Quem se vê na TV (3)


jmmcc,

Os tradutores de ideias

São repórteres de trabalho exterior básico que aspiram ser um dia "enviados especiais". Para os tradutores de ideias, os telespectadores são um bocado obtusos e, sobretudo, nunca percebem as coisas à primeira. Por isso é que eles se especializam na tradução das ideias que os outros nos dirigem.

Normalmente, o pivot em estúdio lança a notícia em poucas palavras, logo a seguir anuncia que o repórter está no local em directo, é feita a ligação ao exterior e dirige-lhe a primeira pergunta (que pode ou não ser a única).

Não raro, os tradutores de ideias pouco sabem sobre o que estão a fazer, mas nunca se atrapalham. Está tudo previsto e começam assim:

– Sim… hã… parece que de facto… hã… mas tenho aqui comigo o responsável que vai explicar melhor os acontecimentos. Diga-me, por favor, como é que tudo aconteceu?

Depois da explicação, viram as costas ao entrevistado e empinam-se todos para o momento crucial, que é mostrar trabalho:

– Como ouvimos agora, os acontecimentos foram acontecendo e blá-blá-blá-blá!

Os tradutores de ideias sabem que a gente nunca entende facilmente o que acaba de ouvir. É por isso que tentam explicar tudo outra vez. Mas a explicação que debitam costuma ser curiosa, porque vão entremeando frases repetidas do entrevistado com interpretações próprias. O problema é que estas raramente estão bem traduzidas.

Nao é muito grave, porque o discurso de encerramento dos tradutores de ideias, que é essa tradução livre que eles se permitem, serve apenas de ponte para assinarem a reportagem com o seu nome e dizer de quem é a imagem.

A imagem, sim, porque o som, esse, deve ser uma dádiva dos deuses…

6 comentários em “Quem se vê na TV (3)”

  1. … que se podem subdividir em sub-categorias:

    – os complicadores – complicam o que foi dito

    – os superficializadores – banalizam (ainda mais) o que foi dito

    – os acrescentadores – dizem o que (imagino eu) esperavam ter ouvido

    and so on and so on and so on

    :))

  2. E nem é preciso ser o responsável, digamos, dos bombeiros, da protecção civil, da polícia, etc.

    Essa moda pegou até relativamente a declarações de políticos, empresários, advogados, etc.

    Depois de terem dito o que tinham a dizer, os nossos estimados repórteres têm agora o vício de no-lo repetir. Não se enxergam mesmo.

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