite? Onde se vai arranjar 10 mil espaços de estacionamento com tomadas elétricas onde esses 10 mil automobilistas possam deixar os seus carros a carregar durante a noite?

          1. Os carros a eletricidade têm certamente futuro… junto de alguns clientes. Uma pessoa que habite numa moradia suburbana e que somente utilize o carro para pequenas viagens, tipo ir todos o dias para o trabalho, tem toda a vantagem em ter um carro elétrico.
            Agora, para muitos outros clientes, em particular na Europa onde a maior parte das pessoas habita em prédios e muita gente não tem estacionamento privado, os carros elétricos não são viáveis. A não ser, claro, que sejam instaladas tomadas elétricas ao longo de todas as ruas que servem de estacionamento.

  6. A brigada panzer não perdoa.
    Ando há tempos em conversas com um bioquímico da corda a ver se há jeito de me trocar o carbono por outro elemento aprovado pela santa inquisição. Já lhe repeti que só com o Mendeleev não vou longe,encomendei já duas tabelas de parede mas tá quieto.
    n

  7. Eu não tenho nenhum problema em particular com carros eléctricos. Tenho-o, no geral, com os maluquinhos dos carros eléctricos, moralistas e ideólogos. Se acho muitos dos eléctricos mais feios do que bater na avó? Sim, mas a verdade é que também os outros o são: a fealdade e a obesidade mórbida parecem ser as palavras-chave das modernas linguagens de design automóvel.

    Quando eu era novo, seguia atentamente o mundo dos automóveis. Coleccionei cromos, comprei revistas e livros, reconhecia qualquer carro que passasse na estrada. Desde há uma dúzia de anos que me desinteresso cada vez mais da evolução da indústria. Continuo a comprar revistas e livros, mas limito-me aos clássicos.

    Os meus pais, fiéis à aura alemã da Opel, tiveram os seus três carros dessa marca: um Kadett C, um Corsa B e um Corsa D (é um óbvio indicador de um entusiasta conhecer os códigos das gerações de um modelo). Cada um deles foi menos fiável do que o antecessor. É verdade que a Opel “já não é bem” a Opel (que diabo, até a Kate Beckinsale “já não é bem” a Kate Beckinsale), mas é revelador que as razões para a pior fiabilidade não foram mecânicas: os sensores (malditos sensores) e as electrónicas é que causaram problemas. Um colega meu da faculdade, que conduzia um (já então) clássico 2 CV, costumava dizer que o carro nunca lhe dava problemas: era conduzi-lo a fundo até começar a cheirar a queimado; abrandar um pouco até deixar de cheirar; voltar a esticar a perna até sentir de novo o cheiro; e assim sucessivamente. Sensor havia um: estava-lhe no meio da cara. A única vez que ficou empanado, contou, foi por se ter partido o cabo do acelerador num passeio pelo campo. Parou um indivíduo com ar que agricultor que, quando o meu colega lhe pediu boleia para ir chamar um mecânico, lhe respondeu “oh amigo, não é necessário, arranje-me aí um atacador ou um cordel e já lhe desenrasco isso”. O Corsa D dos meus pais, certo dia, recusou-se a pegar por causa de um qualquer sensor de gasolina avariado, e outra vez era a centralina que se passara dos carretos. Por causa da centralina, estiveram duas semanas parados porque o tipo que sabia mexer na máquina de diagnóstico estava doente.

    Mas aquilo que mais detesto na evolução da indústria, ainda mais do que a miríade de sensores e sistemas electrónicos que demoram mais tempo a “bootar” do que um computador, ainda mais do que a constelação de sensores que pipilam nas manobras e ainda mais do que as “ajudas” que se intrometem na condução, são os ecrãs a substituir painéis de instrumentos e tablets a substituir botões. Não é apenas pela ergonomia perdida (alguns fabricantes já começam a recuar nesta idiotice), mas também pela futura obsolescência precoce: o que sucederá, daqui a vinte anos, quando um desses painéis se avariar, ou uma simples ROM se corromper? Está o carro condenado a ser atirado para a sucata?

    1. Concordo que os sensores que todos possuímos devem ser suficientes para poder lidar com um carro. Essa do 2CV é um belo exemplo. Mas é também por isso que os carros electricos, além de muito caros e exuberantes em sensores e outros “auxiliares”, me irritam.
      É fácil imaginar que no futuro os carros, tal como os telemóveis, estarão todos conectados por uma rede informática, conexão essa que se banalizará por motivos de segurança rodoviária. Depois disso, podemos imaginar uma história distópica em que um ditador, auxiliado por inteligência artificial, controlará as deslocações de todos os seus “súbditos” e dessa forma os impedirá de se rebelarem contra ele. É então que a salvação da humanidade irá depender de um 2CV, uma Renault 4L, um Fiat 127 ou, quem sabe, de um Morris Mini, que, fumegando pelo escape, desconectado do Matrix e com o cabo de acelerador reparado por um arame de fardo de palha encontrado à beira da estrada, irá transportar o personagem principal até aos servidores centrais do monstro. Até ao desenlace da história, o herói ainda terá de usar um isqueiro (BIC se a produção for tuga ou Zippo se for amaricana), um elástico das fisgas e terá de fazer uma ligação directa ao motor de arranque recorrendo a uma pulseira das bolinhas que o António Sala vendia. Vai ser o sucesso das plataformas de streeming unificadas.

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