“Os ricos são todos iguais, os pobres é que são todos diferentes“, afirma hoje ao “i” o Francisco José Viegas, claramente frustrado com a sua recente aventura política. A frase lembrou-me um outro artigo que li há dias sobre o livro “Os Dabney, Uma Família Americana nos Açores” a reconstituição da sociedade faelense feita a partir da história de uma família americana que se radicou na ilha no século XIX.
Organizada por Maria Filomena Mónica e Paulo Silveira e Sousa, a obra é baseada no registo diarístico feito por um dos elementos da família que ali viveu ao longo de três gerações, até 1892. Anti-esclavagista e reflectindo valores que radicam na moral e na ética protestante, os Dabney desenvolveram com a comunidade uma relação cortês que se estendeu a todas as classes sociais, em flagrante contraste com as elites autóctones, “que ignoravam a extrema pobreza em que o povo vivia, passando por ele como se fosse transparente”.
O registo deste choque cultural dá-nos uma perspectiva interessante dos portugueses. Não dos que nos são contemporâneos, mas dos nossos igrégios avós. Os que nos transmitiram as chaves desta sociedade em que a mobilidade vertical se mantém difícil, a pobreza se perpetua, não existe por parte dos ricos uma cultura de serviço à comunidade e hábitos de filantropia e os privilegiados vivem enquistados nos seus próprios interesses, circulando em circuito fechado, longe de olhares indiscretos. Vou lê-lo um dia destes. Quem sabe talvez me ajude a perceber melhor o que derrota quem passa pelo poder, sobretudo os que não dependem da política para viver e podem, por esse motivo, falar sem sofismas da entropia da coisa.


Nem mais. Também me parece que este é (e tem sido) um dos nossos maiores problemas. Numa sciedade que todos os dias se fustiga a si própria com toda a sorte de disparates enunciados como características psicológicas e maneiras de ser nacionais, dá-me ideia que a fraca mobilidade social e uma elite estanque e pobre de espírito (porque é católica-tradicionalista e tem medo de perder privilégios) respondem pela maior parte dos nossos sarilhos ao longo da História.
Pois é, Vasco. Acredito que esta é uma das chaves que explica a nossa endémica falta de sucesso.
Coitada da Francisca. Chorei que nem uma Madalena a ler entrevista, sobretudo naquela parte de ter de andar à procura de emprego, tadinha, e, por milagre, ter encontrado os empregos que tinha ali mesmo à espera dela… Ela está aqui está a escrever novelas para a TVI (rima e é verdade).