Raisparta ao Diabo


tralhasdavida,

Imagine que se voluntaria para abrir um negócio solidário. Reúne 50 voluntários, arranja maneira de conseguir doações permanentes de bens e até arranja um parceiro que lhe oferece o espaço. Tudo para que 100% dos lucros revertam para uma instituição.

Mas quer fazer tudo como manda a lei, que se é para ser voluntário não quer chatices com as finanças. De maneira que funda uma Associação, tão transparente como um copo de água, compra um software de facturação homologado, vê-se às aranhas para perceber como é que a geringonça funciona, mas lá regista todas as vendas, que é para ficar tudo certinho, certinho.

No primeiro ano a actividade corre sobre rodas. De maneira que é para continuar. Só que, para continuar, agora é preciso pagar IVA.

Ou seja, 50 pessoas trabalham de graça, gastam tempo, gasolina e estacionamento do seu bolso. Centenas de pessoas oferecem bens vendáveis. Uma entidade oferece espaço. Tudo para que seja possível reverter 100% da angariação para uma causa.

E, depois de um ano de benevolência por parte do Estado, agora só vai ser possível reverter 94% desse valor; há 6% que vão direitinhos para os cofres das finanças.

Da minha parte, fico com uma tremenda sensação de injustiça. Estão a obrigar-me a oferecer 6% do meu tempo e do meu esforço para o estado (reforço que ganho 0 euros e que trabalho praticamente a tempo inteiro para a Associação). Também deduzo que as pessoas que doam os bens com a intenção de que sejam convertidos em fundos de caridade, não achem piada nenhuma que uma percentagem siga para uma entidade que não a instituição que pretendem privilegiar.

Mas é assim que teremos de funcionar. Raismapartam.

0 comentários em “Raisparta ao Diabo”

  1. Embirro com o verbo voluntariar. Soa pessimamente e nunca o encontrei em nenhum dicionário. Chego a pensar que é uma corruptela do verbo inglês To volunteer.
    Sei que está na moda o uso de corruptelas do inglês (glamour, adição, antecipar…) como também a utilização de palavras portuguesas muito parecidas com palavras inglesas (com a mesma raiz latina), com o sentido que têm as inglesas apesar de significarem outra coisa (às vezes o oposto). Exemplo: dizer eventualmente como se significasse eventually. Há dezenas de exemplos. Embora esta maneira de falar esteja a tornar-se comum na televisão e nos jornais, eu detesto e não me entra no ouvido. Se calhar não tenho razão e tenho de treinar o ouvido e reaprender o sentido destas palavras novas…

    1. Respeito a sua embirração (eu tenho outras como a moda de se dizer que o carro ia muito rápido, em vez de depressa, e coisas parecidas), mas a verdade é que quando se trabalha em voluntariado, o verbo acaba por fazer falta em diversas situações.

  2. Querem socialismo têm de o pagar. Apesar dos esforços recentes a doutrina socialista ainda não diz que o socialismo é ir buscar o dinheiro aos mercados e não pagar.

  3. Tomara que fosse culpa do Diabo porque a questão e, o que sente é, apenas, uma pequena amostra de um Estado que quer meter o bedelho em tudo, até naquilo que os cidadãos querem, simplesmente, dar.
    Todas estas pequenas situações, onde um Estado quer controlar tudo para retificar tudo, acaba por abafar até as ações mais meritórias dos indivíduos.
    Não foi por acaso que, para outra situação, deixei o link de um vídeo que, provavelmente, não viu ou pensará que nada tem a ver com o assunto mas, talvez ouvindo, nesta conferência em Fátima, G. Edward Griffin, perceba a injustiça de um Sistema que quer erradicar todas ou quaisquer ações individuais. E como, este Sistema está a caminho de virar globalizado, agora a queixa é pagar para fazer o bem, pois já há sítios onde dar comida a um sem abrigo, pode dar pena de prisão. Estamos entrando, num mundo de loucos e, o melhor, será começar a questionar o porquê de tanta irracionalidade.
    YouTube:
    https://www.youtube.com/watch?v=005cahIsSXE
    G. Edward Griffin: How Socialism, Communism, Fascism are All the Same

  4. a dúvida é: esses 6% de iva é referente à venda dos prudutos doados?
    porque em termos de associações o top continuam a ser as casas de povo e os partidos politicos que têm um enquadramento fiscal mais benefico

  5. E por estes tempos suponho que estará muito bem assim. O estado está como está, insaciavelmente sedento de receita e tomado de uma loucura messiânica, a seu tempo trágica, de inimputabilidade despesista. Se a máquina fiscal sempre foi coisa odiosa, só se pode fundamentadamente pensar que o seu despudor piore.

    E bem sabemos como a esquerda no poder, directamente ou como pilar fundamental para a sua continuidade, detesta e condena o voluntariado, tomando-o fatalmente como coisa de “tias” e “tios” ociosos (lembremo-nos do “brincar à caridadezinha, festa, canasta e muita comidinha”) que concedem como favor assistencialista – e por isso repugnante – o que deveria ser um direito formal e materialmente consagrado, assim perpetuando a injustiça, a miséria e a exploração do povo. O facto da máquina pública ser incapaz, apesar da fúria fiscal, e da legião do funcionalismo (mesmo aquele de extrema dedicação) de concretizar essa consagração, é-lhes evidentemente irrelevante. Interessa sim enunciar e repetir o dogma.

    Sobre projectos de voluntariado, IPSS e tudo o que vise colmatar a demissão do estado, daquelas que deveriam ser suas funções e competências, onde parece que só questões “fracturantes” por estes dias relevam, não será prudente, diria, esperar especial consideração da coisa pública.

    No poder está gente que toma por dogma que tudo deve ter a tutela do estado. Não a tendo parece que é melhor nada haver. Veremos se não será a seu tempo tido como melhor – patriótico (para o internacionalismo a pátria conta, quando interessa), progressista, de esquerda enfim – morrer de frio, fome ou estupidez em lugar de aceitar um cobertor, uma refeição ou um livro das mãos de privados.

    Costa

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