Quem se vê na TV (9)


jmmcc,

Os infatigáveis-em-busca-do-ponto-perdido

São pessoas a quem Deus deu o dom da fala e o usam para tentar provar que Ele também se engana. Os infatigáveis-em-busca-do-ponto-perdido, espécie de Indiana Jones da palavra, andam em luta permanente e correm os maiores perigos para descobrir onde é que esconderam o ponto final.

As suas faringes são de caixa de ressonância automática: engatam a primeira sílaba para arrancar e depois é só pisar no acelerador. Lutam contra todos os que se esforçam por lhes cortar a palavra e enfrentam o grande perigo de lidar com interlocutores que antes pareciam homens normais e que, perdida a paciência e sem pré-aviso, acabam por se tornar violentos.

Nunca se deve perguntar que horas são aos infatigáveis-em-busca-do-ponto-perdido, porque eles nunca começarão a resposta com uma simples vista de olhos ao relógio e nunca a terminarão na leitura do ponteiro dos minutos. Estão sempre dispostos a partir em busca do ponto final — tipo Miguel Sousa Tavares n’O Rio das Flores, mas em versão oral.

É mais fácil do que parece encontrar elementos deste grupo, o qual tem engrossado desmesuradamente na proporção em que cresce o número de canais televisivos.

Um dos infatigáveis-em-busca-do-ponto-perdido mais populares é o Paulo Bento. Se lhe derem corda, até passa pelos primeiros pontos finais sem sequer os reconhecer. Mas é também um dos exemplos mais pacíficos, porque vai entrecortando as palavras com momentos de silencioso suspense — que ninguém hã… interrompe, só pela curiosidade de… de saber que ideia vai hã… sair dali, se… se é que vai.

O Rui Santos, aquele que protagoniza o programa mais longo da SIC-Notícias, é um excelente exemplo entre os infatigáveis-em-busca-do-ponto-perdido. Parece até que foi ele que conquistou o seu espaço televisivo pela fala, porque só estava inicialmente previsto fazer um curto comentário nas notícias de domingo à noite. Acabaram por tirar as notícias e pôr o Rui Santos.

Creio que a primeira vez que o Rui Santos foi à televisão era para dizer o que esperava de um jogo de futebol marcado para umas horas depois. Ele lá compareceu e começou a discorrer sobre o aguardado jogo. Quando encontrou o primeiro ponto final e acabou a primeira frase, o pivot aproveitou para lhe fazer a segunda pergunta:

— Acha que o resultado foi justo?…

15 comentários em “Quem se vê na TV (9)”

  1. O Rui Santos pode não ter ideias excessivamente solidas nem dizer frases demasiado acertadas, mas há que elogiar o fôlego dele: ninguém o bate na palração interminável a propósito de coisa nenhuma.

          1. E eu lá ia faltar… Olhe o relambório que lhe deixei aí em baixo!

            [A estas horas está a pensar: que faria se não estivesse cansada… Safa! Abençoado cansaço! Adivinhei?]

            :)))))

  2. E, desculpem o vernáculo, porra!

    Ontem à noite em todos os canais noticiosos aqui da tugaria se discutia, e aparentemente sem tempo limitado (como acontece ene vezes em entrevistas ou outros debates, em que se ouve constantemente dizer «já temos pouco tempo», «vamos ter de acabar, «já excedemos o nosso tempo») o pontapé na bola.

  3. Nem sei que diga! Muito bem “apanhado” como os restantes desta série! De facto o RS fala demasiado tempo para dizer o trivial.

    Aproveito para dois desabafos, além do RS e do PB:

    1) Lamento o tempo excessivo desses programas que mais não fazem do que falar da rama das coisas desportivas, dos aspectos laterais e normalmente alimentam o lado mais bestial da “coisa”

    2) Ainda me continuo a espantar como gente que de desporto só tem paixão clubista , decora as jogadas e os nomes dos jogadores, é chamada à qualidade de comentador desportivo. De um certo ponto de vista não se distinguem das conversas do quintal ou das tertúlias rosa. Os mexericos é que são outros!

    E é uma pena. A propósito de desporto, muita pedagogia podia ser feita, sem se perder o sentido da festa com agon, com alea, com mimicry, com ilinx …

    Parabéns mais uma vez pelos posts !

    :))))

    [Hoje tive um dia cheio de trabalho… a esta foi o que se arranjou para comentar…]

    1. O bastante para me satisfazer o ego.
      Os comentadores desportivos (desportivos não, de futebol só) merecem uma nota positiva: pugnam pela «verdade desportiva»! Seja lá o que isso for…

      1. Essa da verdade desportiva é uma boa discussão. Sobretudo a propósito da introdução das novas tecnologias na arbitragem do futebol, motivo da petição que o RS lançou.

        Concordando eu naturalmente com a utilização das tecnologias acho que a questão está mal colocada. Mas isso dá pano para mangas. Se quiser podemos “trocar umas ideias sobre o assunto” (parafraseando o título do livro do Mário de Carvalho).

        :))

        1. Quanto a mim, temos aqui um caso: é proibido pisar a relva, mas ninguém quer saber disso…
          Se eu fosse treinador, punha uns 12 ou 13 jogadores em campo: nunca vi alguém andar a contá-los…

          1. Percebi! Assunto encerrado!

            Mas sabe…

            Acho que não precisam de andar para os contar…contam-nos mesmo sentados rsrsrsr

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