
Quem serão os contemplados com o Nobel da Literatura? Este ano deverão ser anunciados dois – não apenas o de 2019 mas também o de 2018, que não chegou a ser atribuído.
Faltam 24 horas para sabermos. Gostaria de perguntar aos leitores do DELITO em quem apostam. Pela minha parte, reitero desejos antigos: ver Milan Kundera ou John Le Carré distinguidos pelo Comité Nobel. Mas talvez o Nobel, desta vez, premeie uma mulher. A canadiana Margaret Atwood ou a norte-americana Joyce Carol Oates, por exemplo.
Seria justo.

Por várias razões, e uma das quais é mesmo o processo que abalroou a Academia Sueca e levou ao adiamento da entrega do prémio no ano anterior, um dos premiados será uma mulher. Atwood seria uma boa favorita mas enfrentar o metoo não será o que a Academia Sueca fará neste ano.
Para mim o preferido seria Lobo Antunes. Milan Kundera e Cormac McCarthy encher-me-iam de satisfação.
Também gostaria muito de ver o primeiro Nobel brasileiro. Rubem Fonseca, sobretudo. Mas presumo que seja politicamente incorrecto aos olhos dos académicos suecos.
Em escritoras, Lygia Fagundes Telles ou Nélida Piñon. Qualquer delas merece.
Milan Kundera está fora do baralho. Desde A insustentável leveza do ser, que já foi há dezenas de anos, os seus livros têm sido fracotes. Eu li-os quase todos e não tenho dúvidas, a sua fase de fulgor passou depressa, atualmente não passa de um professor de literatura, de escritor tem pouco e fraco.
Você leu os livros dele “quase todos” sabendo que é “fraco”.
Deve ter uma costela masoquista muito acentuada.
Não, os seus livros têm sido fracos somente depois da Leveza do Ser. Antes, eram fantásticos, muito bons.
Sim, o fulgor máximo do Kundera já foi há décadas.
Tretas… A Valsa do Adeus, A Brincadeira Imortalidade..
Nos meus 20 e picos anos era o meu escritor favorito… Ia à Biblioteca buscá-los, excepto a Insustentável… que havia lá em casa.
Gostava que ganhasse Lobo Antunes
A Valsa do Adeus e A Brincadeira são excelentes. Já A Imortalidade, é somente passável.
Mas o Nobel também é um prémio de carreira. Não me importava que ele recebesse, mas ficaria admirado, já que o comité do Nobel prefere por norma maior “diversidade” geográfica.
Politicamente incorrecto em excesso, creio, para o júri de Estocolmo.
não sou crítico literário nem grande conhecedor mas … o trecho do comunismo como kitsch do “A Insustentável Leveza do Ser” já teve o seu Nobel, a própria História. Seria curial que lhe dessem o prémio, literalmente falando.
Ora bem.
Javier Marías e uma qualquer escritora para que as feminazis não fiquem escandalizadas.
Javier Marías seria um excelente vencedor. Mas é politicamente incorrecto, como as crónicas dele bem demonstram. E os tempos não são nada propícios à incorrecção política.
Concordo consigo Pedro Correia.
Mas seria um bom golpe contra a “tirania da maioria”, como disse Stuart Mill.
Pois seria. Mas esse golpe não poderá vir daquele conjunto de académicos de Estocolmo. Herdeiros dos que ignoraram Borges, Joyce, Kafka e Virginia Woolf.
Creio que no caso do Kafka a culpa terá sido do Max Brod por não ter sido suficientemente lesto a enviar os manuscritos pelo correio…
É certo. No caso de Kafka, há essa atenuante.
Joyce não sei, que foi bem antes, mas Borges, que foi no nosso tempo? Sem atenuantes …
Sem atenuantes de espécie alguma. E outros: Greene, Nabokov, Conrad, Malraux, Yourcenar…
Conrad é muito recuado – em termos literários será incompreensível não o terem premiado mas não faço a mínima ideia de como seria a constituição e o conteúdo cultural dos juris desse tempo. Dos que foram nossos contemporâneos já será mais fácil … surpreender-nos, dado que o Nobel é um prémio que se auto-assume (o seu juri, claro) como uma espécie de “campeonato mundial da literatura”. Greene é mais compreensível que não tenha sido premiado, à luz de um conservadorismo avaliativo – não sendo um escritor de rupturas (às quais os juris não costumam ser muito sensíveis) – ele tem livros muito “ligeiros”, e de sucesso comercial. Terá pesado para não o nomearem. Borges foi uma questão política, obviamente. Nabokov incompreendo mesmo, e só poderá ser o facto de ser uma espécie (muito peculiar) de “russo branco” que terá levado a isso. Agora Yourcenar? Vista de hoje, talvez com anacronismo, tinha tudo para ganhar o prémio – mulher, lésbica, auto-“exilada”, valores “humanitários” inscritos nos seus textos (está no regulamento, pois o prémio não é apenas literário), etc. Nunca compreendi que não lho tivessem dado.
Ao comentar aqui perguntei ao senhor Google porque não ganhou Nabokov o prémio Nobel: deu-me isto, que tem alguma piada (e elenca vários autores que na época foram consdierados e desdenhados) – para que ganhasse em 1965 Sholokov (aquele do Don Tranquilo, uma pepineira) https://www.theguardian.com/books/2 016/jan/06/borges-auden-nabokov-neruda-n obel-prize-literature-1965
e uma visão horrível do homem, que talvez não tenha ajudado aos que o gostariam de ver laureado https://www.bostonglobe.com/ideas/2 016/12/02/nabokov-was-such-jerk/PLLEJmD9 tqWgj5CSgDumrK/story.html
ou um texto mais interessante mas que mostra uma personalidade literária pouco cativante https://www.doppelgangermagazine.com/ju ne/naben_ruthnum/
https://eyeoflynx.wordpress.com/201 4/03/05/great-authors-who-didnt-win-a-no bel-prize-for-unlikely-reasons/ – ou uma lista de não premiados e as razões possíveis de Nabokov não ter ganho em 1974, tal como Greene que fora nomeado (ganharam dois suecos que …faziam parte do juri: o clientelismo também existe no sacralizado Norte …)
Don DeLillo…
Duvido muito. Se for um autor americano, será mulher. Não homem.
Caso contrário haveria levantamento de rancho MeToo.
Esse não, francamente
Vou torcer pela Margaret Atwood porque gosto
de a ler ( seria merecido na minha modesta opinião) e porque não li Joyce Carol Oates .
Seria merecido, sem dúvida.
Kika, e porque não duas mulheres?
Em 114 anos de Nobel apenas 14 mulheres o receberam; os homens continuariam com uma vantagem ENORME e inultrapassável até ao século XXI…
Gosto de ambas, mas não acredito que nenhuma delas seja premiada.
Amanhã saberemos 🙂
⚘
Maria
…até ao final do século XXI
⚘
Maria
Nada contra . Só que também não estou de acordo que
prémios sejam atribuídos a mulheres unicamente por estarem
em inferioridade numérica. Para mim será sempre o talento que deverá
prevalecer. A Joyce Carol Oates já está na minha lista.
Aguardemos então 🌻
Eis uma das maiores injustiças do júri do Nobel literário: não terem premiado Karen Blixen, Virginia Woolf e Katherine Mansfield.
Só li Virginia Wolf e confesso que foi um exercício difícil
para a minha pequena pessoa e a biografia curiosamente
tão ou ainda mais difícil.
Woolf
Sugestão de leitura de um dos melhores romances de Virginia Woolf: 798564.html
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4
Completamente de acordo, Pedro.
⚘
Maria
Faltou-me a Marguerite Yourcenar. Outra omissão imperdoável.
Também não estou de acordo que ganhem (apenas) por serem mulheres, mas o que não falta são mulheres a escrever muitíssimo bem por esse mundo fora 🙂
E até acho que cá em casa há mais livros escritos por homens… mas que seria muito engraçado se ganhassem duas mulheres, lá isso seria.
🍃🍁🍃
Maria
Por mim, nada a objectar. Antes pelo contrário.
“Em 114 anos de Nobel apenas 14 mulheres o receberam; os homens continuariam com uma vantagem ENORME…” É o que eu digo mais abaixo. Já agora, quantos escritores pretos foram contemplados? E gays etc.
Abandonamos definitivamente os critérios de mérito?
“Escritores pretos”, Zé?
Se os brancos tivessem permitido que eles aprendessem a ler e escrever mais cedo teria certamente havido alguns.
Agora já há bastantes a ganhar prémios literários e não só.
“Gays”?
Dentro do armário, alguns.
“Critérios de mérito”?
O que é isso?
O que é bom para uns, será péssimo para outros… e não tem nada a ver com o género.
🍁
Maria
Sobre Woolf: o-principio-ao-fim-29-8886617
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/d
E, sobre Joyce Carol Oates, uma coisa longuíssima que, vá-se lá saber porquê, resolvi alinhavar há já 10 anos: 630.html
https://escafandro.blogs.sapo.pt/94
Mas, claro, de momento a escritora a descobrir (para quem, como eu, não o tenha já feito) é Olga Tokarczuk. 🙂
Sinceramente agradecida.
Apenas um lembrete
Em 2018 a Academia das Ciências indicou Agustina Bessa-Luís (e Manuel Alegre) para Prémio Nobel da Literatura.
Isabel
Agustina seria bem lembrada. Mas agora já não será possível.
Pois não.
Isabel
Ando para escrever sobre ela já há uns tempos. Continua na minha agenda.
Será que vão começar com as quotas no Nobel?
Já começaram. No ano em que deram o Nobel a Toni Morrison.
Estando vivos escritores como Norman Mailer, Philip Roth e John Updike.
As “quotas” (critérios geo-políticos-linguísticos) há muito que estão na agenda, bem para além desse caso que referes.
Roth já não faz parte do mundo dos vivos, Pedro.
Nenhum dos três que mencionei acima faz. Mas fazia quando o Nobel foi atribuído a Toni Morrison. O contexto da frase era esse.
Perez-Reverte (D.Arturo)…
Pero no hay huevos…
JSP
No hay, no hay…
O Nobel só é importante para as editoras livreiras. Com uma história recheada de nulidades https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_No bel_laureates_in_Literature , não serve como medida da qualidade literária. Mas se eu votasse – Dog forbid!… – era no Alberto Manguel.
Também votaria nele.
Pelo que escreve e pelo que fez em jovem: seria assim uma espécie de homenagem ao Jorge Luis.
⚘
Maria
Milan Kundera
Pois.
Salman Rushdie é desde há alguns anos o meu escritor vivo preferido, junto com Vargas Llosa que já foi laureado e por isso não conta. Porém, não acredito que a academia tenha tomates para enfrentar o islamismo radical e o cancro do politicamente correcto que corrói uma certa intelectualidade dominante e o bom senso geral.
E já que de tomates escrevo, partilho a opinião de jpt acerca da inevitabilidade de um dos premiados ser mulher, pelas razões que o próprio refere.
Não duvido que assim será.
Salman Rushdie é desde há alguns anos o meu escritor vivo preferido, junto com Vargas Llosa que já foi laureado e por isso não conta. Porém, não acredito que a academia tenha tomates para enfrentar o islamismo radical e o cancro do politicamente correcto que corrói uma certa intelectualidade dominante e o bom senso geral.
E já que de tomates escrevo, partilho a opinião de jpt acerca da inevitabilidade de um dos premiados ser mulher, pelas razões que o próprio refere.
Peço desculpa pela duplicação do comentário…
Só agora vi. Não tem importância. Faz parte da dinâmica do blogue. Antes pecar por excesso do que por defeito.
O Nobel da Literatura ficaria muito bem a Philip Roth, no entanto, é impossível dado ter falecido.
Há dias assim, a puxar para a pátria à beira mar plantada gostaria imenso que o António Lobo Antunes fosse o escolhido para ser Nobel da Literatura.
Como não vão dar-me essa alegria pode ser à Margaret Atwood e ao Haruki Murakami. (Acho que serão dois escritores a receber o prémio este ano)
Duvido que Murakami receba. O júri do Nobel não aprecia escritores “comerciais” (embora tenha galardoado García Márquez).
Mas sobretudo porque é muito recente (de 2017) o Nobel concedido a outro japonês, Kazuo Ishiguro. Prémio justíssimo, diga-se.
Concordo. O Murakami é vítima do sucesso. Gosto dos livros dele. A tradução portuguesa feita pela Maria João Lourenço (tradutora oficial) é muito boa.
Já li alguns livros de Kazuo Ishiguro e quando lhe foi atribuído o Nobel da Litetatura achei muito merecido.
Fez bem em deixar aqui essa recomendação.
Ficaria muito satisfeita se fosse para o Lobo Antunes ou Murakami.
Lobo Antunes está na lista. Há quem diga até que figura numa lista pré-final.
Esperemos bem que seja desta, que Odin interceda! 🙂
Eu gostaria muito, confesso. Há quatro livros dele que recomendo sempre: ‘Memória de Elefante’, ‘Os Cus de Judas’, ‘Conhecimento do Inferno’ e ‘Auto dos Danados’. 162086.html
Além das incomparáveis crónicas – cada uma delas é um conto.
Uma vez escrevi aqui sobre uma crónica de Lobo Antunes:
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1
Excelente post, Pedro Correia. Não me recordo de o ter lido.
A crónica, essa, é maravilhosa. Um texto de amor sublime…
Esperemos que Lobo Antunes seja reconhecido, hoje.
Uma belíssima crónica, sim. Depois disso já identifiquei o prédio, e o andar. Sempre que passo nessa rua olho lá para cima e lembro-me desse texto escrito do fundo do coração.
“Aún hoy, si paso por la calle Filipa de Vilhena, el corazón se transforma en una gota. Los árboles no han cambiado, poca cosa ha cambiado por ahí. Casi siempre doy la vuelta con el coche para no encararme con nuestra ventana. Sé cuál es. “
Tão bonito. Gosto muito das crónicas do Lobo Antunes e não conhecia esta. Obrigada.
Tiro na água… Olga Tokarczuk e Peter Handke.
Paridade absoluta, como se previa.
Nunca li Murakami. Se Lobo Antunes ganhar convido-vos para jantar.
Espero bem que tenha de pagar o repasto!
Se ganhar o Murakami, ofereço-lhe um livro. Acho que irá gostar.
Vou pela Joyce. Tem muito bom ar.
Nem o outro Joyce nem esta Joyce.
Talvez demasiado americana para ganhar o Nobel.
Já que os suecos gostam tanto da diversidade literária, porque é que não premeiam a língua portuguesa? Só tem um nobel, com mais de vinte anos, e nomes há que mereciam lá chegar – Lobo Antunes, Ruben Fonseca, Agualusa, Mia Couto, Germano Almeida, e talvez no futuro Gonçalo M. Tavares e Afonso Reis Cabral. Podiam dar um à lusofonia. Mas duvido que venha aí outra surpresa, quase tanto como a de um “consagrado” ganhar o prémio.
Rubem Fonseca e Germano Almeida, sim. Além de Lobo Antunes. Acrescento Lygia Fagundes Telles e Nélida Piñon.
E já agora, Pedro, só para agitar as águas 🙂 vou botar o Chico Buarque nessa lista, embora não acredite que aconteça.
Seria linda a festa, pá, com a Banda a tocar…
⚘
Maria
Nunca será de excluir, Maria. Os critérios da Academia Nobel são ínvios. O García Márquez costumava contar que o Pablo Neruda só ganhou o prémio, em 1971, porque contactou antecipadamente os membros do júri dizendo-lhes que estava «a morrer» e ou recebia o prémio naquele ano ou jamais o receberia.
O facto é que recebeu mesmo. E viria a morrer dois anos depois.
Bem, Pedro, acabou a ‘Angústia’, pelo menos para o Peter Handke.
E sim, foi uma surpresa!
A Olga Tokarczuk estava entre as favoritas, o que também não quer dizer nada…
E para o ano há mais.
That’s all, Folks!
🌲
Maria
Deu para perceber que não adorei, não deu?
O mundo é tão grande e ficou tudo na Europa.
Sim, para o Peter Handke acabou a “angústia”. Autor de um título citadíssimo de uma obra que quase nenhum dos citadores leu.
Eu incluído…
Mas devias … Muito me surpreendeu. Quanto à polaca desconheço, nunca li.
Quanto ao Nobel em português: Mia Couto, Agualusa, Germano Almeida? Ele há cada ideia …
Eu este ano ando quase só às voltas com autores portugueses do século XX. Já lidos ou relidos 27 livros desde Maio.
Isso é bom. Mas estes três não-portugueses propostos pelo comentador, por mais apreciáveis que sejam (e são), seriam opções algo surpreendentes para prémios nobeis …
Não sei se seriam assim tão surpreendentes depois de algumas escolhas, como os francófonos Le Clezio (este também meio africano) e Modiano, por exemplo. Serão nomes menores na literatura, mas já houve tantos em Estocolmo…
Eu li o livro, mas não vi o filme do Wenders.
🍃🍁🍃
Maria