Kyrie
Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus, que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!
(José Carlos Ary dos Santos )
Imagem: A transfiguração de Cristo, de Rafael


Brava escolha, Ana. Boa Páscoa.
Não foi por acaso que incluí este poema nesta série, Ariel. Ary é um poeta que admiro e a quem reconheço um rasgo poético originalíssimo. De resto, as minhas escolhas poéticas nunca tiveram cor política (ainda que se traduzam numa escrita tão “engagé” como a do Ary, cujo ideal político nunca perfilhei): a poesia, para mim, ou é boa ou não é boa. E este poema, na minha opinião, é sublime.
Boa Páscoa também para si.
🙂
Essa é a versão inicial do poema, conforme consta, com o título “Kyrie”, no livro “A Liturgia do Sangue”, sem indicação de editor e de data (mas de 1964, penso).
Em publicações posteriores, sob o signo do PCP, herdeiro universal do poeta, a parte final não é essa, tendo desaparecido o apelo ao regresso do “Filho de Deus”…
Não sabia disso, António. Se é verdade, esse acto do PCP representa não só uma enorme insensibilidade e estupidez, como um profundo desrespeito pelo poeta que lhe deixou a sua obra. Além do mais, há uma óbvia provocação neste poema que interpela um Deus (apesar de tudo escrito com maiúscula, no original) aparentemente esquecido do seu rebanho, que parece ter escapado aos “iluminados” do partido.
Mas é exactamente esse misto de ira e respeito, de provocação e submissão, de ironia e humildade, o que sempre me fascinou neste poema. E também em outros de Ary dos Santos, que denunciam claramente uma luta íntima entre a fé e o repúdio desta. E não é por essa luta que todos os homens passam algum dia, afinal, perante injustiças e desgraças inexplicáveis?
Boa Páscoa.
Não me parece que a alteração tenha sido do PCP. Acho que foi o próprio autor quem, a certa altura e tendo em conta o que terá pensado ser exigência da intensa militância política por que enveredara, considerou dever mudar os últimos versos do poema, aliás excelente na versão original (como aqui aparece, e muito bem).
Menos mau. Mas mau, ainda assim, porque significa uma pressão óbvia.
Também lhe desejo uma Páscoa feliz, Ana.
Boa Páscoa, Ana! 🙂
Boa Páscoa, Luísa!